O campo no Brasil atual

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Marx partia do princípio de que, para compreendermos as sociedades, seria necessário entendermos como esta sociedade produz e reproduz os seus meios de existência. Ou seja, seria necessário compreendermos o trabalho humano como um princípio fundante de situações sociais diversas. Partindo deste princípio, a esquerda brasileira, até os anos 80, analisa o mundo do campo e o da cidade através da categoria trabalho e, deste modo, quem trabalhava em atividades agrícolas era um sujeito do campo.

 

O trabalho rural era dividido em diversas categorias, como o de pequeno produtor, o assalariado, o posseiro, o sem terra, o bóia-fria etc. Claro que, existindo sujeitos que produziam no campo, existiriam outras categorias, como professores, pequenos comerciantes etc. A luta pela reforma agrária englobava a luta de todos estes trabalhadores visando à construção de uma sociedade que num primeiro momento integrasse os trabalhadores ao processo produtivo para, num segundo momento, criar as bases para a ultrapassagem do capitalismo. Pensando nos direitos materiais e culturais, todos teriam o mesmo direito que a modernidade, através do desenvolvimento da ciência e da tecnologia, havia conquistado.

 

A partir dos anos 1990, decorrentes da crise do socialismo, do fim da URSS e da supremacia do pensamento neoliberal, a esquerda brasileira, como de resto a esquerda mundial, desconcerta-se. E, em conseqüência, boa parte desta esquerda irá abrigar-se em análises puramente culturalistas e pós-modernas, desvinculadas dos problemas sociais e econômicos.

 

As análises acerca da problemática rural tomam o mesmo rumo acima descrito. Passa-se a debater o que seria o campo e sua relação com as cidades numa análise puramente cultural.

 

Com isto, os projetos de reforma agrária vão perdendo espaço para debates acerca da influência dos meios de comunicação, do jovem, do velho, da mulher, desvinculados da realidade sócio-econômica. Debate-se o que seria campo ou cidade em termos puramente subjetivos e, assim, começa-se uma discussão estéril se as pequenas cidades seriam parte urbana ou rural do país ou se o campo é relação com a natureza pura e a cidade a natureza transformada. Nesta discussão, o trabalho como instância definidora perde espaço.

 

Porém, esta discussão subjetiva e culturalista começa a mostrar as suas fragilidades, pois não é possível discutir estas questões sem colocar a questão da produção e reprodução da vida em primeiro plano. Desta forma, vejo que devemos retomar conceitos básicos para que, compreendendo as relações sociais de produção hoje, possamos compreender o papel do campo na sociedade brasileira atual.

 

Defendo que o capitalismo brasileiro não mais merece o crédito das reformas. Assim, o trabalho e vida no campo e na cidade devem estar inseridos em um novo Projeto de País em que ambos tenham sua importância como produtores de bens necessários e bens que nos levem ao caminho da liberdade. Devemos superar a produção visando apenas o mercado, criarmos condições reais de produção e trabalho, proporcionando assim as condições de vida, escolarização, saúde, lazer e maior integração com as cidades para os moradores do campo.

 

Devemos atualizar o projeto para o campo, pensando na questão ambiental e na produção para valores necessários à vida humana. Podemos dar ênfase ao cooperativismo, às alternativas regionais de produção e comércio, como a convivência com o semi-árido, à produção coletiva e democraticamente dirigida pelos trabalhadores nas maiores propriedades.

 

Se a população do campo decresce, precisamos compreender este processo dentro de relações capitalistas da sociedade brasileira, e não ficarmos especulando em análises puramente culturalistas. Só assim será possível compreendermos o campo, suas contradições, suas possibilidades, ou não, de ter um papel fundamental no desenvolvimento da sociedade brasileira.

 

Antonio Julio de Menezes Neto é professor na faculdade de Educação da UFMG.

 

