Estados Unidos: o olhar distante da fronteira próxima

 

Fixada nos últimos anos no continente asiático, a política externa norte-americana tem demonstrado atenção insuficiente para temas fronteiriços, advindos em larga escala do México. Conquanto a própria Agência Central de Espionagem (CIA) tenha alertado para o descaso governamental, pouco se tem feito na prática para tal remediar-se.

 

Excetuados os dois países com os quais os Estados Unidos estão em guerra, a CIA indica Irã, Paquistão e México como as três grandes ameaças à segurança nacional. De modo sintético, cada um deles teria um aspecto específico bem preocupante.

 

O primeiro estaria conectado com a possibilidade futura de emprego militar de seu programa nuclear; o segundo, aliado dos Estados Unidos, com a disseminação do terrorismo fundamentalista dentro de seu próprio território; o último com a expansão acelerada do narcotráfico.

 

A disputa entre os cartéis da droga em solo mexicano teria provocado a morte de mais de cinco mil pessoas em 2008, entre criminosos, policiais, militares, servidores do judiciário e jornalistas. A insatisfação da população é tão visível que o Partido Revolucionário Institucional (PRI) conseguiu tornar-se a agremiação prevalecente no Congresso em 2009, diferentemente do pleito de 2006.

 

Ao menos uma das causas da crise sócio-política do país deriva de sua política externa passada: a participação, a datar de 1994, no Acordo Norte-Americano de Livre-Comércio (Nafta) com os Estados Unidos e com o Canadá foi institucionalizada sob a perspectiva de geração significativa de empregos, com a melhora salarial, em vista da transferência de fábricas estadunidenses.

 

Seria a união da tecnologia de ponta norte-americana com a mão-de-obra mexicana qualificada e barata para opor-se comercialmente aos países asiáticos. Como conseqüência também, haveria a redução da imigração ilegal para o território norte-americano.

 

Esperar-se-ia que o Canadá pudesse ampliar a sua exportação no bloco constituído. Assim, seria o espraiamento dos benefícios do neoliberalismo para todo o continente. Ademais, a união dos três ofereceria um contraponto à dos europeus, ao possibilitar um mercado consumidor maior e mais integrado.

 

Década e meia após a entrada em vigor do NAFTA, não há mais nem a perspectiva de aumento da oferta de vagas no trabalho, nem da melhoria da renda. Muitas fábricas, chamadas de maquiadoras, foram transferidas para a China nos últimos anos, onde o custo do trabalho é mais baixo ainda.

 

Por conseguinte, o deslocamento de cidadãos mexicanos para os Estados Unidos e Canadá não cessa, apesar da repressão crescente a ele.

 

Uma outra conseqüência da integração trilateral foi a absorção do sistema bancário mexicano pelo norte-americano – estima-se que em torno de 90%. O Banamex – equivalente ao antigo Banco do Brasil – foi incorporado pelo Citigroup, por exemplo.

 

Outrossim, a pequena e a média agricultura sofreram, por não terem as condições adequadas para competir com os estadunidenses, providos de robustos subsídios.

 

As privatizações proporcionaram a consolidação de grandes fortunas, como no caso da telefonia. O principal acionista do setor é considerado um dos cinco homens mais ricos do planeta. Isto em um país cuja metade da população sobrevive com cerca de três dólares por dia.

 

A crise econômica de 2008 piorou naturalmente o problema para o outro lado do Rio Grande. As remessas dos amero-mexicanos diminuíram. Muitos deles engrossam a fila de desempregados e sem perspectiva retornam ao país. O reflexo se observa no lado mexicano com a diminuição do turismo, afetado pela violência oriunda do crime organizado. Pouco antes, a redução dos preços do petróleo já atingia a economia.

 

Com o Estado desagregado ainda mais, as atividades ilícitas florescem, tendo por destaque o narcotráfico, anteriormente baseado no comércio de cânhamo. Na década de 90, na esteira da liberalização, chegou-se ao ponto de se acusarem familiares do presidente Carlos Salinas de Gortari – um dos mais renhidos neoliberais do México – de envolvimento com o tráfico. Naquela altura, os grupos mexicanos já se sobrepunham no comércio ilegal da cocaína aos cartéis colombianos.

 

Em 2006, o presidente Felipe Calderón, sob influência política dos Estados Unidos, aceitou a Iniciativa Mérida, programa que destina ao país quase meio bilhão de dólares anualmente na forma de equipamentos e de treinamento para policiais e militares. O resultado é a incorporação progressiva das forças armadas no combate ao tráfico, ou seja, a ‘colombianização’ da questão.

 

Um paradoxo é o abastecimento bélico dos grupos criminosos: em sua maioria, o armamento provém de fabricantes americanos. Várias das armas são adquiridas legalmente em solo estadunidense, normalmente de algum negociante – às vezes, colecionador – ou loja. Ao todo, seriam mais de seis mil autorizações para comerciar apenas nos quatro estados fronteiriços.

 

É o momento de o governo democrata refletir sobre as conseqüências sociais na primeira década e meia de existência do NAFTA. Direta ou indiretamente, o acordo de livre-comércio afetou negativamente a indústria mexicana, impulsionou a imigração ilegal e fortaleceu os cartéis da droga. Até o momento, a resposta norte-americana tem sido a de murar a sua fronteira.

 

Com mais de dez mortes por dia associadas pela polícia ao narcotráfico, os Estados Unidos passaram a considerar o poderio dos cartéis como uma ameaça à sua segurança. Diante da manifestação do titular da Procuradoria Geral, Eric Holder, o presidente Obama colocou à disposição do México os recursos das forças armadas concernentes à vigilância e reconhecimento.

 

De toda forma, em depoimento ao Congresso, Roger Rufe, diretor de operações do Departamento de Segurança Interna, afirmou que o órgão tem condições de atuar na fronteira, com o fito de reforçar a sua integridade.

 

Embora não se conceda muito destaque a isto, há desde 2006 a militarização da fronteira, apenas do lado mexicano, com realização cotidiana de blitz ou interrogatórios. Desde então, multiplicam-se as denúncias de desrespeito aos direitos humanos em cidades que outrora aguardaram prosperar com a transferência de fábricas norte-americanas para lá por causa do NAFTA.

 

Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

 

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