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As energias do futuro e os futuros do Pré-Sal: Energia renovável (I) Imprimir E-mail
Escrito por Pergentino Mendes de Almeida   
Quarta, 23 de Setembro de 2009
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No programa "Painel" da Globo News, de 12 a 13 de setembro, William Waack sabatinou três abalizados entrevistados sobre o anúncio, pelo presidente Lula, da certeza que representa o Pré-Sal para o desenvolvimento brasileiro a longo prazo. Sintonizei o canal no meio do programa e, infelizmente, não anotei o nome dos três, mas reconheci facilmente entre eles o prof. Delfim Neto.

 

De modo geral, o clima era de um certo ceticismo diante do entusiasmo de Lula pelo Pré-Sal. Levantaram-se dúvidas sobre o volume de investimentos necessários e sobre a viabilidade econômica do empreendimento. E os resultados, quando chegarem, se chegarem, poderão vir tardiamente. A era do petróleo pode estar no fim. Os participantes lembraram de uma frase de alguém de quem não lembravam: "a Idade da Pedra não acabou por falta de pedras".

 

Riscos para o Pré-Sal

 

O perigo é evidente: se isso é verdade, o Pré-Sal poderá apenas começar a produzir em grande escala quando o petróleo estiver entrando em desuso. E ainda corre o risco de se inviabilizar se o preço do petróleo estabilizar-se abaixo de um certo nível. Como resumiu um dos debatedores, "o futuro é das energias renováveis". E eu, automaticamente, pensei que ele se referia à produção de etanol e à vantagem que o Brasil acredita ter na produção de álcool a partir da cana-de-açúcar. Mas o tempo do programa não permitiu o esclarecimento desse ponto.

 

O prof. Delfim Neto arrematou: o futuro da energia mais uma vez será aquele que os americanos se interessarem em desenvolver. Só o conheceremos quando eles estiverem prontos pra levantar a cortina. Provavelmente, o prof. Delfim Neto não queria polemizar com os demais entrevistados, que pareciam aceitar que o futuro é da energia renovável.

 

Mas não é certo que os americanos ocultem o que estão aprontando por trás de uma cortina. Energia renovável, para nós, quer dizer etanol e cana-de-açúcar. Para os americanos é o que eles chamam de aproveitamento da biomassa. E o que está sendo feito a respeito?

 

A busca de alternativas nos Estados Unidos

 

Primeiramente, notamos que os americanos têm capacidade para a produção de álcool de milho, de soja e mesmo de cana, se quiserem, mas não se mostram muito entusiastas com essa alternativa. As medidas protecionistas do governo americano a favor do etanol de milho seriam pouco mais do que um clientelismo político pontual. A produção de álcool de milho para adição à gasolina, que eles chamam de "gasohol", é extremamente limitada, para atender ao mercado interno deles, se uma política consistente de uso de etanol for adotada. O que eles produzem para o acréscimo de apenas 10% à gasolina já está praticamente no limite de sua capacidade produtiva de álcool a partir do milho. O impacto sobre os preços do milho, das carnes, de alimentos e das commodities em geral será tremendo se eles insistirem em seguir esse caminho.

 

Existem pelo menos duas razões para o desinteresse relativo dos Estados Unidos pelo etanol e metanol. Primeira: quando se considera o custo do álcool, além do custo de produção, mais os custos da terra, da plantação e da colheita, o combustível parece menos neutro com relação ao meio ambiente do que se apregoa. Alguns questionam a sua economicidade e há quem, somando os custos de plantio e amortizações, afirme que eles superam o nível de preço em que o álcool poderia ser viabilizado. Ademais, o etanol e o metanol se propõem como solução enquanto combustíveis automotivos, mas essa é apenas parte do problema da energia.

 

Uma segunda razão não expressa é que a tecnologia de produção do álcool combustível (no caso deles, primariamente a partir do milho) é uma tecnologia rudimentar, na qual os Estados Unidos não teriam qualquer vantagem competitiva. Um artigo de George W. Huber e Bruce E. Dale, no número de julho de 2009 do Scientific American (edição americana), sob o título "Grassoline at the Pump", dá uma idéia geral da tecnologia de aproveitamento da biomassa para produção de combustíveis e esclarece esses pontos.

