PSOL em 2010: candidatura própria ou fim de projeto

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Há em caráter público um debate no PSOL e na esquerda socialista e combativa sobre a tática para as eleições de 2010.

 

No PSOL, em particular, surgem o debate e as pressões públicas de uma parcela dos seus dirigentes para que o nosso partido inicie conversações oficiais, através da sua Executiva Nacional, com a pré-candidata do PV, Marina Silva. Este debate não se resume a uma querela de tática.

 

Está em jogo o próprio projeto do PSOL, a razão de ser como um pólo reaglutinador de uma esquerda anticapitalista, combativa, tanto no terreno partidário como no eleitoral e no da disputa dos rumos do movimento de massas e da luta de classes.

 

Está em questão agora se o partido vai manter sua vocação de oposição de esquerda socialista e plural aos dois blocos dominantes da política, tanto o bloco encabeçado pelo tucanato, como o bloco de sustentação do governo Lula, que no poder manteve os pilares da política econômica em vigor no Brasil desde os anos 90 e ainda aceitou de tal forma as regras do jogo institucional da classe dominante que arruinou o próprio PT no balcão dos grandes negócios capitalistas e da corrupção do Estado brasileiro.

 

Contra isso tudo surgiu o PSOL, que não veio para a cena política apenas para encarar conjunturas favoráveis ou "navegar ondas". Surgiu para reapresentar diante das difíceis circunstâncias e da crise na esquerda pós-governo Lula um novo projeto estratégico. Surgiu como ferramenta partidária que, exatamente por ser Partido, tem que vertebrar projeto de poder, para além das flutuações da conjuntura, das vitórias ou derrotas parciais da classe trabalhadora.

 

Pois bem, a tentação de procurar o atalho Marina Silva/PV diante de uma conjuntura que todos reconhecemos como adversa coloca todos esses pressupostos em questão. Marina Silva não é uma ruptura no sentido progressivo da reorganização das forças da esquerda socialista.

 

Senão vejamos: qual será a coerência do nosso partido para explicar que estaria disposto a apoiar uma candidata que defende publicamente 16 anos de diretrizes da política econômica dos mandatos FHC e Lula (em um claro esforço de Marina em dialogar com o bloco do tucanato, onde está, a propósito, boa parte do PV, como no caso dos governos Serra e Kassab em São Paulo)?

 

Qual será a coerência do PSOL para explicar o apoio a uma candidata que se filiou em um partido onde está um dos braços da família Sarney?

 

Qual será a coerência do nosso partido para explicar que apoiaria uma candidatura a presidente que aloja um grupo de capitalistas, grupo este que deverá indicar como vice na chapa o presidente da empresa Natura? Empresa que, por exemplo, abusa da repressão sobre os seus trabalhadores, impedindo-os até de realizar assembléias na porta das suas unidades. A propósito, quem quiser saber um pouco sobre o "compromisso" dos capitalistas "ambientais" da Natura com as condições dos seus trabalhadores pode começar pesquisando o site do Sindicato dos Químicos Unificados de Campinas, Osasco, Vinhedo e regiões (http://www.quimicosunificados.com.br/).

 

Qual será a coerência, por fim, para explicar o apoio a uma candidata que sequer estabeleceu uma ruptura com o bloco político petista que governa o Acre?

 

Os ‘hábeis’ táticos que no partido hoje cogitam ‘apenas’ o apoio formal a Marina, sem a coligação com o PV, esquecem que, aos olhos do povo, nossos mais lúcidos e combativos representantes, incluindo os parlamentares do partido, estariam apoiando na prática e de fato a mesma candidata a presidente que Zequinha Sarney, os parlamentares e os secretários de estado do PV nos governos Serra e Kassab apoiarão.

 

A ruptura de Marina Silva é pontual com o governo Lula, e, com todo o respeito que sua figura pessoal possa merecer, sequer podemos deixar de lado que, nos seus seis anos de participação no governo Lula, compactuou (ou cedeu) com grande parte da política anti-ambiental desse governo.

