O verbo “crackar” é irregular

 

Apesar das intempéries que azucrinam o dia-a-dia da vida de tantos, o mês de setembro se encerra embalado por anúncios primaveris. É praxe. Andam dizendo, por exemplo, que até aquela crise que se prenunciava terrível, a maior de todas desde 1929, passou, sumiu, acabou. Chegou e saiu com a rapidez do relâmpago, tal qual o bloco de frevo cantado por Jackson do Pandeiro: "lá vem, lá vem o bloco/vai passar/já passou!".

 

A máquina mercante, segundo dizem, recuperou o alento e, breve, voltará a funcionar a pleno vapor. Para gáudio dos de sempre, teremos mais do mesmo. A mídia grande, monopólio de poucos, abre editoriais falando em pós-recessão: "foi assustador, mas felizmente se limitou a dois trimestres". Autoridades do governo, em entrevistas sucessivas, se vangloriam do próprio desempenho. Luminares do pensamento conservador (Delfim: "Lula salvou o capitalismo") tecem loas aos sustentáculos do continuísmo. Até aquelas agências de classificação de risco, das quais nos imaginávamos livres depois tantos fiascos, voltaram a nos indicar como um paraíso para os aplicadores e rentistas.

 

Entre as vozes mais destacadas do coral dos contentes, não por acaso, estão os magnatas supremos do sistema financeiro. Veja, a título de exemplo, o artigo publicado dia destes na Folha de S. Paulo pelo presidente da Federação Brasileira de Bancos, Fábio Barbosa. Entusiasmado, o ferrabrás da FEBRABAN afirmou: "aqui no Brasil podemos dizer que nossa economia foi aprovada com louvor no verdadeiro teste de estresse a que foi submetida". E listou, ato contínuo, as três razões que, na opinião lá dele, tornaram possível o "desempenho admirável".

 

"Primeiro e mais do que nunca": a estabilidade macroeconômica e institucional ao longo dos últimos anos. Em suma: um elogio ao nexo Lula-FHC como expressões distintas, mas igualmente garantidoras, de um mesmo padrão de política. Em segundo lugar: "a ação rápida e competente do governo foi decisiva na contenção dos impactos sobre os demais setores da economia". Como primeiro exemplo da rapidez e competência do governo, o representante dos banqueiros ressalta o que veio em benefício da sua corporação: "a agressiva redução dos depósitos compulsórios e sua canalização para compra de carteiras contribuíram para acelerar a normalização dos mercados".

 

Por último, a solidez do sistema bancário brasileiro foi listada como a terceira pilastra do sucesso. O elogio em boca própria é sempre suspeito. Ainda mais quando se escora em argumentos que já saem atropelados da boca de quem fala. Exemplo? O banqueiro se atropela ao dizer que "aqui, os bancos não receberam dinheiro público" e, ao mesmo tempo, elogiar a "agressiva redução dos compulsórios". Das duas, uma. A menos que se considere o cofre do Banco Central uma mera extensão dos domínios privados. Pode ser até a opinião do representante dos banqueiros, afinal o uso do cachimbo faz a boca torta. De qualquer forma, um absurdo.

 

O fato concreto, sobre o qual não paira controvérsia, é o seguinte: uma quantia bestial de dinheiro, a bagatela de R$ 100 bilhões, saiu do erário público em frações de segundo para irrigar os negócios da casta financeira. Dinheiro usado, inclusive, para acelerar o processo de concentração do capital bancário. Em entrevista recente, o presidente do BC, Henrique Meirelles, declarou com todas as letras que, sem tal providência, até a tão propalada solidez do sistema bancário teria ido por água abaixo.

 

Os banqueiros estão felizes e não lhes faltam razões para tal. Ganharam muito no ciclo de expansão e estão ganhando mais ainda na crise. Por outro lado, os bancários e os trabalhadores em geral seguem padecendo no vale de lágrimas. Para quem vive do trabalho e perdeu o emprego, a crise começa quando acaba o derradeiro tostão do último salário. Cartazes comoventes, colados nas paredes de mármore dos templos financeiros por bancários em greve, fazem lembrar Oswald de Andrade. Ao abrir falência com a crise de 1929, o mais radical entre os grandes do nosso modernismo retrucou com versos: "eu empobreço de repente/tu enriqueces por minha causa/ ele azula para o sertão/ nós entramos em concordata...". Percebeu, tardiamente, que a crise tem muitas feições e, depois de lamentar a própria sorte na conjugação do verbo terrível, alertou aos pósteros: o verbo "crackar" é irregular.

 

Léo Lince é sociólogo.

 

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