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Cobaias humanas: uma tragédia africana Imprimir E-mail
Escrito por Luiz Eça   
Sexta, 01 de Junho de 2007
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A Pfizer, giganteca multinacional do setor farmacêutico, está sendo processada criminalmente pelo governo nigeriano por testes clínicos com conseqüências altamente nocivas. Em 1996, durante uma epidemia de meningite em Kano, Nigéria, 200 crianças doentes foram objeto dos testes de uma nova droga da Pfizer,o Trovan.

 

A metade delas foi tratada com o Trovan. A outra com um medicamento concorrente do qual foram aplicadas doses abaixo do necessário, com o objetivo de se garantirem resultados inferiores.

 

Detalhe: a Pfizer não informou aos paíi das crianças que se tratava de um teste,  embora sabendo que o Trovan apresentava efeitos colaterais prejudiciais à saúde e poderia ser impróprio para uso humano, nem que existia um produto comprovado e relativamente barato, o clorofenicol.

 

Em sua defesa, a Prfizer alega que o estudo clínico do Trovan foi aprovado, conforme carta assinada pela comissão de ética do hospital onde os testes se realizaram, o que era estranho, já que esse hospital não tem comissão de ética...

 

Informa também que o Trovan estava no último estágio do seu desenvolvimento, havendo “provas científicas de que daria um tratamento seguro”.

 

Nem tanto, uma vez que muitas das crianças-cobaia morreram ou sofreram danos permanentes como cegueira, surdez e paralisia. Graças ao sacrificio das crianças africanas, o Trovan nunca foi aprovado para uso das crianças americanas.

 

Para adultos, foi, porém, só até 1997, quando repetidos casos de morte e danos ao fígado forçaram sua proibição total.


Este trágico desrespeito à pessoa humana não é único na África e em alguns países asiáticos pobres. Muito pelo contrário.

 

Na Tailândia, por exemplo, uma droga potencialmente eficaz contra dores, o dipirone, foi testada inclusive em crianças de 4 a 7 anos. Muito grave, pois o dipirone foi banido em mais de 10 países, sendo seu uso severamente restringido em 10 outros devido a efeitos colaterais potencialmente fatais. Pelo menos dois desses testes foram patrocinados pela alemã Hoescht, líder mundial na produção de dipirone.

 

Em 2005, a Nigéria suspendeu os testes com o Tenofovir, um antibiótico usado no tratamento da Aids, devido a graves problemas éticos constatados durante sua realização. O mesmo aconteceu no Cameron. Aqui, as participantes, todas de língua francesa e muitas analfabetas, receberam informações, por escrito e em inglês, sobre os riscos envolvidos e seus direitos, o que viciou a adesão ao teste. Os problemas não foram corrigidos e os experimentos – de responsabilidade do laboratório americano Gilead Sciences – prosseguiram no Cambodja, Botsuana, Malavi e Gana.

 

O extraordinário aumento na invenção de novas drogas exige um correspondente aumento de testes clínicos para conseguir a aprovação das instituições oficiais dos grandes mercados dos Estados Unidos e da Europa.

 

Para cada teste de cada droga nova, são necessários cerca de quatro mil voluntários. O problema é que pouco mais de um entre vinte norte-americanos aceitam participar. O mesmo não acontece na África e na Ásia, onde o baixo pagamento oferecido é disputado pela população extremamente pobre da maioria desses paises.

 

Por isso, as multinacionais farmacêuticas estão cada vez mais realizando ali grande parte dos experimentos com seus novos produtos.

 

Além da economia e da facilidade de se recrutarem cobaias humanas, os países africanos e asiáticos oferecem outras vantagens. A rapidez é uma das principais. Enquanto que nos Estados Unidos, por vezes, levam-se anos para reunir voluntários suficientes para um experimento, na Africa e na Ásia esse prazo é reduzido, geralmente, para menos de duas semanas. Rapidez é particularmente importante num mercado em que os laboratórios desenvolvem drogas praticamente iguais competindo entre si para poderem lançar a sua marca em primeiro lugar.

 

Mas os pontos pró-Africa ou Ásia são muitos quando se analisa o melhor lugar para se testar novas drogas. Eis mais alguns:

 

- a supervisão americana e européia dos testes é mínima. Em 2001, um pesquisador da John Hopkins testou uma droga anti-câncer em pacientes doentes no estado indiano do Kerala, antes de ela ter sido experimentada em animais. Só foi descoberto depois de aplicar a droga muitas vezes;

 

- os regulamentos de controle locais são pouco exigentes e facilmente contornáveis;

 

- no Ocidente, de 40 a 60% dos voluntários abandonam os testes clínicos no meio, em função de efeitos colaterais desagradáveis ou pelas dificuldades de se deslocar até a clínica. Em países como a Índia, as companhias de testes clínicos mantêm 99,5% dos inscritos. Muitas vezes isso acontece porque não lhes foi informado que não estavam obrigados a ir até o fim. Num estudo sobre testes de prevenção contra Aids na África do Sul e em Bangladesh, verificou-se que 80% das pessoas disseram que não sabiam que podiam desistir.

 

- muitos dos hospitais e clínicas onde se fazem testes não contam com comissões éticas, capazes de exercer fiscalização para garantir que sejam prestadas informações completas aos participantes. Na Índia, em 1980, um anticoncepcional injetável — já retirado do mercado — foi testado em aldeãs que afirmaram que “não faziam idéia de que estavam participando de um teste”.

 

O mais irônico é que, além de arriscarem sua saúde e até sua vida nos testes clínicos, os africanos não auferem nenhum beneficio, mesmo quando os novos medicamentos apresentam bons resultados.

 

É que custam caro, foram feitos para os habitantes dos países ricos, não para pobres negros ou asiáticos. Para as multinacionais farmacêuticas, eles são apenas cobaias, que exigem cuidados apenas maiores do que ratos de laboratório...

 

Seis séculos de dominação não foram suficientes para europeus e americanos esgotarem seu arsenal de crueldades para com africanos e asiáticos.

 

Primeiro, escravizaram seus povos, depois destruíram suas sociedades, roubaram suas riquezas; por fim, concederam a independência, mas dividiram suas nações, corromperam seus líderes; agora, usam seus habitantes como cobaias, como se fossem animais.

 

O que virá em seguida?

 

 

Luiz Eça é jornalista.

 

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Última atualização em Sexta, 29 de Junho de 2007
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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