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Luta armada – Rumo ao Campo Imprimir E-mail
Escrito por Wladimir Pomar   
Segunda, 28 de Setembro de 2009
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Foi no processo de implantação em regiões rurais favoráveis que, pela segunda vez, fui assaltado por dúvidas. Em 1965, instalamo-nos como pequenos proprietários, criadores de porcos, na região do rio Crixás, afluente do rio Araguaia, no centro de Goiás. Seguindo as regras, relacionamo-nos com as massas locais, apenas no sentido de ter cobertura econômica e social, e conquistar amigos.

 

O problema é que constatamos que os camponeses locais, muitos deles posseiros oriundos de Minas, desconheciam que o Brasil estava sob uma ditadura militar. Esta não lhes fazia mossa. Além disso, aquela não era uma região muito disputada por grileiros, permitindo que vivessem, pelo menos naquela ocasião, numa espécie de idiotia sobre os próprios problemas. Alguns, mais antigos na região, sequer sabiam que Vargas havia morrido.

 

Comecei a duvidar que aquelas massas se dispusessem a nos acompanhar na luta armada. Outros membros do grupo-tarefa, mesmo sem haverem trocado idéias a respeito, pareceram haver chegado a conclusão idêntica. Simplesmente pediram para sair da missão quando recebemos ordens para nos retirarmos para a região de Colinas, bem mais ao norte (hoje Tocantins).

 

A essa altura, as divergências internas sobre a preparação da luta armada haviam elevado seu tom, em virtude das discussões para a conferência nacional de 1966. No debate preparatório, na comissão executiva e no comitê central, ocorreu um parto difícil na aceitação de uma tática política ampla contra a ditadura, que incorporasse os mais diversos setores democráticos.

 

Tanto ali, quando depois, no curso da própria conferência, foram muito fortes as vozes dos que se opunham a uma tática desse tipo. Os responsáveis pela quinta tarefa aceitaram as propostas de uma Assembléia Nacional Constituinte e de outros itens de tática política ampla apenas formalmente. Expressaram a certeza de que tais adereços reformistas seriam superados pela prática da luta armada. Mas um setor do partido, que não tinha a mesma flexibilidade, saiu da conferência decidido a romper formalmente, fundar a Ala Vermelha, e lançar-se imediatamente em atos armados.

 

Quanto a mim, ainda não estava convencido de que a prática de preparar a luta armada sem um trabalho prévio de construção política era incorreta. Apesar do choque de realidade da Bahia e de Goiás, continuava propenso a achar que haviam sido casos isolados, e que o conjunto das massas estaria maduro para nos seguir. Foi com esse espírito que continuei alinhado aos responsáveis da quinta tarefa e, após a conferência nacional, me desloquei com outros companheiros para Colinas, na condição de posseiros, e fui encarregado de orientar a colocação de vários outros militantes na região do Bico do Papagaio, sul do Maranhão e sul do Pará.

 

Mas nada como a prática da vida. A região de Colinas, diferentemente de Crixás, era permanentemente tensa pela ação de grileiros contra os posseiros. Nossa posse também passou a ser pressionada, obrigando-nos a mostrar os dentes e a participar de choques armados contra jagunços. Apesar dos esforços feitos para manter certa neutralidade, as circunstâncias nos colocaram na linha de fogo, e não tivemos como escapar dos confrontos.

 

O primeiro choque teve início com uma espontaneidade assombrosa. A notícia de que jagunços estavam pressionando uma das famílias para abandonar as terras chegou ao vizinho. Este dividiu seus familiares para avisar outros vizinhos, e assim por diante, num processo multiplicativo que, em poucas horas, reuniu mais de duzentos homens num dos sítios. Armados com papos-amarelos, espingardas, garruchas e revólveres, dirigiram-se numa massa, ora compacta, ora dispersa, para a posse ameaçada.

 

O confronto de então foi apenas de fogos de artifício. Os jagunços, pouco mais de dez, após darem alguns tiros, bateram em retirada, gritando alto que voltariam. Nos seis meses seguintes, participamos ombro a ombro com um grande número de posseiros na vigilância das principais veredas, nos tiroteios de autodefesa, nas negociações com representantes dos governos municipal e estadual e com a polícia militar, mas evitamos qualquer tentativa de orientar o movimento e fazer sugestões.

 

O que me impressionou foi que, apesar do transe da luta, em nenhum momento surgiu uma proposta para organizar uma associação, ou algo parecido. Ou alguma apreciação negativa sobre a relação dos governos com o que estava ocorrendo. Passado o perigo da ação dos grileiros, através dos jagunços, todos voltaram à vida normal. Aquela experiência de luta, às vezes, era comentada no mesmo patamar das pragas que assolavam as lavouras, nada mais. Este novo choque de realidade foi decisivo para modificar meus pontos de vista.

 

Wladimir Pomar é analista político e escritor.

 

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