O que é agir eticamente?

 

Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.

Eduardo Alves da Costa, No caminho com Maiakovski.

 

O filme de Ettore Scola, ‘Concorrência desleal’ (Concorrenza Sleale, Itália-França, 2001), nos oferece a ocasião para refletir um pouco mais sobre a questão do agir ético.

 

A ação se passa na Itália, em 1938, e se inicia um pouco antes da visita de Hitler a Mussolini, indo até o momento em que os judeus são enviados pelo último à Alemanha.

 

Dois vizinhos, Umberto (Diego Abbatantuono) e Leone (Sergio Castellito), são concorrentes: o primeiro, alfaiate, começa a se incomodar com o aumento da clientela do segundo, que abre uma loja de roupas prontas, manufaturadas e mais baratas, ao lado da sua. Umberto se incomoda: além de conquistar a clientela, Leone se aproveita de suas vitrines e slogans, usando uma tática de vendas, digamos, tão "esperta" quanto "agressiva", estabelecendo a concorrência desleal à qual o título do filme alude.

 

Um detalhe: Umberto também é "desleal" – ele monta suas vitrines à noite, antecipando estações, na tentativa de desbancar o concorrente; Leone, mais esperto, faz o mesmo e ainda se aproveita das vitrines de Umberto para destacar as suas. Outro detalhe: Umberto é católico, "ariano", Leone é judeu. Não precisamos lembrar o que isso significava no regime fascista.

Umberto é bom pai de família. Trabalhou a vida toda como alfaiate, preocupou-se unicamente com sua profissão, a educação dos filhos, o sustento da família, o pagamento dos impostos, nunca se envolveu em confusões. Talvez seu único tormento seja o cunhado que não trabalha e vive em sua casa como um parasita. Mas, quando Leone e sua família começam a sofrer perseguições por serem judeus no regime fascista, o mundo lá fora bate à porta, e não o faz com delicadeza.

 

Depois de uma briga, por causa de uma guerra de vitrines, Umberto e Leone vão parar na delegacia. O delegado dispensa o último e entrega a Umberto um formulário, dizendo, em particular, mais ou menos o seguinte: "Se o senhor tiver alguma coisa a declarar sobre seu vizinho, se o senhor tiver notado alguma coisa estranha e quiser que as autoridades tomem alguma providência..." Basta denunciar e Leone terá seu alvará cassado. Umberto, resoluto e cauteloso, recusa o formulário.

 

Passado algum tempo, Leone tem sua vitrine apedrejada com um paralelepípedo. A polícia chega e quer abafar o caso, recusando-se o quanto pode a abrir um inquérito, investigar, buscar os responsáveis pelo ato de vandalismo. O mesmo delegado tenta se esquivar da responsabilidade legal que lhe cabe. No meio da rua, às claras, Umberto vem em defesa de seu concorrente: "Sr. Delegado, e o Sr. acha que quem cometeu essa barbaridade pode ficar impune?!". No fim, o delegado cede; é duvidoso que o inquérito prossiga...

 

Por que Umberto vem em defesa de seu concorrente? Ele teria todas as razões para não defender Leone, mas ainda assim o faz. Vejamos.

 

Seu filho namora a filha de Leone. Como católico, Umberto poderia ver nisso um motivo para desejar distanciamento de Leone e sua família. Mesmo assim, ele não age segundo os dogmas religiosos; na verdade, isso sequer entra em cogitação. Ele chega mesmo a desgostar da separação dos dois, ocorrida pela imaturidade preconceituosa de seu filho.

 

Sem a loja de Leone, a alfaiataria de Umberto seria a única loja de roupas da rua – nada mal, em tempos de instabilidade e incertezas quanto ao futuro, não ter concorrência nos negócios. Mas, por causa de sua atitude em defesa de Leone, Umberto perde um rico e importante cliente. Mesmo assim, ele não age por interesse comercial. Inclusive, quando sua mulher lhe insinua que ele poderia denunciar Leone às autoridades, ele a rechaça violentamente.

 

Tampouco Umberto age por convicções políticas. Em uma cena, seu irmão, o professor Angelo (Gérard Depardieu) lhe cobra: "E você, nunca tem uma opinião? Nunca se posiciona? O mundo todo em tumulto e você não diz nada, não faz nada?". De fato, Angelo representa no filme a relação com o mundo lá fora. Umberto – ele mesmo o reconhece – só sabe de tecidos, medidas de roupas, costuras e ternos. Todos ali parecem se preocupar única e exclusivamente com si mesmos. Filmado em ambientes internos, um único cenário externo, o filme reforça a impressão de isolamento e distanciamento com relação aos acontecimentos políticos. Umberto sai em defesa de seu concorrente sem seguir cartilhas políticas.

