Luta armada – Rumo ao Campo

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Foi no processo de implantação em regiões rurais favoráveis que, pela segunda vez, fui assaltado por dúvidas. Em 1965, instalamo-nos como pequenos proprietários, criadores de porcos, na região do rio Crixás, afluente do rio Araguaia, no centro de Goiás. Seguindo as regras, relacionamo-nos com as massas locais, apenas no sentido de ter cobertura econômica e social, e conquistar amigos.

 

O problema é que constatamos que os camponeses locais, muitos deles posseiros oriundos de Minas, desconheciam que o Brasil estava sob uma ditadura militar. Esta não lhes fazia mossa. Além disso, aquela não era uma região muito disputada por grileiros, permitindo que vivessem, pelo menos naquela ocasião, numa espécie de idiotia sobre os próprios problemas. Alguns, mais antigos na região, sequer sabiam que Vargas havia morrido.

 

Comecei a duvidar que aquelas massas se dispusessem a nos acompanhar na luta armada. Outros membros do grupo-tarefa, mesmo sem haverem trocado idéias a respeito, pareceram haver chegado a conclusão idêntica. Simplesmente pediram para sair da missão quando recebemos ordens para nos retirarmos para a região de Colinas, bem mais ao norte (hoje Tocantins).

 

A essa altura, as divergências internas sobre a preparação da luta armada haviam elevado seu tom, em virtude das discussões para a conferência nacional de 1966. No debate preparatório, na comissão executiva e no comitê central, ocorreu um parto difícil na aceitação de uma tática política ampla contra a ditadura, que incorporasse os mais diversos setores democráticos.

 

Tanto ali, quando depois, no curso da própria conferência, foram muito fortes as vozes dos que se opunham a uma tática desse tipo. Os responsáveis pela quinta tarefa aceitaram as propostas de uma Assembléia Nacional Constituinte e de outros itens de tática política ampla apenas formalmente. Expressaram a certeza de que tais adereços reformistas seriam superados pela prática da luta armada. Mas um setor do partido, que não tinha a mesma flexibilidade, saiu da conferência decidido a romper formalmente, fundar a Ala Vermelha, e lançar-se imediatamente em atos armados.

 

Quanto a mim, ainda não estava convencido de que a prática de preparar a luta armada sem um trabalho prévio de construção política era incorreta. Apesar do choque de realidade da Bahia e de Goiás, continuava propenso a achar que haviam sido casos isolados, e que o conjunto das massas estaria maduro para nos seguir. Foi com esse espírito que continuei alinhado aos responsáveis da quinta tarefa e, após a conferência nacional, me desloquei com outros companheiros para Colinas, na condição de posseiros, e fui encarregado de orientar a colocação de vários outros militantes na região do Bico do Papagaio, sul do Maranhão e sul do Pará.

 

Mas nada como a prática da vida. A região de Colinas, diferentemente de Crixás, era permanentemente tensa pela ação de grileiros contra os posseiros. Nossa posse também passou a ser pressionada, obrigando-nos a mostrar os dentes e a participar de choques armados contra jagunços. Apesar dos esforços feitos para manter certa neutralidade, as circunstâncias nos colocaram na linha de fogo, e não tivemos como escapar dos confrontos.

 

O primeiro choque teve início com uma espontaneidade assombrosa. A notícia de que jagunços estavam pressionando uma das famílias para abandonar as terras chegou ao vizinho. Este dividiu seus familiares para avisar outros vizinhos, e assim por diante, num processo multiplicativo que, em poucas horas, reuniu mais de duzentos homens num dos sítios. Armados com papos-amarelos, espingardas, garruchas e revólveres, dirigiram-se numa massa, ora compacta, ora dispersa, para a posse ameaçada.

 

O confronto de então foi apenas de fogos de artifício. Os jagunços, pouco mais de dez, após darem alguns tiros, bateram em retirada, gritando alto que voltariam. Nos seis meses seguintes, participamos ombro a ombro com um grande número de posseiros na vigilância das principais veredas, nos tiroteios de autodefesa, nas negociações com representantes dos governos municipal e estadual e com a polícia militar, mas evitamos qualquer tentativa de orientar o movimento e fazer sugestões.

 

O que me impressionou foi que, apesar do transe da luta, em nenhum momento surgiu uma proposta para organizar uma associação, ou algo parecido. Ou alguma apreciação negativa sobre a relação dos governos com o que estava ocorrendo. Passado o perigo da ação dos grileiros, através dos jagunços, todos voltaram à vida normal. Aquela experiência de luta, às vezes, era comentada no mesmo patamar das pragas que assolavam as lavouras, nada mais. Este novo choque de realidade foi decisivo para modificar meus pontos de vista.

 

Wladimir Pomar é analista político e escritor.

 

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Comentários   

0 #2 Inventário de IdéiasRaymundo Araujo Filho 30-09-2009 07:24
O que Wladimir Pomar tem feito nesta série de artigos sobre os anos 60, nos remete a muitos desdobramentos de suas excelentes análises, baseadas em sua experiêncioa pessoal, com um coletivo audacioso na época.

A primeira reflexão é que, ainda mais agora com a disseminação da capacidade de comunicação, só acontecerá alguma mudança de curso verdadeira e lastreada, se a maior parte da população, O Povo, estiver envolvida OBJETIVAMENTE com as necessidades de mudanças, a partir da percepção que as coisas vão mal.

A segunda é que, aqueles que se consideram vanguardas e operadores profissionais da Política Popular podem tirar seus cavalinhos da chuva, e perceberem que sem a completa e expontânea convivência popular, com segmentos da população que não são exatamente os privilegiados ou que estão na periferia destes, é que se poderá criar situações de verdadeira possibilidade de trocas entre setores da sociedade com diferentes origens, mas irmanados pela solidariedade necessária entre a spessoas, não natural, exatamente, mas culturalmente construída, como opção à barbarie, esta sim intempestiva e sem reflexões.

E esta inserção de, por exemplo, um professor, um veterinário, um engenheiro, ou sejam lá quais forem os setores originados não nas periferias, mas no âmago dos 10% mais ricos (os que ganham acima de R$4400 por mês etaxados ainda em 27,5% do imposto de renda), e que possuem capacitação para transferirem instrumentos para os excluídos poderem vislumbrar e operar as tais transformações, e moderar a produção científica e de bens de consumo para as suas necessidades, e não para os donos do capital, não poderá ser feita de forma utilitarista, mas sim, a partir da necessidade afetiva de convivência com nossos pares sociais, mas excluídos de nossa sociedade, a qual, mal e mal, estamos incluídos e com muitos (não todos) acessos conquistados.

Ou seja, podemos ter todas as minhocas que temos direito de ter, em nossas cabeças. Mas, querer operar o que pensamos com o Povo Excluído ou Explorado em larga escala, não pode ser feito de forma utilitarista deste mesmo Povo, tal e qual fazem os Capitães de Indústria e os donos do Capital, com seus operários.

O vanguardiosmo utilitarista não pode se achar um Narciso, pois não passa de um Retrato de Dorian Gray.

E gera apenas reações de recuo das espectativas ideológicas por muito que facilemente trocam a necessidade de profundas mudanças, pelo beneplácito do exercício do Poder, pelo Povo, mas PARA o benefício outros que não estavam nos programa.
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0 #1 Pergentino Mendes de Almeida 29-09-2009 09:38
Seu artigo é muito esclarecedor. Pena é que tantas vidas foram sacrificadas nesse aprendizado. Mas valeu. Vamos ouvir os que têm algo a dizer e usar as lições que podemos aprender. Parabéns.
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