Modelo de financiamento eleitoral é garantia de permanentes atos de corrupção

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O "mensalão" do DEM, mostrado com riqueza de detalhes, ocupa todos os espaços na imprensa escrita, falada e televisada. É a bola da vez. Na secura do planalto central, ganha contornos tenebrosos a última, no sentido de mais recente, feição da escalada sem fim da corrupção na política brasileira. Depois dos tucanos e petistas, chegou a vez dos "demos" exibirem seus "valores não contabilizados" e entrarem na fila lenta que antecede a barra dos tribunais.

 

Alguns se surpreendem por imaginar que a execração pública observada por ocasião dos escândalos anteriores pudesse inibir a repetição das mesmas práticas. Ledo engano. Afinal, até agora nenhum dos antigos mensaleiros foi preso ou sequer condenado. A lentidão da justiça sugere impunidade. Mas, para além de tais aspectos, há uma questão de fundo que explica a persistência do fenômeno. A seqüência interminável de "fatos isolados que se repetem", para usar uma expressão cara aos que se ocupam em dourar a pílula, é uma decorrência inevitável do modelo dominante, que fornece proteína e só se reproduz azeitado pela lógica da corrupção sistêmica.

 

Quando o presidente Lula, do alto da sua súbita projeção como personagem salvífico do capitalismo mundial, afirma que "as imagens não falam por si", ele não está apenas tentando livrar a cara dos que foram filmados com a boca na botija. O presidente, por certo, não haveria de se condoer com a sorte do DEM, seu opositor aparente, mas com a carga que pesa sobre suas próprias costas. Ao desqualificar o poder das imagens, ele deve ter pensado no Delúbio, nas declarações anteriores sobre inevitabilidade dos "recursos não contabilizados", na grana que precisa arrecadar para a próxima campanha.

 

E, por outro lado, na base do reflexo que sustentou a espontaneidade da resposta, falou mais alto a função de garantidor geral do sistema dominante.

 

O presidente sabe perfeitamente em que bases está cravado o pedestal que o sustenta. E opera com desenvoltura a condição de "pau que sustenta a lona do circo". Qualquer sentença firmada sobre a cabeça do indigitado Arruda, sem margem para qualquer dúvida, se destina a pairar como uma ameaça sobre os demais sócios do seleto clube.

 

Daí porque, invertendo os termos do ditado famoso, a palavra do presidente, nas circunstâncias em que foi dita, falou mais que mil imagens.

 

O esforço no sentido de minimizar, abafar e circunscrever o alcance do episódio foi replicado na voz de outras figuras proeminentes do mesmo esquema. Ricardo Berzoini, ainda presidente em exercício do PT, Candido Vaccarezza, líder do partido na Câmara, além da candidata Dilma Rousseff, fizeram declarações absolutamente sintonizadas com a voz do dono. Não querem fazer marola, dizem tratar-se de fato isolado, "não é corrupção do DEM, é do governador", não deve ser explorado politicamente. Tudo bem de acordo com a idéia de preservar os grandes partidos da ordem e os fluxos que lhes financiam as campanhas eleitorais cada vez mais caras.

 

As manifestações populares que pedem o fim da impunidade, tipo "Arruda na papuda e PO no xilindró", estão corretas. Falta agregar, como dimensão permanente da mesma luta, o desmonte do formato atual de financiamento de campanha eleitoral, fator incontrolável de corrupção e matriz de quase todos os escândalos da nossa história recente.

 

Não se trata, apenas, de formar um fundo público. Ele deve ser exclusivo e, além de definir um teto de gastos para cada tipo de campanha, deve vir acompanhado do mais rigoroso esquema de fiscalização, que incorpore aos tribunais eleitorais, o Ministério Público, a Receita Federal e estruturas outras da sociedade civil. É a única maneira de quebrar o ciclo vicioso que privatiza o poder público e sustenta a atual política do padrão podre.

 

Léo Lince é sociólogo.

 

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Comentários   

0 #7 Gustavo Crivellari 20-01-2010 22:15
Àqueles que acham que Leo Lince está apenas fazendo coro a mídia burguesa, deixo a pergunta:

As imagens falam ou não falam por si?

Dizer que "isso é a globo quem fala" não é argumento. É fuga.

A oposição de esquerda ao governo Lula é de esquerda - mas não deixa de ser oposição!

Criticá-lo quando trata a corrupção com panos quentes é indispensável.