 

No contexto em que vive, Umberto tem todos os motivos para ser egoísta, mas não é. Ele também tem todos os motivos para ser calculista, mas não é. Nem o sucesso, nem o fracasso, de suas ações estão em questão: trata-se de agir corretamente. É por isso que suas ações têm um valor moral incondicional. Esta é a lição primeira da filosofia moral de Kant.

 

Uma ação só tem valor moral se for feita por causa do dever. Não basta que ela seja conforme ao dever. Com efeito, se ajo visando meus interesses particulares e acidentalmente minha ação está conforme ao dever, todo valor moral de minha ação se esvazia. Afinal, se não agi determinado pela vontade de fazer o que é correto, mas tendo em vista um objetivo egoísta (que, se for conforme ao dever, tanto melhor, mas se não for, tanto faz), a minha orientação não é autônoma, isto é, o valor de minhas ações não é dado por mim mesmo, mas pelo valor do objetivo a ser atingido. Resto, portanto, determinado por algo que me é extrínseco e não ajo livremente. Umberto é o exemplo do homem livre, nesse sentido: sua determinação é autônoma e, nas circunstâncias, tão necessária quanto inútil, já que não lhe traz vantagens particulares.

 

Não é o objetivo, mas a máxima da ação que lhe confere valor moral. Essa determinação pessoal, que faz com que o indivíduo se eleve acima do dado sempre cambiante da experiência, faz com que sua vontade seja boa em si mesma, independentemente de suas inclinações pessoais, da utilidade ou inutilidade que nada podem acrescentar ao valor moral de uma ação. Umberto age como é correto agir: independente das circunstâncias, que são mutáveis, ele faz o que deve, sem ceder ao mais proveitoso ou ao medo de conseqüências negativas.

 

Portanto, o dever é a necessidade de realizar uma ação unicamente por respeito à lei moral. E que lei é essa que me permite saber independentemente de todas as circunstâncias o que devo fazer? Kant a enuncia assim: "Devo proceder sempre de maneira que eu possa querer também que a minha máxima se torne uma lei universal".

 

Umberto não vê na situação de Leone um meio para progredir nos negócios, não se vale de uma ocasião para se garantir politicamente (como o faz seu cunhado), e tampouco tenta algo quixotesco movido pelos sentimentos – o que também seria inútil, mas por outras razões. Umberto age como crê todos devam agir – considerando o outro assim como se considera a si mesmo, usando sua razão em público, sem seguir uma ordem apenas porque lhe foi dada, sem ceder às tentações fáceis de lucro e benesses que o momento lhe apresenta.

 

O mundo está contra nós; nem sempre podemos agir como queremos, freqüentemente falhamos, mas não por alguma falta nossa. A intervenção de Umberto não consegue evitar o exílio de Leone e sua família, o mundo sempre nos fará oposição feroz, sempre tentaremos agir apesar disso, nunca poderemos ter certeza do resultado, só da nossa motivação.

Só há, portanto, uma única coisa que depende inteiramente de nós mesmos: o uso que fazemos de nossa vontade e de nossa razão, ou seja, se queremos o bem porque ele é necessário, ou se queremos o bem visando algum outro interesse egoísta. A história de Umberto nos alerta da importância de querermos o necessário acima do vantajoso.

 

Cordiais saudações.

 

***

 

CINEMA VIVO: II Mostra Live Cinema, de 24 a 29 de novembro de 2009, em São Paulo. Mais informações: http://www.livecinema.com.br/

 

Cassiano Terra Rodrigues é professor de Filosofia na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e pensa que o dever exercido autonomamente é cada vez mais necessário.

 

