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Da capacidade humana de construir horizontes: conhecimento em jogo Imprimir E-mail
Escrito por Cassiano Terra Rodrigues   
Sábado, 26 de Dezembro de 2009
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Em 1950, foi publicado Canto Geral, de Pablo Neruda. Um dos poemas do livro se chama Los enigmas, reproduzido abaixo em seu idioma original:

 

Me habéis preguntado qué hila el crustáceo entre sus patas de oro

y os respondo: El mar lo sabe.

Me decís qué espera la ascidia en su campana transparente? Qué espera?

Yo os digo, espera como vosotros el tiempo.

Me preguntáis a quién alcanza el abrazo del alga Macrocustis?

Indagadlo, indagadlo a cierta hora, en cierto mar que conozco.

Sin duda me preguntaréis por el marfil maldito del narwhal, para que yo

os conteste de qué modo el unicornio marino agoniza arponeado.

Me preguntáis tal vez por las plumas alcionarias que tiemblan

En los puros orígenes de la marea austral?

Y sobre la construcción cristalina del pólipo habéis barajado, sin duda,

una pregunta más, desgranándola ahora?

Queréis saber la eléctrica materia de las púas del fondo?

La armada estalactita que camina quebrándose?

El anzuelo del pez pescador, la música extendida

en la profundidad como un hilo en el agua?

 

Yo os quiero decir que esto lo sabe el mar, que la vida en sus arcas

es ancha como la arena, innumerable y pura

y entre las uvas sanguinarias el tiempo ha pulido

la dureza de un pétalo, la luz de la medusa

y ha desgranado el ramo de sus hebras corales

desde una cornucopia de nácar infinito.

 

Yo no soy sino la red vacía que adelanta

ojos humanos, muertos en aquellas tinieblas,

dedos acostumbrados al triángulo, medidas

de un tímido hemisferio de naranja.

 

Anduve como vosotros escarbando

la estrella interminable,

y en mi red, en la noche, me desperté desnudo,

única presa, pez encerrado en el viento.

 

O poema é recitado no final do filme Ponto de Mutação (Mindwalk, EUA/França, 1990, dir. Bernt Capra), filme atualíssimo face aos dilemas contemporâneos relativos à ecologia, ao que se chama "sustentabilidade" e o legado que deixaremos às gerações futuras. Pelo que a Conferência de Copenhague veio a mostrar, mais uma vez parece que tais dilemas mostram-se insuperáveis, dado o direcionamento atual imposto pelas condições políticas e produtivas do capitalismo globalizado.

O enredo do filme é simples. Um político estadunidense, Jack Edwards (Sam Waterston), candidato derrotado às eleições presidenciais, busca um refúgio de suas atribulações em uma visita a seu amigo poeta Thomas Harriman (John Heard) radicado na França. Eles vão até Mont Saint Michel e lá encontram uma cientista norueguesa, Sonia Hoffmann (Liv Ullmann), em férias de suas pesquisas. Os três parecem estar em um turning point: o político vive um momento de crise em sua carreira, o poeta, após uma desilusão política (ele escrevia discursos para Jack), vive um exílio voluntário em um país distante de – para não dizer hostil ao – seu idioma nativo, e a cientista busca, na leitura da poesia, respostas aos seus questionamentos críticos – filosóficos, políticos – sobre sua atuação profissional. A conversa entre os três faz o filme e nos sugere as perguntas: o que é o mundo em que vivemos? Que mundo queremos construir?

 

A pletora de questões e problemas apresentados é irredutível aos limites deste pequeno artigo. O título original dá bem a idéia de o que se trata: um passeio intelectual, que vai da relação entre o desmatamento da Amazônia e a dívida externa brasileira até as mais recentes teorias sistêmicas da (auto)organização na natureza. Há dois focos principais do filme: por um lado, temos uma introdução à teoria dos sistemas, ao mesmo tempo em que somos apresentados a certos temas de teorias físicas contemporâneas, tais como a mecânica quântica e a física de partículas. Por outro, problemas sociais e políticos são discutidos de maneira geral, bem como soluções e alternativas para eles, sem, no entanto, especificações mais profundas. Baseado no livro O Ponto de Mutação de Fritjof Capra (que é irmão do diretor e também colaborou no roteiro), o filme apresenta muitas perspectivas e desenvolve todos os pontos de maneira inter-relacionada, buscando um ponto de vista holístico (atribuído no filme à cientista), passando ao observador a idéia de simultaneidade das relações. Não é um filme fácil e certamente pode ser rotulado de "filme-cabeça": a todo instante o observador é chamado a refletir, a pensar, a se questionar sobre nossa civilização atual e nosso papel como cidadãos politicamente inter-relacionados e mutuamente atuantes. Mas, de um ponto de vista filosófico, vale a pena destacar ao menos dois pontos.