Abraços.
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0 #6 Papagaios da mídia golpistajose justino de souza neto 09-12-2009 15:08
Discordo de sua afirmação em relação ao comentário do Presidente da República. Você papagaiou quase que literalmente as falas dos mercenários da Globo News e da Bandeirantes.

Você retirou de um contexto mais amplo e elucidativo uma expressão apenas para fazer o joguinho infantil de certa esquerda em sua disputa "ideológica".

A Globo News hoje, ao discorrer sobre corrupção na história recente do país, tratou de fazer mais uma de suas edições oportunistas traçando um histórico preparado que excluia e blindava todos os malfeitos dos tucanos. Ela inclusive sequer toca no chamado valerioduto mineiro (que nunca é chamado de tucano).

Infelizmente, articulistas como você e certos comentaristas, fazem o papel de papagaios dos serviçais da TIME/LIFE, da FIESP e da UDR no serviço constante de sabotar este governo que, apesar de não ser aquele sonhado por todos os socialistas libertários, não se curvou ao Departamento de Estado ianque e tenta de todas as formas resgatar a grande maioria da sociedade brasileira que até então vivia à margem.

Você pode convencer aos que nasceram ontem mas duvido muito que convença a maioria daqueles que se formaram sob a repressão dos gorilas de 64.
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0 #5 mas tem o judas tb...gabriel 07-12-2009 15:20
td bem, pode ter outro contexto a fala do presida. mas ele mesmo nao expressou toda sua aquiescencia com alianças com os judas da vida?
se nao agora, a prática é essa mesmo, quase sempre. o importante para eles é sim um encobrir o outro, nao há divergencia de ideia alguma entre eles atualmente, q dizer de praticas entao, se de fato estamos num sistema de financiamento de campanha q é um convite ao descalabro?
o artigo é irreparável, pois dou mais um mês pra Lula voltar a manifestar novos e deletérios aprendizados q tirou de sua estadia no Planalto, e ai td isso se reconfirma, pois se nao perceberam, já se manifestam há muito tempo, bem antes de qualquer demsalao.
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0 #4 Editorialista do GloboClaudio 06-12-2009 10:24
Leo Lince descreve a fala do presidente Lula da mesma forma que os editorialistas e colunistas do Globo e da FSP. Sem surpresas. Cada vez mais parecidos.
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0 #3 Pedrinhas na arrudaRicardo 05-12-2009 18:07
Prezado Léo Lince.
Só uma discordância, permita-me: no penúltimo parágrafo, "manifestações populares que pedem o fim da impunidade..." OU mais uma massinha de manobra da "esquerda on-line" cerebralmente lavada na Igreja Universal do Reino de Lulla com o apoio das Centrais Sindicais S.A.? "Manifestações" que bem simbolizam pedrinhas de atiradeira de "subversivos" contemporâneos atiradas apenas em direção ao escândalo da vez(DEM, Arruda etc.) e absolutamente inofensivas, como se isso não acontecesse em outras esferas do poder, no PT, no PSDB etc.
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0 #2 Valmir Macedo 04-12-2009 22:27
Concordo Marcos, também acho estranho a pobreza de interpretação do colunista por se tratar de uma coluna do Correio, onde sempre espero e tenho sempre encontrado artigos inteligentes. Más este está muito pobre.
Filmagens apresentadas na mídia para o público dar sua interpretação é uma coisa, para um presidente comentar é outra coisa.
O presidente só demonstrou que tem maturidade, que não se aproveita de fatos que dei ibope para fazer politicagem, que tem equilibrio para falar e se posicionar na função de Presidente. Ele foi muito feliz no seu comentário. Não é à toa que ele é considerado entre os 10 homens mais inteligentes do planeta.
Saudações Petista,
Valmir Macedo
Chapada Diamantina-Ba
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0 #1 Marcos Ferraz 04-12-2009 15:44
Prezado Articulista

Apenas uma observação: a fala do Presidente Lula sobre as imagens está fora do contexto. O senhor, como bem informado,acredito,sabe disto!!! Portanto, ao usar o fato, esta apenas fazendo "coro" com a mídia burguesa; não esperava ler este tipo de "informação" aqui no Correio Cidadania. Sendo assim, seu artigo caracteriza-se por um oportunismo...

Saudações Democráticas
Marcos Ferraz
Sorocaba - SP
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