 

Abrir mão daquilo pelo qual nascemos?

 

Portanto, cogitar o apoio a Marina, em um momento em que o PSOL tem a obrigação e autoridade de aglutinar uma frente autêntica de esquerda e de setores combativos dos movimentos sociais para apresentar a sua visão do balanço da "era Lula", é cogitar abrir mão de ser aquilo para o qual nasceu.

 

A ironia trágica dessa história é que seja a própria presidente do partido, que liderou esse processo de reaglutinação e fundação do PSOL em 2004, a primeira em público a pressionar a direção do partido a comprometer-se com a hipótese Marina.

 

Mas quem pode ter o compromisso de apresentar um programa de defesa das reivindicações da classe trabalhadora, das verdadeiras bandeiras históricas e populares, da defesa coerente da luta pela reforma agrária, do emprego, salário, moradia, da ruptura com a dívida pública e com o sistema financeiro, contra a criminalização dos movimentos sociais e da pobreza, na apresentação de um coerente programa eco-socialista e não limitado a qualquer variante (e ilusão) de "capitalismo ecológico" ou "verde"?

 

Não será Marina Silva e o seu PV que apresentarão tais diretrizes. Se o PSOL abrir mão de cumprir esse papel nas eleições presidenciais, para tentar ser um tipo de "ala esquerda" de uma "onda" de centro-esquerda nestas condições, será do nosso ponto de vista fim de linha para o projeto PSOL, um game over. E, como conseqüência, uma nova dispersão de forças combativas na esquerda socialista nos assombrará já em 2010.

 

O partido tem que se levantar

 

Mas o partido tem reservas, não apenas para apresentar um programa anticapitalista capaz de reaglutinar a frente de esquerda, como tem nomes que podem encabeçar tal jornada, como é o caso da pré-candidatura de Plínio de Arruda Sampaio, cuja amplitude de apoios que vem recebendo na intelectualidade, nos movimentos sociais, setores da Igreja Católica, do sindicalismo combativo e da juventude dá mostras das reservas e possibilidades que o PSOL tem para enfrentar o cenário atual.

 

Outra demonstração das reservas partidárias foi o próprio papel que o PSOL cumpriu, unitariamente, para o êxito do seminário da reorganização sindical e popular e para o fato de que em 2010 teremos a fundação de uma nova Central da classe trabalhadora, com capacidade de ter, além de expressivas parcelas do sindicalismo combativo, a participação de movimentos populares como o MTST.

 

Portanto, a Executiva Nacional do PSOL não pode tomar a equivocada decisão de abrir negociações com Marina Silva.

 

É por acreditarmos que há reservas nas fileiras do partido, nos seus militantes inseridos nas lutas, populares, sindicais, ambientais, estudantis e dos seus mais diversos e ricos setoriais, que o momento é de nos levantarmos em defesa do projeto do PSOL, que no terreno da disputa eleitoral se materializa em uma candidatura presidencial própria com um programa de corte anticapitalista.

 

Ou o PSOL será oposição de esquerda socialista e independente ou não será mais nada que mereça ser lembrado. Impeçamos o desastre!

 

Fernando Silva é jornalista, membro da Executiva Nacional do PSOL e do Conselho Editorial da revista Debate Socialista.