 

O potencial energético da biomassa

 

Aproveitamento da biomassa é aproveitamento de celulose. Biomassa pode ser qualquer coisa de origem vegetal, em qualquer estado: árvore, casca ou folha seca, palha, algas, restos de móveis, ervas daninhas, mato, grama, serragem, aparas, bagaços ou lixo.

 

O consumo mundial de petróleo, hoje, é de 30 bilhões de barris por ano. O potencial energético de biomassa é superior a isso, podendo chegar ao equivalente a 160 bilhões de barris de petróleo por ano. E da celulose podem-se produzir álcool, petróleo cru, gasolina, diesel e até querosene para jatos.

 

Existem três tipos de processamento da celulose para a produção de energia: o método de baixas temperaturas (50 a 200 graus), de altas temperaturas (300 a 600 graus) e de altíssimas temperaturas (acima de 700 graus).

 

Baixas temperaturas

 

A produção de combustível em baixas temperaturas decompõe a celulose em açúcares, que são convertidos em álcool. É o método que adotamos no Brasil, com a cana-de-açúcar, e o que os americanos fazem com o milho. As maiores críticas ao processo parecem levar em conta as desvantagens do uso do milho para a produção de energia, enquanto que a cana-de-açúcar é reconhecidamente mais eficiente do que o milho.

 

Em ambos os casos, esse modo de produção de energia tem a desvantagem de limitar-se à produção de etanol e de ser uma tecnologia considerada inferior. A alegada dianteira brasileira é uma ilusão. Primeiro, porque levaria poucos meses, no máximo, para os Estados Unidos aprimorarem tudo o que conhecemos a respeito, se eles quiserem. Segundo, porque, afinal, nós financiamos uma indústria automobilística a adaptar-se ao etanol e uma indústria de produção de álcool para atender a esse mercado – cujos "segredos" e "know-how" pertencem a empresas "brasileiras" como Ford, GM, Chrysler, Mercedes etc.

 

Ademais, não interessa a eles promover uma substituição mais acelerada do petróleo por etanol também por razões políticas. Poderiam estar trocando a dependência do petróleo árabe pelo etanol brasileiro. Por essas razões o governo americano só se preocupa com o etanol brasileiro quando os seus plantadores de milho pressionam seus representantes no parlamento.

 

No entanto, pesquisas são realizadas ainda neste campo dentro das universidades e entes de pesquisa americanos. Um dos autores do artigo citado no Scientific American (Dale) está tentando desenvolver um processo de produção chamado AFEX, que processa a celulose em temperaturas baixas (em torno de 100 graus) e amoníaco. O potencial de produção de etanol do AFEX, se combinado com um processo de fermentação chamado de bioprocessamento consolidado, poderia produzir etanol a um custo extremamente mais baixo do que o da gasolina.

 

Se o AFEX vier a ser viabilizado, desde o ponto de vista comercial, será o fim do nosso etanol e de todo o ciclo produtivo montado sobre o agronegócio do açúcar e do álcool. Mas isso ainda é uma hipótese em teste de laboratório.

 

Altas temperaturas

 

A produção de combustível em altas temperaturas produz o chamado biocru, ou biopetróleo, que pode ser refinado para resultar em etanol, gasolina ou diesel. Em inglês, esse combustível é chamado de "syngas", ou gasolina sintética. O syngas é uma mistura de hidrogênio e carbono, produzido pelo processo chamado "Fischer-Tropsch Synthesis" (FTS). O FTS foi desenvolvido por cientistas alemães na década de 20 do século passado. Nada de novo.

 

Todas as companhias de petróleo dispõem de aperfeiçoamentos desse método prontos para funcionar, caso os preços da gasolina venham a tornar-se inviáveis. O Catar tem uma usina de produção de syngas que produz 34.000 barris diários de combustível líquido, já em funcionamento. Essa substituição pode ser feita instantaneamente pelas grandes empresas de petróleo, se necessário.

