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Com Evo, a Bolívia começa a existir Imprimir E-mail
Escrito por Luiz Eça   
Terça, 03 de Novembro de 2009
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Em dezembro, haverá eleições presidenciais na Bolívia. Evo Morales será certamente reeleito por larga margem. Nas últimas sondagens (Ipsos-Opinion, Apoyo y Mercado) obteve 54% contra 20% do oposicionista Manfred Reyes Villa. E seu partido, o MAS (Movimiento Al Socialismo), ganharia o controle do Senado, com 22 cadeiras, deixando seus rivais com apenas 15.

 

A eleição de Evo, em 2005, fora recebida com desprezo pelas classes ditas ilustradas - a elite dos 12% de brancos da população, que detinha o poder desde a independência no século 19.

 

Governos anteriores, abençoados por Washington, seguiram à risca os princípios do FMI durante 20 anos seguidos. E o resultado foi que a renda per capita nacional, em 2005, era menor do que há 27 anos; 80% da população viviam na miséria naquele que era o país mais pobre da América do Sul. O que se poderia esperar de um pequeno fazendeiro índio no governo de um país nessas condições?

 

A resposta chegou logo. A primeira medida de Evo foi dar um exemplo de austeridade, reduzindo seu salário em 57%, passando a ganhar menos de 1.900 dólares mensais.

 

Três meses depois da posse, rompeu com o FMI e nacionalizou a maior riqueza do país: os hidrocarbonetos.

 

Todas as jazidas de gás e petróleo bolivianas vinham sendo exploradas por empresas transacionais, através de acordos leoninos, firmados nos tempos da sujeição ao FMI, que rendiam escassos dividendos ao país.

 

Com a nacionalização, as rendas públicas tiveram considerável aumento, o que permitiu que os investimentos públicos passassem de 6,3% do PIB, em 2005, para 10,5% em 2009.

 

Evo Morales seguiu ampliando o papel do Estado na economia, pela desapropriação ou participação na sociedade de empresas, especialmente dos setores de energia e mineração.

 

Um bom exemplo é dado pela mina de Mutun, uma das maiores jazidas de ferro do planeta, com reservas de 40 bilhões de toneladas, a qual se achava praticamente abandonada pelos generais e bacharéis que se revezaram nos governos anteriores.

 

Agora está sendo explorada intensamente pela JV, uma parceria das estatais Essen e Comibol com a indiana Jindal, que se comprometeu a investir 2,5 bilhões de dólares em oito anos.

 

Com o "socialismo à boliviana" do governo Evo Morales, a participação do Estado na economia nacional passou de 8%, em 2005, para 28%, em 2009.

 

Os resultados têm sido bastante positivos em termos de crescimento, que foi de 3,7%, em 2005, para 6% em 2008. Sucesso também nas finanças públicas: depois de 40 anos seguidos de déficit orçamentário, a Bolívia passou a ter superávits a partir de maio de 2007.

 

Nada disso pode ser creditado à poupança externa, pois a Bolívia é um dos países da América Latina com menos investimentos do capital estrangeiro.

 

Os benefícios do processo de desenvolvimento boliviano estenderam-se à população. Assim, a renda per capita aumentou de 2.600 dólares em 2005 para 4.400 dólares em 2008. Em menos de três anos foi quase que totalmente erradicado o analfabetismo no país; 825 mil bolivianos aprenderam a ler e escrever.

 

A população pobre, antes completamente desassistida, recebe agora atendimento médico gratuito. Uma das conseqüências foi a redução da mortalidade infantil, que foi de 60 em cada 1.000 crianças, em 2005, para 49 em 1.000, em apenas três anos do governo Evo Morales.

 

Os aposentados, que nos períodos anteriores não recebiam nada, passaram a ganhar pensão mensal vitalícia.

 

A solidez da economia deste país dirigido por um índio foi provada na grande crise mundial do capitalismo.

 

Com 7,8 bilhões de dólares em reservas – perto da metade do PIB nacional – e economias do governo acima de 10% do PIB, a Bolívia está se saindo bem. Será um dos raros países da região que apresentarão crescimento positivo. O Moody´s Investor Service prevê um índice de 3%. O que é particularmente notável se levarmos em conta que a economia boliviana foi fortemente impactada pela crise já que seus principais produtos de exportação – gás, petróleo e minérios – tiveram seus preços internacionais reduzidos.

 

Além disso, o governo Bush cortou privilégios de que gozavam as exportações bolivianas no mercado americano. Alegou-se que a causa fora a pouca colaboração do governo boliviano no combate ao tráfico.

 

Evo Morales havia condenado o programa de erradicação de plantações de coca conduzido pelo exército americano. Ele sustentou que a produção de coca é legítima e importante para a economia nacional, pois o produto é largamente consumido nos países andinos sob a forma de chá. E afirmou haver formas mais eficazes de reprimir os narcotraficantes, o que ele faria com mão de ferro.

 

No entanto, outros motivos explicaram a atitude de Bush: a aliança de Evo com Chávez e a socialização crescente da economia boliviana. Os EUA não se limitaram a cortar benefícios. Seu embaixador, Philip Goldberg, pagava artigos contra o governo em jornais oposicionistas.

 

E, conforme documentos oficiais do governo americano, exibidos pela advogada Eva Gollinger, as agências USAID e National Endownment for Democracy financiavam os movimentos separatistas e golpistas da chamada Media Luna Boliviana – liderada pelos governadores dos ricos estados do sul do país.

 

Enfrentando o atraso secular do seu país, as tentativas de golpes, as crises e pressões externas, Evo Morales segue com seu projeto de construir um Estado moderno.

 

Para muitos, parecia impossível. Um desafio de gigantescas proporções. Mas, hoje, as perspectivas são boas.

 

Há grandes esperanças de que, já no segundo mandato de Evo Morales, comece a existir uma nova Bolívia, com qualidade de vida e industrialização acelerada.

 

Luiz Eça é jornalista.

 

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Última atualização em Qui, 05 de Novembro de 2009
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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