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Os zapatistas e as múltiplas formas de resistência Imprimir E-mail
Escrito por Guga Dorea   
Sexta, 09 de Outubro de 2009
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"Para começar, te rogo não confundir a resistência com a oposição política. A oposição não se opõe ao poder, senão a um governo, e sua forma lograda e completa é a de um partido de oposição; enquanto a resistência, por definição (agora sim), não pode ser um partido: não é feita para governar, senão para ... resistir"().

 

Com esse texto, de Tomás Segovia, que é chamado de Alegatorio e foi escrito no México em 1996, o subcomandante Marcos praticamente encerra uma espécie de manifesto político desenvolvido por ele cujo título é "A Quarta Guerra Mundial já começou".

 

Nesse manifesto, Marcos divide a sua visão em relação ao neoliberalismo em sete peças. O texto do Segovia faz parte da última peça, cujo conteúdo se refere a possibilidades latentes de resistências ao regime capitalista. Chamada por ele de "As bolsas de resistência", a peça refere-se a um "choque" intermitente entre "a aparente infalibilidade da globalização" e a "teimosa desobediência da realidade". São bolsas "de todos os tamanhos, de diferentes cores, das formas mais variadas. Sua única semelhança é sua resistência à ‘nova ordem mundial’ e ao crime contra a humanidade produzido pela guerra neoliberal" ().

 

Mas como pensar em resistências concretas quando o imaginário capitalista atravessou por todos os cantos da subjetividade humana, reprimiu as singularidades e impôs o UNO, arrastando pretensas identidades e tradições culturais? O capitalismo contemporâneo, dentro dessa perspectiva, tratou de contaminar o que Guattari chamou por "territorialidades humanas tradicionais".

 

Em contrapartida, reiterou sempre Guatarri, estamos presenciando um processo conhecido como heterogênese, ou seja, novas formas de conceber a vida estão sempre prontas a romperem o cerco reterritorializante do sistema. Retornando à peça 7 do quebra-cabeça zapatista, Marcos aponta não para uma resistência supostamente unificada, mas para múltiplas resistências que podem se interconectar entre si, sem que uma se sobreponha ou seja subjugada pela outra.

 

"Ao tratar de impor seu modelo econômico, político, social e cultural, o neoliberalismo pretende subjugar milhões de seres, e desfazer-se de todos aqueles que não têm lugar em sua nova repartição do mundo. Porém, resulta que esses ‘prescindíveis’ se revoltam e resistem ao poder que quer eliminá-los. Mulheres, crianças, anciões, jovens, indígenas, ecologistas, homossexuais, lésbicas, soropositivos, trabalhadores e todos aqueles e aquelas que não só ‘sobram’, mas que também ‘molestam’ a ordem e o progresso mundial, se revoltam, se organizam e lutam. Sabendo-se iguais e diferentes, os excluídos da ‘modernidade’ começam a tecer as resistências contra o processo de destruição/despovoamento e reconstrução/reordenamento levado adiante, como guerra mundial, pelo neoliberalismo"().

 

A frase "sabendo-se iguais e diferentes" é a mais pertinente. Como deve ser conceituado o tema "diferença" na atual órbita contemporânea mundial? É uma questão complexa que merece um pouco de atenção antes de continuarmos no nosso instigante quebra-cabeça planetário. Mas por enquanto fiquemos com uma carta remetida para os participantes do Fórum Nacional Indígena. Nela, o Comitê Clandestino Revolucionário Indígena proclamou o seguinte dilema em relação ao racismo:

 

"Não podemos combater o racismo praticado pelos poderosos com um espelho que apresenta a mesma coisa, só que ao contrário: a mesma falta de razão e a mesma intolerância, mas agora contra os mestiços. Não podemos combater o racismo contra os indígenas praticando o racismo contra os mestiços. (...) No mundo que os zapatistas querem cabem todas as cores de pele, todas as línguas e todos os caminhos" ().

 

É nesse contexto que o EZLN, sobretudo através dos comunicados do subcomandante Marcos, tem resgatado esse tema bastante atual e pertinente para o Brasil. Ao defender a polêmica hipótese de que a defesa da diferença não significa negar a importância da igualdade social, os zapatistas estão redimensionando os conceitos do que é ser diferente e igual no mundo contemporâneo, o que pode nos remeter inclusive à velha dicotomia antropológica entre etnocentrismo e relativismo.

 

Como definir entre um etnocentrismo unilateral, no qual o mais forte impõe seus interesses ao mais fraco, e um relativismo complacente que reitera a intocabilidade das diferenças, isolando culturas em espécies de guetos incomunicáveis e, não poucas vezes, geradores de sangrentas guerras de verdades contra verdades?

 

Há dois lados de uma mesma moeda. A cultura ocidental globalizada, ao impor o princípio da homogeneização ou do monoculturalismo, acabou gerando, no seu contra-fluxo, diversas e múltiplas manifestações heterogêneas, nem sempre inéditas no contexto da historiografia mundial, que resistem a essa busca por uma eventual massificação globalizante.

 

O capitalismo contemporâneo, é impossível negar, está em toda a parte. Contaminou o tempo e os espaços geográficos reprimindo, na medida do possível, qualquer possibilidade da emergência de desejos singulares, sejam eles coletivos ou individuais. A partir do pressuposto de que a chamada globalização do mercado tornou-se um fato irreversível, o principal nó a ser desatado é como deve ocorrer a inserção de um país como o México no contexto mundial.

 

Diante de todo esse panorama, como criar novos mecanismos políticos, econômicos, sociais e culturais para que o planeta não fique exclusivamente nas mãos do mercado, que é inevitavelmente excludente. O surgimento de novos grupos, que atuam paralelamente ao Estado, de uma maneira transversalizada, talvez venha a se tornar o primeiro passo rumo a uma globalização não perversa, que não busque a destruição das diferenças humanas em nome de uma fictícia igualdade, abrindo possíveis espaços e brechas para novas singularidades, novos modos de ser, que devem ser planetários, mas sempre se levando em consideração as diferenças localizadas.

 

(1) Felice, Massino Di & Muñoz, Cristobal (orgs), "A revolução invencível", Boitempo Editorial, São Paulo, 1998, pg 221

(2) idem, pg 121

(3) Id, pgs 221& 222.

(4) Id, pg 150 & 151.

 

Guga Dorea é jornalista e sociólogo. Atualmente é integrante do Instituto Futuro Educação e colaborador do Projeto Xojobil.

 

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