Governo Obama põe sua credibilidade à prova em vários 'fronts'

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Nas últimas semanas, o presidente Barack Obama tem dedicado maior atenção à reforma do sistema de saúde, em andamento no Congresso. Desde 1933, quando do primeiro mandato do presidente Franklin Roosevelt, os democratas tentam alterar a estrutura da saúde pública, a fim de torná-la universal, mas a resistência dos republicanos impede-os de obtê-la na medida das necessidades da população.

 

A última tentativa ocorreu na primeira gestão de Bill Clinton, no final de 1994. Remotamente, a inspiração seria baseada no modelo britânico, considerado mais equilibrado que os seus similares europeus, como o francês, por exemplo.

 

A última modificação decisiva no sistema de saúde norte-americano ocorreu durante o mandato de Lyndon Johnson, em 1965, tendo sido derivado da chamada ‘Guerra à Pobreza’. A partir daquele ano, com o fito de suavizar a grave tensão social por que passava o país, o governo providenciaria assistência aos idosos e famílias mais pobres.

 

O tema da saúde transcende no momento a disputa partidária estadunidense, tendo em vista que a sua aprovação no Senado até o início de 2010 permitiria ao governo amenizar os efeitos mais deletérios da crise econômica de 2008 para a população mais desvalida.

 

Além disso, ensejar-se-ia a renovação da sua pauta internacional, ao proporcionar um discurso mais social, vinculado ao ideário do chamado desenvolvimento sustentável – em dezembro, haverá uma conferência internacional ambiental em Copenhague, importante para reduzir o desgaste do governo Obama, não obstante o galardão do Nobel da Paz de 2009.

 

Ademais, pontifica-se nos Estados Unidos que a ausência de um sistema amplo de assistência médica prejudica atualmente a competitividade da indústria de ponta do país, haja vista que custos bancados de maneira direta por grandes corporações poderiam ser diluídos por toda a sociedade, como no caso da Europa e do Japão – um trabalhador da indústria automobilística nipônica custa em média à sua companhia 60% do norte-americano.

 

Paralelamente, a movimentação na política exterior encontra-se bastante aquém da interna. Passado quase um ano de administração, a corrosão prolonga-se e mesmo estende-se, caso se considere a questão de Honduras - em que somente houve a manifestação de Washington em desfavor dos golpistas após o posicionamento de Caracas e depois de Brasília - e a do Afeganistão, onde houve o apoio irrestrito a um processo eleitoral presidencial conduzido de modo suspeito por Cabul, de acordo com representantes de uma missão de acompanhamento das Nações Unidas.

 

Desta maneira, coroou-se facilmente a reeleição de Hamid Karzai, diante da desistência de Abdullah Abdullah de disputar o segundo turno, por não acreditar em um processo isento. Mesmo assim, Karzai, por ser um aliado de primeira hora da Casa Branca, não sofreu nenhuma reprimenda política, apesar de ter uma gestão ao longo dos anos considerada incompetente do ponto de vista administrativo, além de recheada de muitas denúncias de corrupção.

 

Por outro lado, há a possibilidade real de confundir-se inação na política externa com ineficiência na aplicação das medidas escolhidas. Portanto, o governo agiria, porém, sem a consecução de resultados efetivos. A partir de tal perspectiva, poder-se-ia considerar a avaliação de Washington de uma gama de alternativas, entretanto, todas de cunho militar, ao contemplar sempre o envio de mais tropas para o Afeganistão para reduzir a instabilidade. Por outro lado, o reforço militar poderia desencadear um revés na opinião pública, desencantada da solução bélica.

 

Assim, Washington insiste na manutenção do apoio ao governo Karzai, não obstante os problemas de toda ordem. Em função disso, o desafio da política externa do governo Obama é, portanto, não desaguar no mesmo curso do período de Lyndon Johnson, quando houve um hiato da credibilidade, ou seja, a perda maciça de confiança por parte do eleitorado diante do posicionamento distorcido do governo nas manifestações sobre a situação do conflito no Vietnã. À medida que a realidade tornava-se mais desfavorável às tropas americanas, o Pentágono, ou mesmo a Casa Branca, edulcorava o quadro, a fim de que o Congresso não dificultasse as constantes solicitações de verbas ou os alistados tentassem não servir lá – no início de 1973, os Estados Unidos encerrariam o sistema de conscrição.

 

Embora a atual administração não tenha tido problemas no tocante ao orçamento militar, área em que os republicanos não costumam mais criar embaraços para a concessão de verbas, o descrédito perante a opinião pública pode aumentar, à medida que as promessas estabelecidas na campanha eleitoral desmancham-se a olhos vistos. É difícil justificar o sacrifício das tropas em território afegão diante de um governo local eleito de modo heterodoxo no que concerne às regras estabelecidas.

 

Além do mais, é injustificável apresentar à sociedade norte-americana a perspectiva de que o Afeganistão é um país cuja aprendizagem democrática está no início, de forma que problemas de monta poderiam ocorrer. Nesse sentido, a Casa Branca aguarda maior transparência nas eleições parlamentares de 2010.

 

Contudo, não há garantia alguma de que o processo eleitoral aperfeiçoe-se. Deste modo, o prolongamento da presença militar norte-americana em solo afegão, além do apoio político irrestrito ao governo reeleito, pode significar uma dissociação mais séria entre a percepção do eleitorado e a de Washington. À distância, acompanham os republicanos, prontos para explorar as contradições dos democratas.

 

Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

 

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