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Luta armada – Um outro caminho Imprimir E-mail
Escrito por Wladimir Pomar   
Quarta, 14 de Outubro de 2009
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As decisões posteriores, a respeito do trabalho no Ceará, foram em parte facilitadas pela existência de uma base partidária mínima no sudoeste do estado, tendo como centro o município de Crateús, e pela disposição demonstrada por alguns militantes de Fortaleza de se deslocarem para o interior.

 

No início de 1970, a ocorrência de uma forte seca tornou-se patente, colocando em tensão todos os segmentos sociais da região. A seca se tornou, assim, o primeiro teste para o intenso trabalho político que tínhamos em vista realizar entre os camponeses. Tínhamos como vantagem o fato de os militantes partidários da região, embora não sendo lavradores, participarem de algumas comunidades eclesiais de base e terem contato estreito com certo número de lideranças comunitárias e de trabalhadores rurais.

 

As comunidades de base eram, na ocasião, a forma única de organização popular naquela região. Por isso, concentrou-se nela a discussão sobre a justeza ou não de reivindicar frentes de trabalho. Lideranças comunitárias e militantes partidários achavam as frentes de trabalho um paliativo, que nada resolveria. Mas nenhum possuía uma proposta diferente. Os camponeses, por seu turno, enxergavam nas frentes de trabalho a única forma de sobrevivência.

 

Diante disso, só restou a tática de estar junto com eles na reivindicação das frentes. A sugestão de combinar essa reivindicação com a de obras que atendessem a todos, e não apenas a alguns, principalmente na construção de açudes, chocava-se com a realidade da propriedade rural. Públicas eram apenas as terras das estradas. O resto era latifúndio, esmagadoramente.

 

De qualquer modo, a ação exigindo as frentes de trabalho, realizada em conjunto com lideranças e militantes comunitários, permitiu que os militantes do partido, transferidos das zonas urbanas, se entrosassem com os trabalhadores rurais e fossem aceitos naturalmente. Do mesmo modo que no trabalho militar de preparação da luta armada eles realizavam atividades econômicas comuns e, através das comunidades, demonstravam sua solidariedade aos cassacos e suas famílias. Cassaco, um tipo de gambá, era o modo como os camponeses das frentes chamavam a si próprios, ao permanecerem, a semana toda, sem banho e com a mesma roupa, exalando fedor.

 

Mas o trabalho nas comunidades de base não se restringia a isso. Através das reuniões comunitárias, os trabalhadores descobriam seus problemas e os pontos de partida para definir suas reivindicações. Naquela ocasião, com a seca, as reuniões continuavam a ocorrer, tanto nos sítios quanto nos acampamentos, e as preocupações eram as condições péssimas de trabalho, sob sol escaldante, o fornecimento insuficiente dos alimentos e o baixo soldo semanal.

 

Essa constatação e a omissão do batalhão de engenharia do Exército, que gerenciava as frentes da região, diante dos problemas fizeram brotar a idéia de que os cassacos deveriam invadir os armazéns onde eram guardados os alimentos. No processo de discussão, os militantes do partido sugeriram que era cedo para realizar essa ação, porque seu desejo não correspondia a uma organização e mobilização de fato dos trabalhadores das frentes.

 

A derrota desses militantes, na assembléia das lideranças camponesas que decidiu a data das invasões, causou a primeira crise interna na pequena organização partidária da região. Uma parte dela advogou que não se deveria participar, porque a ação estava fadada ao fracasso. Outra argumentou que, apesar disso, ela não seria uma ação isolada. Teria uma relativa participação de massa, pelo envolvimento das lideranças que haviam adotado a decisão.

 

Nessas condições, a não participação dos militantes do partido seria contabilizada como uma das causas do fracasso, atrapalhando a que os próprios trabalhadores extraíssem as lições do fracasso. O mais correto seria que os militantes não apenas participassem, mas também fossem os principais ativistas pelo sucesso das invasões.

 

Foi participando desse modo, embora as invasões tenham, em geral, fracassado, que o prestígio dos militantes do partido cresceu entre as lideranças e os militantes comunitários. O que permitiu realizar um trabalho político mais amplo, embora mantendo a linha de fingir-se de morto. Quando a chuva retornou, em janeiro de 1971, o partido já havia recrutado vários dos militantes e lideranças camponesas que haviam se destacado.

 

Durante 1971 e 1972, o centro do trabalho partidário na região foi a combinação de construção de bases partidárias com a organização de sindicatos de trabalhadores rurais. Por um lado, a ditadura militar passou a incentivar a organização sindical, na perspectiva de transformá-la em apêndice da política de atendimento das aposentadorias rurais. Por nosso lado, decidimos participar do processo, seja para avançar mais um passo na organização dos trabalhadores rurais, seja para realizar a disputa sobre o caráter dos sindicatos, não só de assistencialismo, mas também de luta.

 

Em termos gerais, a experiência do trabalho nas frentes e na organização sindical permitiu comprovar o quanto os camponeses da região, compostos de foreiros, porcenteiros, rendeiros e pequenos proprietários, estavam longe de qualquer organização e mobilização mais consistente.

 

Eles sequer haviam dado os passos para lutar por suas reivindicações econômicas básicas, como o pagamento de foros e taxas menores pela terra alheia em que trabalhavam. A mudança do sistema latifundiário, assim como a derrubada da ditadura, ainda não estava em sua linha do horizonte. Mobilizá-los para a luta armada da guerra popular exigia a adoção de outro caminho, bem mais prolongado.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

 

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Última atualização em Qui, 15 de Outubro de 2009
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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