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Comentários   

0 #6 RE: O que é agir eticamente?Natália Foschini 19-06-2011 22:45
É realmente brilhante o modo com que o diretor lida com a questão da integridade das personagens diante de situações extremas, tanto de ordem político-econômica quanto religiosa. Na ética exposta por Umberto é possível perceber que enxerga Leone como fim e não somente como meio, maneira esta que teria agido caso seguisse as tendências que o cercavam. Na passagem que diz "se ajo visando meus interesses particulares e acidentalmente minha ação está conforme ao dever, todo valor moral de minha ação se esvazia" lembrou-me inclusive as desavenças que Durkheim tinha com Kant, quando primeiro dizia nas ações de Bem Social, se não me engano, e o segundo dando maior importancia à universalidade de sua máxima.
Além disso, faz muito sentido notar o distanciamento que havia entre a vida privada e os acontecimentos políticos na medida em que o filme fora rodado em ambientes internos em sua maioria. A indicação deste filme no acompanhamento do nosso estudo de Kant foi uma ótima ideia. Parabéns pela coluna, Cassiano. Achei muito bem desenvolvida.
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0 #5 O que é o homem?João Cunha 25-11-2009 08:35
Caros,
Gostaria de ter visto o filme para comentar com mais propriedade o texto do Cassiano. Como sabemos a questão clássica que se coloca à ética kantiana diz respeito ao formalismo moral do imperativo categórico e a conseqüente falta de motivação que o agente teria para respeitá-lo. Em grandes linhas, o cognitivismo moral de Kant – agimos moralmente por sabermos o que é o dever e não por sentirmos o dever – já lhe rendeu muitas críticas, a começar pela difícil questão de saber se é ou não possível ao homem (ser racional e sensível) agir por respeito ao dever e independentemente de qualquer móbil ou outra motivação. Ainda mais pela dificuldade em sabermos o que exatamente significa este respeito pelo dever: um sentimento cuja causa é uma lei da razão; ou seja, o que significa dizer que a razão é capaz de gerar um sentimento. Ora, questões desta ordem é que levaram Hegel a pensar uma eticidade para além da moralidade formal do “entendimento” etc.; o que não deixa de colocar novos problemas acerca do caráter necessariamente conservador de sua ética (ou filosofia do direito). Enfim, como dizia o velho Kant, no fundo as questões da filosofia (O que posso saber?; O que devo fazer?; O que podemos esperar daquilo que fazemos?) se resumem na questão “O que é o homem?”, pois sempre trata-se de decidir se o homem se define por sua sensibilidade (egoísmo) ou por sua racionalidade. Como do ponto de vista pós-metafísico não cabe mais falar em natureza humana, esta questão será sempre política; e isto em sentido bem preciso: devemos decidir e apostar numa direção. Queria expressar, acompanhando o prof. Cassiano, minha aposta no exercício da autonomia. Verei o filme!
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0 #4 Visão mais aprofundadaPaulo César Tavares Guedes 24-11-2009 19:11
Prezado Cassiano, muito obrigado pelo belíssimo artigo. Eu já havia assistido ao filme, de que muito gostei, mas não vislumbrei tanta complexidade na questão moral. Seu artigo funcionou como uma aula - bastante didática - para mim. Parabéns e, por favor, volte a abordar questões filosóficas desta forma atrativa e motivadora.
Abração.
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0 #3 Luciana Matelli 24-11-2009 10:05
O exercício da liberdade,talvez seja o mais difícil no ofício de viver,mas,também é com certeza oque torna o homem mais completo,mais pleno.De um modo ou de outro sempre se tem alguma paga,ou alguma conta.Em ambos os comportamentos se tem uma paga,o que não há duvida é sobre o que é legítimo,e o que se é leg´timo só é fácil para o que acredita plenamente.
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0 #2 Artículo veio cair como uma luva nos meuSandra Muñoz 24-11-2009 05:16
Obrigada Cassiano uma vez mais pela sua eloquencia!
O artículo chega até mim, neste outro lado da esfera, numa semana onde a ética o dever confrontados ao medo e os interesses individuais foram dia a dia objeto de minhas reflexoes.
Estas nao vieram até min por ter visto um bom filme, e sim por ver o absurdo filme orwelliano da realidade a que cada dia estamos sendo expostos, com cada vez mais velocidade!
E vejo neste espaço de comentarios um bom lugar para compartir e porque nao advertir sobre o que foi a semana de vacinaçao contra a gripe A.
Professionais de saúde acusando pressoes e mobbing laboral para que se vacinem, os meios expondo um terror absurdo para que o efeito da contra-propaganda nao deixe a falta de ética desmascarada: A grande maioria nega-se à vacinaçao.
Este ano se pensamos en uma adolescente daqui leva 5 vacinas se os seus pais nao foram o suficientemente inteligentes para negar-se: pailoma humano, hepatitis A e B, gripe comun e gripe A se nao me deixo alguma mais...
O inverno ainda nao chegou no Brasil mas ja tenho vontade de ir advertindo. Aqueles que nao querem aceitar uma saúde imposta pelo monstruo farmacéutico veram cada vez mais dificil sua opçao de livre-escolha.
Frente ao dever e a ética de informar e denunciar tive que ver meu trabalho sanitario na corda bamba.
Foi bom perder o medo individual levando-me a agir, ativar prensa nao massificada daqui falar abertamente com as pessoas no hospital apesar de que parecia uma perfeita ditadura. É um tabu tocar esse tema nas plantas do hospital.
Dar passos num sentido mais amplio que a propia necessidade é uma de açao que como diz o fantástico artigo, tem como motor o dever de realizar una ato por respeito a lei moral.
Passados uns dias nao estou nem vacinada desse mentiroso alfabeto de gripes nem perdi o trabalho.
E ainda que chegue a perde-lo continua valendo a pena nao calar.
Um abraço desde España e como dizem aqui os que querem fugir desta europa orwelliana:

Salut y buenos alimentos!

Sandra
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0 #1 EUA 2009Daniel Campos 23-11-2009 18:01
Procurarei o filme. Na era Obama aqui nos EUA, o filme ainda tem muito para nos fazer refletir. Obrigado pela coluna.
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