 

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Comentários   

0 #20 SUICIDIOPeterson Pereira 02-12-2009 18:24
Aliança com a Marina é suicidio. É repetir o que o PT fez. É aceitar um grande empresário como vice. É matar um povo que acreditava que o PSOL daria um solavanco na esquerda e aglutinasse os setores descontentes com o lulismo! Aliar-se com a Marina é o início do fim do PSOL!
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0 #19 EntrevistaRoberto 19-11-2009 15:57
Sugiro aos "autênticos esquerdistas" que leiam a entrevista do vice-presidente da Bolívia, Rafael Linera, na CartaMaior. O governo Evo Morales que é de esquerda deve ter alguma coisa para ensinar.Você vai perceber Raimundo que falta muito para se fazer e que não é com base no voluntarismo que se conquista uma sociedade justa. "A novidade socialista acontece com poder e não com tagarelice, com trabalho árduo de comprovação e não com lábia desleal", Ernst Bloch-O princípio esperança.
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0 #18 FORA PTSOLRegis 18-11-2009 13:39
Afirmo que quem apoia a aliança do PSol com o PV é um bando de oportunistas, que não estão nem aí para um projeto socialista para o páis.
Olha a contradição o vice da "Ecocapitalista" Marina Silva é o presidente da Natura que manda bater em diretores dos sindicatos dos químicos unificados osasco e região, e explora a floresta e o povo que lá mora e aind essa empresa que maltrada os trabalhadores, olha contradição, mas vai esperar o que sendo que muito que estão hoje no PSOl são PETISTAS por isso chamo de PTSOL, que defenderam abertamento apoio a LULA em 2006 como o Marinconi,

O PSOl infelizmente tá igual ao PT, na tiragem de delegados, poder pelo poder, falta de um projeto socialista para o país o PTSOL ta aí.
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0 #17 Temos o melhor candidatoJanuário Diniz 15-11-2009 04:57
Leio pelo noticiário que a executiva do PSOL aprovou o “início dos diálogos formais para uma aliança” com o PV e a candidatura de Marina Silva à Presidência da República. Lamento, mas neste barco, tal qual o outrora barco do PT, eu não navego mais. Plínio de Arruda Sampaio é o candidato ideal para defender nossas posições programáticas e, principalmente, denunciar (didaticamente) as mazelas do capitalismo em nosso país e alhures. Recentemente, Plínio deu entrevista ao programa “Faixa Livre” que é transmitido diariamente na cidade do Rio de Janeiro, através da rádio Bandeirantes. Em menos meia hora de programa Plínio conquistou os ouvintes que passaram a enviar perguntas e apoio à sua candidatura. Heloísa Helena, no meu entender, apesar do carisma, tem visão política limitada. Plínio é tão cristão como ela, no entanto, enxerga a mecânica política de modo laico. A maneira como ela defende a questão do “aborto”, dá mostras de sua visão de mundo. Apoiei HH quando esta foi expulsa do PT, mas o mundo está voando e a Lusitana apenas roda. Marina Silva, fazendo parte do Governo Lula e do ministério que comandou, feriu gravemente a agenda ecológica. A liberação dos transgênicos e a transposição das águas o Rio São Francisco não dão margens à dúvida. O cabedal político de Marina é capitalista e de enfeite criacionista. Navegar é preciso, mas morrer afogado, jamais, será preciso. A não ser, é claro, quando do suicídio planejado.
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0 #16 Definir a estrategia e lançar candidatoLeonardo Brasil 13-11-2009 13:07
Chegou a hora de A esquerda lançar um programa de nação SOCIALISTA... Claro, objetivo e que seja defendido por toda a FRENTE DE ESQUERDA 2006...Esqueçam o PV e Marina Silva... seria uma coligação indireta com o demotucanato. Se for pra vencer eleição, que seja pelo projeto que apresentarmos e pela nossa força de convencer as pessoas, não por fazer qualquer aliança que nos transfira votos dos globais de Marina/Gabeira. PSOL, Partidão e PSTU juntos, isso é esquerda... isso é socialismo!
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0 #15 Elevemos o nivel do debateFrancisco Severino 13-11-2009 11:42
Vejo nesta pagina muitos comentários desconexos com a problemática proposta. Além de demonstrarem desrespeito entre os debatedores com muitas postagens destilando frases feitas , discursos emotivos e óbvios e um niilismo, por si só inócuo,que não contribui para nada além, de dar ilusão de participação e prazer patológico a seus autores e autoras que muitas vezes usam nomes falsos. Alias, sugiro aos responsáveis pelo "Correio" que tornem mais rigido o sistema de comentários, para que as postagens sejam realmente de seus autores.
Sobre o texto é muito simples, independente de oportunismo desta ou daquela figuras de legado petista a tese de Fernando esta correta e obviamente, devemos aprofundar o debate de suas implicações.
Por favor demais leitores poupem-nos de histerias ou malandragens nos comentários, solicito urgentemente a revisão dos critérios para os comentários com certeza reduzirão os mal intencionados se não puderem ser anônimos ou inventar nomes para atrapalhara discussão ou por não terem coragem de se posicionar de fato.
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0 #14 falta Pouco...Raymundo Araujo Filho 12-11-2009 18:32
Dimensões diferentes à parte, daqui a pouco o Roberto aí de cima, vai dizer que os esquerdistas foram mortos e torturados pela Ditadura, por terem a provocado....

