Discurso dúbio de Obama justifica ocupação militar na Colômbia

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O segundo encontro da cúpula da União das Nações Sul Americanas (UNASUL), em um mês, promovido no último dia 28 de agosto na cidade de Bariloche, Argentina, esquentou o debate em torno do recente acordo EUA- Colômbia, que amplia a presença das forças militares estadunidenses em sete bases localizadas estrategicamente no território colombiano.

 

Durante a reunião, que durou aproximadamente sete horas, o presidente colombiano, Álvaro Uribe, não apresentou a esperada garantia jurídica de que a presença estadunidense na Colômbia não colocará em risco a segurança interna e a soberania dos territórios vizinhos. Sob a justificativa da "luta contra o narcotráfico, os grupos armados de esquerda e a delinqüência social na região", Uribe conseguiu inclusive avalizar mais essa ocupação dos EUA, que soma agora algo em torno de 872 bases espalhadas por grande parte do planeta.

 

Os EUA, por sua vez, estão tentando camuflar mais essa ocupação a um país estrangeiro, ao afirmar que as bases militares estarão, na prática, sob as ordens da Colômbia. Apesar das declarações incisivas do presidente Barack Obama de que a política externa de seu governo para a América Latina vai mudar, passando de agora em diante a respeitar a soberania de cada país, a prática de seu governo foi a de manter e ampliar o processo de dominação e vigilância de seu antecessor, com a instalação de mais três bases militares, que vieram se somar as quatro já existentes na Colômbia.

 

Na realidade, já revelaram alguns especialistas em política internacional, a proposta de ampliação dessas bases militares em território colombiano vem sendo gestada desde o governo do presidente George W. Bush. Entre outros motivos, foi uma resposta ao anúncio do presidente do Equador, Rafael Correa, de que não renovará o acordo de permanência da base militar dos EUA estrategicamente instalada na cidade portuária de Manta.

 

Segundo analistas políticos, a estratégia dos EUA também é de se aproximar, pelas margens da Amazônia, das reservas de petróleo recentemente descobertas pela Petrobrás nas camadas Pré-Sal, além de proteger oleodutos existentes na região, entre eles o de Caño Limón, localizado na fronteira entre a Colômbia e a Venezuela, tendo como objetivo garantir suprimentos futuros de petróleo e gás.

 

As recentes manifestações e confrontações entre o Estado peruano e os povos indígenas e camponeses no nordeste do Peru também pode ter precipitado a decisão de ampliar a ocupação na Colômbia. Em vez de fortalecer seu poderio bélico na base de Pichari, localizada na cidade de Cuzco, o governo dos EUA optou por aumentar a quantidade de suas bases em um país "mais amigo e confiável".

 

Enquanto isso, o presidente Lula saiu da reunião da UNASUL, antes do seu término, com uma posição no mínimo dúbia. Mesmo se colocando contrário a mais essa intervenção estadunidense, defendeu a hipótese de que a Colômbia é soberana para tomar suas próprias decisões, não se pronunciando oficialmente sobre a crise política na região. Com essa suposta neutralidade, parece que o presidente brasileiro não quis ver prejudicado o seu objetivo político de usar a UNASUL como trampolim para consolidar uma possível liderança do Brasil no continente, em contraponto à exercida por Hugo Chávez, da Venezuela.

 

Além de todos esses motivos extraterritoriais, nunca é demais lembrar que, sob o pretexto de combater o narcotráfico, trata-se ainda da ampliação do Plano Colômbia. Criado em 2000, ele tem como meta combater e eliminar as Forças Armadas Colombianas (FARCs). Essa nova investida militar dos EUA na América do Sul também acontece em plena efervescência dos atritos diplomáticos e políticos com os governos da Venezuela e da Bolívia.

 

De acordo com declarações do coletivo político colombiano Pólo Democrático Alternativo sobre as bases militares no país, o acordo abre brechas para que os EUA possam acionar todo tipo de operação militar dentro e fora da Colômbia.

 

Esta conjuntura nos remete às palavras do escritor uruguaio, Eduardo Galeano que, em recente entrevista concedida ao Observatório Latino-americano Cronicón, na cidade de Quito, afirmou, sem dubiedades: "A presença norte-americana em bases militares da Colômbia não só ofende a dignidade da América Latina, mas também a inteligência".

 

Guga Dorea, Andrea Paes Alberico, Carlos Alberto Cordovano Vieira, Elisa Helena Rocha de Carvalho, João Xerri, o.p., José Juliano de Carvalho Filho, Luis Eça, Marietta Sampaio, e Thomaz Ferreira Jensen, do Grupo de São Paulo - um grupo de 12 pessoas que se revezam na redação e revisão coletiva dos artigos de análise de Contexto Internacional do Boletim Rede, editado pelo Centro Alceu Amoroso Lima para a Liberdade, de Petrópolis, RJ.

 

contato: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

 

Artigo publicado na edição de setembro de 2009 do Boletim Rede.

 

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