Jornada de lutas dá início ao fortalecimento da esquerda brasileira

 

Sob a incessante chuva que castigava a região da Avenida Paulista, centro financeiro da capital paulistana, milhares de militantes de diversos setores e entidades se aglomeravam ao redor do carro de som na tarde do dia 23 de maio. A demonstração, organizada por um conjunto de entidades, sindicatos e movimentos sociais, deverá se tornar um marco histórico na reaglutinação de forças da esquerda brasileira, que lentamente se dispersaram durante o primeiro mandato do presidente Lula.

 

Centrados no combate à reforma da previdência, à emenda 3, à política econômica vigente, à criminalização dos movimentos sociais e em defesa do direito de greve que vem sendo atacado pelo governo federal - além de outras bandeiras históricas da esquerda no Brasil -, as manifestações atraíram cerca de 1,5 milhão de pessoas em todo o país e foram, segundo avaliação das próprias entidades organizadores, um imenso sucesso.

 

“Foi uma vitória importante, de todos os que participaram”, diz Dirceu Travesso, da central sindical Conlutas e ex-candidato ao governo de São Paulo pelo PSTU. As principais manifestações no estado de São Paulo tomaram lugar, além da capital, em Santos, em Campinas e no Vale do Paraíba.

 

José Batista, do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) - outra entidade de expressão na esquerda brasileira que teve papel de grande importância nas movimentações do dia 23 -, concorda com a avaliação de sucesso total.

 

“Essa jornada foi importante para dar auto-estima para a militância e para dar a confiança para as bases das categorias de que é possível fazer a luta conjunta”, diz.

 

Além da Emenda 3

 

A CUT (Central Única dos Trabalhadores), principal central sindical do país, também estava entre as entidades que participaram dos eventos. Apesar de posições outrora em sintonia com os ditames do governo Lula, seu propósito no dia 23 foi engrossar o coro pela manutenção do veto à Emenda 3, cuja eventual aprovação tornaria possível que empresas contratassem trabalhadores através de contratos com PJs (pessoas jurídicas) – ou seja, uma flexibilização profunda das leis trabalhistas em vigor no Brasil.

 

No entanto, Dirceu Travesso acredita que o problema é mais grave e que os embates não podem se limitar apenas à questão da Emenda 3. “Não há forma coerente de se defender os direitos dos trabalhadores do país que não a organização dos movimentos e a ida à luta com a meta de derrotar tanto o governo federal como os governos estaduais que promovem políticas de retrocesso nas relações trabalhistas”, diz o sindicalista.

 

Outros grupos que estiveram presentes na jornada de lutas, como o MST, o MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), a UNE (União Nacional dos Estudantes) e a UBES (União Brasileira de Estudantes Secundaristas), trouxeram a público novamente suas tradicionais reivindicações.

 

No caso das entidades estudantis, a grande quantidade de militantes presentes às atividades do dia 23 – no evento da Avenida Paulista, cerca de metade dos participantes eram estudantes do ensino público médio e superior – serviu como nova prova do descontentamento com as políticas para o setor praticadas pelo governo de José Serra e como forma de apoiar os estudantes que, até o dia 24, ainda ocupavam a reitoria da USP (Universidade de São Paulo) com o intuito de lutar pela manutenção da autonomia da universidade e por melhorias na infra-estrutura universitária.

 

Para o futuro

 

Com o primeiro passo rumo à reaglutinação da esquerda brasileira dado, as entidades deverão, em breve, analisar qual o futuro para os setores combativos no país. A luta conjunta, no entanto, deverá seguramente ser a tônica de quaisquer novas empreitadas contra atentados aos direitos sociais.

 

“O mais importante é a unidade e continuar com essa aglutinação, até porque, para combater os pontos que elencamos, é preciso muito mais luta”, diz o militante sem-terra José Batista.

 

Para ele, a continuidade do processo envolverá a formação da consciência da militância e das bases de todas as categorias para que “seja possível reacender o movimento de massas no Brasil”.

 

“A nossa capacidade de procurar algo mais contundente e mudanças mais profundas será por meio da garantia da unidade e pela mobilização de muita gente”, conclui Batista, demonstrando entusiasmo na recuperação da força de outrora pela esquerda brasileira.

 

 

Mateus Alves é jornalista.

 

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