No Brasil, tá virando moda criminalizar as vítinmas. Dos Sem Terra à pobre guria que foi de mini saia para a faculdade, a UNIBAMBI.

É mais uma resultante da mediocridade que toma contas do Brasil, com o Bloco dos Contentes e a Ex-Esquerda Corporation S.A. no comando da Banda.
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0 #13 Estilo HHRoberto 12-11-2009 13:51
Parabéns Hector, você demonstrou que é realmente do time de HH: grosseiro, agressivo, maleducado, sectário. Cheguei a ver seus gestos histriônicos,babando de raiva.E se você é inocente a ponto de não ter percebido - ou não ficou sabendo - que HH cavou a expulsão dela do PT, problema seu. Continue assim, é melhor pra sua saúde. Quanto ao tema realmente importante, penso que quem não passa fome, tem casa pra morar, escola de qualidade pra estudar, enfim, tem a vida organizada e bem-estar, tem a vida toda pela frente para esperar e recomeçar, sempre.Vai formando partido, mais outro, mais outro, tantos quantos forem necessários. Mas e o povo brasileiro gente, ainda se lembram desse "detalhe"? Já pensaram na urgência de atender as necessidades básicas da grande massa popular?
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0 #12 Pera lá!Raymundo Araujo Filho 12-11-2009 12:56
Há algum risco do PSOL viajar na maionese e apoiar a Marina? Ainda não sepultaram esta baboseira?

Se não, parem o carro que eu quero descer que, embora eu não seja filiado ao PSOL (tenho até graves divergências muitos do PSOL de Niterói, na condução de Luta Popular), penso que poderíamos votar em algum parlamentar do Partido nas próximas eleições, e votar no Plínio, CASO A SUA CANDIDATURA SEJA DECLARADAMENTE UMA "ANTI CANDIDATURA" QUE DENUNCIE A FARSA ELEITORAL E DIVULGUE UM PROGRAMA PARA O PAÍS (NÃO DE GOVERNO, EXATAMENTE), QUE MUDE O RUMO DAS COISAS.

Mas, abdicando de suas responsabilidades e apoiando marina, eu não teria outra opção senão fazer campanha também cCONTRA o PSOL, extendo meu Voto Nulo que já vai para os Cargos Executivos (exceto com a anti canduidatura expressa do Plínio), também para os Parlamentares.

Não façam iuma besteira destas!
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0 #11 um pouco mais do mesmoCelso Albano Lavorato 12-11-2009 11:09
O comentário feito por Hidalgo me lembrou aquele poema dos que lutam por um dia e são bons, dos que lutam por muitos dias e são melhores e dos que lutam a vida toda e são inprescindiveis. Tenho 50 anos, ajudei na construção do PT, PSTU e agora do PSOL. E se para ter um Partido que consiga conjugar Socialismo e Democracia tiver que começar de novo vou começar. Plinio Arruda Sampaio é a prova viva de que para os que sonham e lutam, o evelhecimento é apenas uma questão de opção.
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