Novo capítulo na sucessão presidencial

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O anúncio da saída de Aécio Neves da disputa pela candidatura do consórcio PSDB-DEM-PPS para a eleição presidencial de 2010 traz alguns novos contornos à corrida pela sucessão de Lula. O mais evidente é que, ao que tudo indica, o país caminhará, pela quinta vez consecutiva, para uma nova polarização entre os projetos petista e tucano, como ocorre desde 1994. A provável única novidade, desta vez, seria uma maior semelhança de personalidades entre os eventuais candidatos Dilma Roussef e José Serra do que aquilo que se viu nos pleitos anteriores, quando Lula enfrentou FHC, Alckmin e o próprio Serra.

 

O enredo plebiscitário imaginado pelo governo poderá constituir-se em realidade em 2010, caso o eleitorado compre a idéia de que as candidaturas de Dilma e Serra expressam não apenas projetos diferentes para o país, mas dizem muito, também, do que foram os governos de Lula e FHC, respectivamente. A oposição apostará na despolitização do debate, no que pode ser ajudada pela tradição do eleitor brasileiro de votar em nomes, e não em partidos ou projetos. Talvez até reconhecerá uma certa "herança bendita" do governo Lula e tentará dizer que Serra é mais preparado que Dilma para mantê-la e aprofundá-la. Quase uma comparação entre currículos. Mais animador, impossível.

 

Aécio, por sua vez, se voltará para Minas Gerais, onde tentará fazer seu sucessor, tendo para isto que enfrentar um adversário de peso como o PT local, ao mesmo tempo em que deverá ter uma vitória bastante tranqüila para o Senado Federal. Uma vez eleito deverá ser nome natural para presidir a Casa, colocando-se em posição privilegiada tanto no caso de uma vitória de Serra, com legitimidade para fazer do Poder Legislativo mais do que mera caixa de ressonância do Executivo, quanto no caso de uma vitória de Dilma, aparecendo como virtual líder da oposição e candidatíssimo ao Planalto em 2014.

 

Daí porque há de se duvidar que Aécio aceite compor com Serra a tal chapa ‘puro-sangue’, desejada por setores da oposição, posto que, em caso de derrota, afundaria junto com seu colega paulista e passaria quatro longos anos sem mandato. Já os demais prováveis candidatos, como Ciro Gomes e Marina Silva, tendem, no cenário de polarização que se desenha, a ficar emparedados entre os dois grandes projetos e as duas grandes máquinas partidárias representadas pelas eventuais candidaturas governista e de oposição.

 

Aécio, a rigor, não representava muita diferença em relação aos dois principais candidatos que se postam para a disputa, mas sua presença na cédula eleitoral poderia introduzir um pouco mais de imponderabilidade no cenário. Com sua saída da corrida pela sucessão de Lula e com a provável consolidação das candidaturas de Dilma e Serra, parece que se avizinha um debate ainda mais monótono para a corrida presidencial do próximo ano.

 

Wagner Iglecias é doutor em Sociologia e professor do Curso de Políticas Públicas da USP.

 

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