 

O maior problema com a produção de syngas é o alto custo de investimento inicial para montar uma usina de produção. Coisa de gente grande, o que automaticamente restringe os concorrentes a umas poucas empresas muito grandes ou a governos que tenham recursos abastados para bancar esse investimento quase que a fundo perdido.

 

Altíssimas temperaturas e o biopetróleo

 

A produção de combustível em altíssimas temperaturas reproduz o processo natural de produção de petróleo: altíssimas temperaturas e pressão, na ausência de oxigênio. Só que aquilo que a natureza levou milhões de anos para completar, a chamada pirólise rápida faz em 10 segundos ou menos.

 

A tecnologia necessária para a produção em grande escala ainda está em aperfeiçoamento, mas a sua viabilidade não é mais discutida. O chamado biopetróleo cru – ou, abreviadamente, o biocru – pode ser refinado como o petróleo, produzindo gasolina, querosene, diesel etc. E mais: uma vez dominada a tecnologia, prevê-se que pequenas unidades de refino tornar-se-ão economicamente viáveis para serem estabelecidas próximas dos locais de produção de biomassa. A Conoco-Philips demonstrou que é possível misturar óleos vegetais e gorduras animais para a produção de mais de 12.000 galões de biocru por dia, numa unidade experimental junto a um matadouro em Borger, no Texas.

 

A Universidade de Massachusetts licenciou uma firma, a Anellotech, para adotar o sistema nela desenvolvido pelo Prof. George Huber para a produção de petróleo sintético a partir de biomassa. A primeira unidade deverá começar uma produção experimental em 2014. Prevê-se que até 2019 a Anellotech estará produzindo comercialmente e competindo no mercado com os mesmos preços dos derivados do petróleo fóssil.

 

A UOP (uma empresa do grupo Honeywell) e a Ensyn (uma empresa fundada em 1984, que detém tecnologia própria de pirólise para óleo combustível) juntaram-se para fundar a Evergent, que se propõe a fornecer os recursos para quem se dispõe a entrar no ramo de combustíveis de pirólise rápida. E existem muitas outras empresas atuando nessa área.

 

A produção de petróleo sintético a partir da biomassa sob altíssimas temperaturas, portanto, já constitui um mercado que se sustenta. Parece promissor. Pode-se discutir quão promissor, mas não se o é.

 

O que podemos dizer a respeito do futuro da energia renovável?

 

O panorama, então, das energias renováveis não parece tão simples quanto muitos de nós pensamos. O etanol de cana ou o metanol americano são apenas duas opções dentro de um leque com vantagens e desvantagens relativas. A vantagem do Brasil nesse campo é discutível. E uma série de alternativas mais elaboradas está pronta para comercialização. Mais do que isso: existem alternativas que já estão montadas dentro das próprias empresas de petróleo. Dados os inconvenientes do petróleo, cada vez mais visto como o vilão do século contra o nosso planeta, por que não saem da prateleira?

 

As alternativas ainda não são convenientes economicamente. O Capitalismo Financeiro, que passou a dominar o pensamento desde a queda da era Kennedy e a implantação da era Reagan/Thatcher, é um sistema extremamente reacionário e avesso às inovações substantivas, apesar de apregoar a criatividade e a inovação como conceitos supremos do nosso presente e do nosso futuro. Criativo ao desenvolver instrumentos financeiros que lhe permitem alavancar as suas aplicações sem qualquer consideração para com a economia produtiva, mostra-se extremamente avesso à renovação de equipamentos e ao investimento produtivo em inovações que podem tornar obsoletos os seus bens de capital.

 

Como Huber e Dale dizem no seu artigo (Huber & Dale, idem):

 

"...As atuais refinarias de petróleo já obtiveram o retorno de seus custos iniciais de capital; as [novas] refinarias de ‘grassoline’ vão exigir investimentos de centenas de milhões de dólares, um custo que terá de ser integrado ao preço do combustível que elas produzirão no decorrer dos anos".

