Governo Serra: a agenda da paulada

 

No momento em que escrevemos estas linhas, os estudantes da USP mantêm a ocupação da reitoria, sob a ameaça de uma intervenção militar, e a greve se amplia nas universidades paulistas com a adesão dos docentes da Unicamp e Unesp.

 

Tal situação é uma expressão fortíssima das tensões dos trabalhadores do setor público estadual com a forma truculenta que o governo Serra inicia seu mandato à frente do governo do estado.

 

Em seis meses, esse governo baixou três decretos que vão na direção de avançar na precarização da educação pública, arrebentar a autonomia universitária e abrir as portas para sua privatização.

 

Além disso, bateu de frente com os metroviários, demitindo cinco trabalhadores dessa categoria e querendo quebrar o direito de organização e de greve nos transportes de São Paulo.

 

Em relação à educação de ensino médio e fundamental, o governo trata de hostilizar os professores da rede pública com uma proposta de reforma previdenciária e a manutenção de um arrocho salarial; aliás, as mesmas condições que estão levando a propostas de paralisação nas próprias forças policiais civil e militar.

 

Acham que acabou? Não, tem ainda o total desprezo com a campanha salarial dos trabalhadores da saúde estadual, também com greve marcada, já que sequer obtêm alguma resposta à sua pauta de reivindicações.

 

Uma verdadeira agenda de pauladas, que tem como objetivo a imposição de um ajuste fiscal ainda mais rigoroso em São Paulo e um avanço no processo de privatização nos serviços públicos. O ódio em particular dos governos estaduais tucanos contra os metroviários não se explica sem ter em conta o lugar da resistência dos metroviários à privatização das novas linhas do Metrô.

 

Tal agenda de corte neoliberal não é uma novidade vinda de um governo do PSDB, embora não deixe de ser surpreendente a virulência e amplitude dos ataques em tão pouco tempo de governo e de um governador que fez um esforço de imagem para tentar mostrar à população que sua gestão seria mais light em relação ao Opus Dei Alckmin.

 

Mas contribui muito para essa situação - sem dúvida alguma da nossa parte - o ambiente geral político do país, ou seja, o fato de o governo Lula e sua base de apoio serem os proponentes principais (há cinco anos) desta mesma agenda.

 

Um parênteses: vale destacar que a unidade da agenda do bloco governista federal com os tucanos está se estendendo magnificamente para o terreno da corrupção, onde a Operação Navalha chegou em governadores e políticos do PSDB, PT, PMDB, PDT, PSB; que amplitude...

 

Porém, o que mais nos interessa concluir é que, embora sob uma situação geral muito difícil e de ataques cerrados, do ponto de vista dos trabalhadores e dos seus movimentos práticos, a jornada do 23 de maio mostrou que estamos no início de um processo de resistência unitária e massiva a estas agendas.

 

Pois são melhores as condições para construir um amplo movimento de solidariedade entre os diversos setores dos trabalhadores do setor público do estado de São Paulo; entre estes e os trabalhadores do setor público no âmbito federal (ameaçados pela reforma previdenciária, o fim do direito de greve, o arrocho salarial); entre os trabalhadores do setor público e do setor privado, pois o próprio Lula em recente discurso à nata dos empresários voltou a oferecer a bandeja da reforma trabalhista; e entre os trabalhadores urbanos e os movimentos populares de luta pela terra, pela moradia, pelo meio ambiente, que estão com suas demandas “arquivadas” pelo governo Lula e pelos governos estaduais tucanos.

 

 

Fernando Silva é jornalista, membro do Diretório Nacional do PSOL e do Conselho Editorial da revista Debate Socialista.

 

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