 

Em primeiro lugar, vale destacar a cena em que as três personagens principais se encontram, em torno do grande relógio mecânico do castelo do Monte Saint Michel. O ponto de partida é a idéia do mundo como um grande relógio, um grande mecanismo racionalmente ordenado, planejado e posto em funcionamento por Deus, o grande relojoeiro (não por acaso, René Descartes e Isaac Newton são nomes frequentemente citados no filme). Segundo a cientista, os problemas políticos começam quando o original é abandonado em favor do modelo, isto é, quando o universo é visto como se fosse mesmo um grande mecanismo. E isso apesar das teorias científicas mais contemporâneas: um minúsculo cristal de quartzo há muito já tornou o grande relógio mecânico obsoleto. No entanto, a concepção mecanicista de mundo ainda perdura nas cabeças políticas.

 

Para a cientista do filme, a saída estaria em adotar uma concepção ecológica baseada em conhecimentos científicos mais atuais. Este é o segundo ponto que nos interessa. A ciência contemporânea não vê mais o universo em termos de engrenagens, peças mecânicas e partículas irredutíveis de matéria. Antes, lidamos agora com noções como "padrões de variáveis", "sistemas auto-organizados", "emergência", "hipóteses prováveis", "acaso", "indeterminação". Se o nosso conhecimento é posto nesses termos, por que ainda insistir em ações políticas que tentam enquadrar tudo em esquemas fechados e definitivos? Em outras palavras, como nosso conhecimento pode nos ajudar a construir um futuro aberto e integrativo, em vez de tentar determinar tudo de antemão, como se o mundo funcionasse como uma máquina? Talvez aqui a filosofia ainda possa nos indicar alguns caminhos.

 

Segundo Immanuel Kant, a idéia de horizonte tem a ver com o ideal iluminista da possibilidade de autodeterminação da humanidade: define-se um horizonte em termos da influência de certo conhecimento sobre a nossa conduta moral, indicando que a convergência entre conhecimento e fins humanos depende de uma determinação nossa: para quais fins queremos convergir? Responder a essa pergunta implica responder a três outras, de primordial interesse: o que posso saber? O que devo fazer? Que me é lícito esperar? Essas três questões definem, respectivamente, os domínios da especulação metafísica, da ética e da religião, e podem ser resumidos em uma quarta pergunta antropológica: que é o homem?

 

O próprio Kant dá uma resposta a essa quarta pergunta. Em sua obra Antropologia de um ponto de vista pragmático, ele relaciona a idéia de horizonte com a concepção de que o ser humano é simultaneamente um ser natural sensível e racional, dotado de liberdade. Para ser preciso: o que torna a disciplina da antropologia caracteristicamente pragmática é a reflexão acerca de "o que o homem faz, pode ou deveria fazer de si mesmo como um ser que age livremente". Como "conhecimento do mundo", a antropologia tem o propósito de compreender o ser humano como um ser natural – como "produto do jogo da Natureza" em relação com "os animais, as plantas e minerais nas várias terras e climas" – e simultaneamente como um "cidadão do mundo", ou seja, como agente político livre. Na passagem do estado de natureza ao estado civil, vemos que a situação humana no mundo é dúplice: podemos não só conhecer o mundo, como também usar nosso conhecimento para atuar no mundo, situação em que entramos no jogo.

 

Que é o homem? Será como no poema de Neruda – ao tentarmos conhecer o mundo, acabamos nos sabendo enredados em nós mesmos, sem vislumbres, sós e vazios? Que lição tiramos de Copenhague? O conhecimento humano, usado hoje exageradamente para ganhos particulares, nos permitirá ainda, no futuro, jogar? Que futuro está em jogo? Que é de nossa capacidade de construir horizontes?

 

Cordiais saudações.

 

***

 

FINAL DE ANO: Duas estréias prometem um pouco mais de vida no cinema do que as eternas reprises natalinas na TV: 1. O poder do soul, documentário com imagens de arquivo sobre o festival de soul music acontecido no Zaire, em 1974, por ocasião da luta entre Muhammad Ali e George Foreman (Agora, é esperar também por Quando Éramos Reis!); 2. A todo volume, documentário sobre a história da guitarra elétrica, com Jimmy Page, The Edge e Jack White. Ah, o bom e velho rock’n roll...

 

Cassiano Terra Rodrigues é professor de Filosofia na PUC-SP, e deseja a todos um 2010 pleno de novos horizontes e muita música.

 

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Última atualização em Domingo, 27 de Dezembro de 2009
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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