Luta armada – Operação salvamento

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Em 1974, fui enviado para tentar reorganizar o partido no Pará e no Maranhão, de modo a estabelecer pontes no rumo da antiga região guerrilheira e realizar um tipo de operação salvamento. Havia a esperança de que ainda houvesse sobreviventes. Juntando aos quadros do partido vários companheiros provenientes da AP, iniciamos o trabalho de sua implantação em áreas do sul e centro do Maranhão e no Pará, tanto no baixo Tocantins quanto na região entre esse rio e o Xingu.

 

Em meio a esse trabalho, a repressão policial-militar conseguiu localizar alguns militantes da AP, provenientes do Nordeste, e caiu com fúria sobre eles. Prendeu e torturou vários deles e assassinou Ruy Frazão, prejudicando boa parte da rede que estávamos montando, em especial no Maranhão. Apesar disso, a maior parte ficou a salvo, em parte graças à política de fingir-se de morto.

 

No Pará, conseguimos nos recolocar não só em Belém e adjacências, mas também no baixo Tocantins, Xingu, Transamazônica e Santarém, estabelecendo alguns tênues canais de contato com a região em que ocorrera a guerrilha. Todas as informações que obtínhamos dali eram de que todos os guerrilheiros haviam sido liquidados. Esta era a razão pela qual as forças armadas haviam suspenso, não só todas as operações na área, mas inclusive qualquer barreira de controle.

 

Para testar a veracidade dessas informações, cruzei a Transamazônica, em 1975, de Estreito, via Marabá, até Presidente Médici, no cruzamento com a estrada para Santarém. A essa altura, a avaliação da experiência da guerrilha do Araguaia havia se tornado premente e encontrar algum sobrevivente seria importante, tanto para salvá-lo quanto para ter mais testemunhas da ação. Porém, todos os indícios eram de que nada sobrara, e que nossa operação salvamento não tinha qualquer serventia.

 

De qualquer modo, era indispensável avaliar a correção ou não de uma forma de luta que fora destroçada, para considerar a necessidade, ou não, de sua continuidade. Além disso, era preciso levar em conta que a conjuntura política estava mudando, principalmente após a derrota eleitoral da ditadura, em 1974. O governo militar de plantão, comandado por Geisel, começou a ensaiar uma transição negociada e limitada, que chamou de distensão. Tornava-se evidente a incapacidade do regime em superar a crise econômica, social e política.

 

A ditadura ressentia-se de uma crescente falta de apoio da burguesia e da pequena-burguesia. Começara, portanto, um processo de retirada, embora ainda conservando poder suficiente para causar estragos consideráveis entre os opositores do regime. Essas mudanças já se refletiam na política do partido. Vale a pena lembrar que, em 1976, a palavra de ordem de boicote às eleições, que norteara a posição partidária nos processos eleitorais anteriores, fora deixada de lado. Várias direções estaduais e municipais adotaram medidas de apoio a candidatos democratas, progressistas ou próximos ao partido.

 

Por outro lado, o governo militar estava empenhado em liquidar a direção do partido, assim como dirigentes de outras correntes políticas de oposição. Com razão, temiam que eles pudessem ter papel saliente para levar a transição ensaiada, e a retirada do regime, mais longe do que este havia estabelecido. Foi a constatação dessa dualidade que, finalmente, fez com que a direção do partido adotasse, pelo menos em teoria, a política de fingir-se de morto.

 

Esta política, nesse momento, era um tipo de operação salvamento, que exigia cortar laços e contatos com todos aqueles dirigentes e militantes em perigo de queda, suspender todas as reuniões com mais de três ou quatro dirigentes ou militantes e jogar a militância para integrar-se às camadas populares da população e confundir-se com elas. Este conjunto de medidas seria a garantia de que, no seu processo de retirada, a ditadura não tivesse condições de causar perdas sérias ao partido.

 

Apesar disso, uma parte da comissão executiva continuava empenhada em voltar a preparar a luta armada nos mesmos termos anteriores. Além disso, resistia em considerar que a derrota no Araguaia fora estratégica, exigindo uma mudança em profundidade na política de guerra popular, e desconsiderava a natureza das mudanças em curso na conjuntura.

 

Em consequência, a comissão militar foi reorganizada e o comitê central continuou realizando reuniões com oito ou nove dirigentes, na tentativa de completar sua difícil e penosa avaliação da experiência da guerrilha. Porém, pior do que isso tudo foi que, ao invés de cortar os contatos com os dirigentes do Rio de Janeiro, onde haviam ocorrido quedas muito sérias e confusas, alguns membros da comissão executiva decidiram convocar um desses dirigentes, Jover Telles, para a reunião de dezembro de 1976.

 

Em tais condições, não haver aplicado seriamente a política de fingir-se de morto demonstrou, por um lado, miopia política, diante dos resultados da guerrilha do Araguaia e das mudanças conjunturais em curso; por outro, uma ingênua estupidez, diante da capacidade do regime em desfechar golpes mortais. Já a serviço do serviço secreto do exército, Jover Telles teve condições de jogar papel fundamental no assassinato de Arroio, Drumond e Pomar, assim como na prisão de outros membros do comitê central, presentes à reunião.

 

Assim, a operação salvamento, no norte do país, falhou, pela ausência do que salvar, embora se tenha plantado as condições para o desenvolvimento de um trabalho político futuro. E, no centro do partido, a operação salvamento falhou pela presença de visões políticas que desconsideraram tanto a necessidade de mudar a estratégia quanto os perigos que nos rondavam na transição do regime ditatorial.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

 

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