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Escrito por Léo Lince   
Qui, 31 de Maio de 2007
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O escândalo é novo, mas o enredo é o de sempre. A julgar pela encenação montada no plenário do Senado, o cidadão pode preparar a paciência, pois vai começar mais uma operação abafa. Sempre que o clima de briga de quadrilhas nos altos escalões esquenta a ponto de acender o sinal de alerta no sistema dominante, a turma do “deixa disso” entre em campo para preservar a galinha dos ovos de ouro.

 

O presidente do Congresso Nacional, Renan Calheiros, acuado, não hesitou em lançar mão de um delicado escudo protetor ao colocar a família na linha de tiro. No caso em pauta, mais de uma. Tanto a família oficial, aquela na qual se jura fidelidade na alegria e na dor, quanto a família da “outra”, formada nos folguedos da “paternidade não planejada”.  As duas foram chamadas ao palco para cumprir um doloroso dever: afastar as luzes daquele ponto onde mora o verdadeiro perigo.

 

O problema real está na terceira família, aquela com a qual Renan se vincula pelo conúbio mais que carnal das “afinidades eletivas”. Aos leitores atentos, aqueles que garimpam nos jornais as notinhas que não alcançam as grandes manchetes, não passou desapercebida uma outra iniciativa do astuto senador. Ele disparou mensagens telegráficas, mais de uma, sempre em “off” e com endereço certo: a grande “Famíglia” dos que fazem negócios na política. Como “quem avisa amigo é”, o recado foi dado. Investigar a relação promíscua de empreiteiras com políticos? Tudo bem, mas a devassa pode ser geral.

 

Em tal postura não se registra um pingo originalidade.  Os arquivos implacáveis da memória nos remetem para o discurso, em circunstâncias parecidas, de uma outra honorável figura da mesma linhagem. Jader Barbalho, então presidente do mesmo PMDB e na mesma cadeira de presidente do Senado e do Congresso Nacional, acuado, disparou: “a grossa corrupção não está no ranário de Belém, mas perto da Avenida Paulista, em São Paulo”.  Não forneceu detalhes, nem deu nome aos bois. O objetivo, claro, como o de Renan agora, não era investigar nada, nem apurar coisa nenhuma. Apenas, alertar os parceiros para os riscos de quem navega no mesmo barco.

 

Mais do que depressa, um volumoso grupo de destacados senadores se reuniu na casa do presidente do PSDB. Estavam lá tucanos e petistas, demopefelistas e peemedebistas, todos unidos para desarmar a espoleta sismográfica. Conjurar o perigo e garantir a prosperidade do projeto comum. São os convictos antigos e os neoconvertidos ao modelo que articula os grandes negócios com a pequena política. Uma espécie de operação “mãos sujas”.  Personagens, arranjos e procedimentos que sempre estiveram disponíveis para os serviços de reprodução do mero poder.

 

Quando os organismos do Estado, ao invés de defenderem o interesse público, prestam reverência ao deus mercado, não dá outra. Os escalões intermediários fazem negócios e, para fechar o círculo vicioso, a cumplicidade dos altos escalões abafa qualquer tentativa de investigação. A riqueza privada se afirma sobre a falência do poder público. A supremacia absoluta do poder privado produz, como resultado inevitável, a “gangsterização” da política, onde o “pacto de silêncio” garante a partilha do butim. Uma palavra italiana, popularizada no mundo inteiro pelos filmes sobre a máfia, expressa uma dimensão essencial do funcionamento da engrenagem viciada: “omertà”.

 

 

Léo Lince é sociólogo.

 

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Última atualização em Qui, 31 de Maio de 2007
 

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