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Comentários   

0 #8 Sobre o texto...Inês Cararo 28-09-2009 17:08
Antonio Júlio, você nos ajuda a pensar e discutir sobre a educação no campo. Isso por que ainda não temos políticas que possibilitem a prática da educação no campo em nossos municípios. Acredito que preciamos conquistar este direito.
Inês Cararo (Itaberaba/BA)
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0 #7 Sobre o texto...Paulo Henrique 26-09-2009 20:27
Antonio Júlio, vc acerta mais uma vez quando nos provoca a repensarmos algumasd questões relacionadas ao trabalho e a relação campo-cidade. Um abraço cordial, Paulo Henrique (Fortaleza/CE)
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0 #6 A questão do Campo na perspectiva marxisTania M. Mares 26-09-2009 17:27
Muito bem lembrado, professor!
Existem questões estruturais sobre o ambiente rural que merecem maior espaço de discussão e reflexão.
Uma analise marxista sobre a questão do campo poderá contribuir muito para que os homens e mulheres do campo se percebam enquanto sujeitos da história presente e compreendam o \"jogo\" politico-ideológico que mascara as relações de produção, bem como, as atividades culturais da realidade posta.
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0 #5 a reforma agrária e a necessidade de um EDUARDO CAMILO TERRA 24-09-2009 05:25
Seu texto vai de encontro aos pensamentos que temos feito aqui no tocantins, onde estamos estruturando a ABRA. Necessitamos repensar o questão agrária, do ponto de vista produtivo, fundiário e cultural. O campo não pode ser apenas o fornecedor de execedentes de mão-de-obra para as cidades no eterno fluxo migratório do exôdo rural.Isso não é cultural: é a unica saída àqueles que perdem sua terras por obra do latifúndio e são escravizados pelo agronegócios.
O campo deve ser pensando como espaço de produção, produção não só de alimentos, mas produção de renda, de conhecimento e de qualidade de vida.
A reforma agrária (RA) nesse contexto se apresenta como espaço privilegiado de se iniciar esta mudança pela presença do estado em todas as etapas, desde a criação do assentamento até a comercialização da produção. Porém hoje e sempre o INCRA só se preocupa com os números da RA (assentados, créditos pagos, casas construídas)e ignora a oportunidade histórica de construir uma nova realidade no campo. Os assentamentos seguem a lógica do individual, das pequenas propriedades, onde o trabalhador no máximo consegue sobreviver. Num país miserável como o nosso, muitas vezes essa sobrevivência se apresenta como melhoria às condições de vida anterirores, porém NÃO LIBERTA, NÃO FORMA, NÃO CONDUZ a um novo projeto de desenvolvimento.
Necessitamos pensar a RA como elemento indutor de um novo campo que produza alimentos sem venenos e em grande quantidade, que liberte o produtor dos grilhões do atravessador, que produza renda para as famílias e que estas possam no campo ter qualidade de vida. Uma RA que pense coletivamente, que trabalhe não a convivência com o agronegócio e sua concorrência desleal mas que seja o contraponto desse sistema atual, que trabalhe para o fim dos latifúndios e da concentração das terras nas mãos de poucos.
Só assim poderemos ter uma sociedade que se desenvolva sem oprimir, sem destruir o ambiente e sem necessidade se uma periferia miserável e dependente.
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0 #4 Arlete Ramos Pereira 23-09-2009 17:53
Professor, acredito também que pensar em reformas na conjuntura atual não resolverá os problemas pelos quais passam os povos do campo. Vejo que precisa-se pensar em alternativas de uma vida sustentável, com trabalho, dignidade, lazer, educação, de forma que os camponeses se sintam valorizados.
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0 #3 Jovens camponeses/as é preocupante !Decanor Nunes dos Santos 23-09-2009 07:57
Sua matéria camarada e companheiro Antônio Júlio me faz reafirmar uma grande preocupação com nossos jovens camponeses especialmente . Na minha pesquisa monográfica no distrito do São Pedro de Jequitinhonha, até agora, em que os jovens pesquisado tem manifestando dizendo assim : "meu futuro depois de fazer o 2º grau é ir embora para Belo Horizonte ou São Paulo. Aqui não tem trabalho". Pois bem minha gente, entrevistei 30 jovens do ensino médio de uma escola rural e desses, os 30 nenhum falou de ficar no campo. Eu pergunto camarada Antônio Júlio : Será que no futuro o campo será de fato um lugar para o território do agronegócio e alguns seres humanos velhos e aposentados resistindo no campo ? Me parece que é urgente uma revolução na educação e nas políticas públicas no campo ,pois, vejo esse território camponês loucamente pedindo socorro,e este é um olhar a partir do nosso território do Semiárido mineiro.

Boa matéria, essa campo é campo de debates e preocupações !

Decanor Nunes é estudante da Licenciatura em Educação do Campo- Pedagogia da Terra - FaE/UFMG e militante da Cáritas no Baixo Vale do Jequitinhonha já com 25 anos de vivência com os povos do campo nesse Semiárido.
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0 #2 muito bomMarcos 23-09-2009 05:29
Professor Muito bom o texto...
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0 #1 COMO ISSO AFETA AS POLÍTICAS DE EDUCAÇÃOADILENE GONÇALVES QUARESMA 23-09-2009 05:08
Caro professor, a sua análise está correta e o equívoco de uma análise subjetiva e culturalista sobre esta questão, traz consequências para a discussão sobre a educação do campo, ou seja, ao não considerar as causas dos problemas sociais e econômicos do campo e da cidade como ponto de partida, cria dicotomia entre campo e cidade no que tange à educação do trabalhador que está no campo e na cidade e enfrentando os mesmos problemas causados pelo capitalismo.Dessa forma, as políticas e dicussões sobre educação no campo ficam sem uma referência a um projeto de mudança e de construção de uma alternativa ao capitalismo, tomando o caminho da reforma ou da inserção da educação do campo na mesma agenda educacional neoliberal, com raras propostas contrárias,implantadas pelos governos estaduais e federal.
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