 

Então, se a pressão social ainda não é suficientemente forte para reduzir as vendas, mover governos e inviabilizar a economia do petróleo fóssil, por que haveriam elas de abrir mão dos lucros legítimos que auferem para investir em uma produção mais cara? Por enquanto, não existe necessidade de mexer no que está aí. Os acionistas estão satisfeitos. Antigamente diziam que o consumidor era o rei, mas hoje sabemos que o acionista é que é o rei de verdade.

 

A adoção de modos alternativos de produção de energia não enfrenta maiores problemas técnicos – ou, quando enfrenta, é porque não se investem esforços mais intensos para resolvê-lo. O problema é cultural, social e, acima de tudo, econômico. Aparentemente, as alternativas de energia verde renovável tornam-se viáveis se o petróleo estabilizar seus apreços acima de cerca de US$ 60,00. Coincidência ou não, essa parece ser também a barreira crítica para o nosso Pré-Sal.

 

Não é seguro dizer que os combustíveis renováveis serão a grande solução do futuro. Que deverão crescer em importância, isso parece inevitável. Mas não está claro qual das alternativas deverá predominar, se alguma. E muito menos que o futuro inclui uma predominância do etanol de cana brasileiro. Aliás, hoje nada parece claro.

 

Além de tudo, conforme notícia publicada em O Estado de São Paulo de 16 de setembro de 2009 (pg. A14), ficamos sabendo que uma pesquisa do IBAMA revelou que o álcool automotivo polui tanto quanto ou mais do que a gasolina, dependendo da eficiência do motor. O jornal dava a indicação do site do IBAMA em que as comparações entre marcas e fabricantes estaria disponível. Entretanto, à noite do mesmo dia, o site do IBAMA estava formatado de maneira a desencorajar qualquer comparação e passou a omitir o resultado relativo aos carros a álcool.

 

Razão alegada: como o carbono liberado pelo álcool é reabsorvido pela cana que servirá para a produção de mais álcool, alguém no governo decretou que o motor a álcool produz emissões zero. Isso me parece um sofisma que apenas serve a interesses econômicos escamoteados. Pois essa afirmação, aparentemente, não considera a energia consumida e o carbono liberado no preparo do campo, na plantação, no corte da cana, no transporte, na moagem e no processamento e fermentação do xarope.

 

No dia seguinte, o Estadão publica que um mesmo carro flex emite mais CO2 quando roda com álcool do que quando roda com gasolina. Não sou técnico nisso, mas a coisa aí me parece meio confusa e a vantagem do etanol para o meio ambiente, meio difusa. E, onde há confusão, é porque há alguém confundindo. É aquela história caipira: jabuti não sobe em árvore sozinho...

 

Conclusões prévias

 

De modo geral, portanto, vantagens relativas e perspectivas futuras de gasolina e etanol estão sujeitas a dúvidas. E, seguramente, a uma mesma crítica fundamental: são parte do ciclo do carbono, que teve início com o nascimento da civilização. Pois, se o aquecimento global merece consideração séria, o problema não está especificamente nem no petróleo nem no álcool, mas nas emissões de CO2, liberado na combustão. E todas as tentativas de criação de novos processos de geração de energia renovável são esforços para salvar o vilão: o carbono.

 

E a maior loucura, a meu ver, está na proposta das nações industrializadas, avidamente endossada pelo nosso governo: o de venda de certificados de carbono. Trata-se de um delírio coletivo em que uma cumplicidade esfarrapada entre pobres e ricos pretende prolongar ao máximo a liberdade dos grandes emissores de carbono de continuarem emitindo e poluindo e destruindo o planeta. A lógica é simples: se todos nós ganharmos uns trocados, que se dane o mundo.

 

Assim vistas as coisas, então a situação parece ainda mais complicada. E é. Mas quais as alternativas e o que existe além do carbono?

 

É o que pretendemos abordar na segunda parte deste artigo.

Pergentino Mendes de Almeida é diretor da AnEx – Analytical Expertise & Scenarios.

 

E-mail: pma(0)anexfuturos.com.br

 

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Última atualização em Qui, 24 de Setembro de 2009
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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