Como se tornar o que se é

 

A meu pai e a Plínio de Arruda Sampaio

 

Quando Shane (Alan Ladd) se encontra com Joe Starrett (Van Heflin) a empatia não é imediata – quem confiaria num estranho carregando uma arma? Afinal de contas, você tem sua mulher Marion (Jean Arthur), o pequeno Joey (Brandon De Wilde) e uma pequena propriedade (não é muito, mas garante o sustento; e é sua) para proteger dos capangas pagos pelo manda-chuva da região, Rufus Ryker (Emile Meyer). No entanto, como julgar a quem não se conhece?

 

Em Os brutos também amam (Shane, EUA, 1953, dir. George Stevens), há muito para nos fazer pensar sobre as relações entre amizade e violência. Na verdade, há muito para fazer pensar sobre muitas coisas. Primeiro, a amizade:

 

De homem pra homem, quem trança os laços é a ação. Sobretudo, a ação por excelência, que é a guerra, o conflito real, matar ou morrer. [...] O "western" é uma exaltação da amizade entre os homens, do afeto gerado na ação conjunta, na fraternidade do combate, no prazer compartilhado de realizar uma obra "together", no ato de amor sem sexo, filho feito além da carne, amizade, esse amor acima do umbigo (Paulo Leminski, "De homem pra homem").

 

A amizade de Shane e Joe Starrett começa a se fortalecer quando os dois se unem para arrancar um grande e velho tronco de uma árvore cortada do terreno de Starrett. É justamente a ação conjunta que une dois homens tão diferentes. Duas outras cenas explicitam suas diferenças.

 

Shane aparece e educadamente pede permissão para "cortar pela propriedade" de Starrett ("I hope you don't mind my cutting through your place"). Ele está só de passagem – o que o faria ficar por ali?

 

Na ceia, Starrett faz seu discurso sobre as mudanças no Oeste:

 

Esses antiquados, eles não vêem que não dá pra criar gado numa área aberta pra sempre. É muito espaço pra pouco resultado. Essas manadas não prestam, estão que é só chifre e osso. Mas o gado criado pra engorda, cercado e alimentado, isso sim. Você tem que escolher o seu lugar, ter a sua terra, a terra que é sua. O colono só tem cria pra uns poucos bifes. Mas ele também pode plantar e colher o grão. E aí vai fazer tudo certo com o quintal, os porcos e o leite. A gente vai conseguir, não é Marion?

 

De fato, a fala de Joe Starrett ecoa a argumentação de Locke, no Segundo Tratado sobre o Governo Civil:

 

A extensão de terra que um homem lavra, planta, melhora, cultiva, cujos produtos usa, constitui a sua propriedade. Pelo trabalho, por assim dizer, separa-a do comum. [...]Aquele que, em obediência a esta ordem de Deus, dominou, lavrou e semeou parte da terra, acrescentou-lhe por este meio algo que lhe pertencia, a que nenhum outro tinha direito, nem podia, sem causar dano, tirar dele. Nem esta apropriação de qualquer parcela de terra mediante melhoramento importava em dano a qualquer outra pessoa, desde que ainda havia de lado bastante e de boa qualidade, e mais do que os que ainda não possuíam um trecho pudessem usar. (§§ 33-34).

 

Joe Starrett é o colono que com seus nervos e músculos ganha a vida em sua pequena propriedade, sem tirar o direito dos outros fazerem o mesmo. Mas ele ouve de Ryker:

 

Direitos? Você vem me falar de direitos? E as flechadas que tomei dos índios? Eu desbravei esse território e agora vocês colonos chegam e querem cercar tudo?

 

Mas como aceitar que grandes criadores, como Ryker, que deixam o gado solto e deixam a terra ao deus-dará, venham lhe forçar a sair do lugar em que ele emprega todo o seu esforço para ter uma vida melhor?

 

A confirmação de Marian àquela pergunta de Joe vem após uma pausa e um sorriso de Shane a ela – mostrando mais uma barreira entre Shane e Joe Starrett. O observador já sabe: há uma atração muda entre Shane e Marian – em quase todo gesto, quase toda olhadela entre os dois, há um interesse não pronunciado, uma sutil atração proibida –, ela foi a primeira a sugerir que Shane poderia ficar... Perguntado sobre seu lugar, Shane, lacônico e evasivo, responde: "Um lugar ou outro. Algum lugar onde nunca estive". Um som repentino – uma vaca lá fora – faz Shane buscar bruscamente a arma no coldre. Ali definitivamente não é seu lugar...

 

A casa de Joe Starrett é o lugar da revelação do paradoxo: Shane compreende ali que seus dias de pistoleiro solitário estão contados – days are over –, mas é ali também que ele se dá conta de só poder ser o que é. A segunda cena a mostrar o fortalecimento da amizade entre Shane e Joe Starrett é uma briga: Joe não hesita em ajudar Shane contra Ryker e seus capangas. A amizade entre os dois está selada – com violência.

 

Shane sabe de si; é um pistoleiro solitário, não um colono, jamais poderia ficar ali, muito menos poderia levar Marian consigo. Será o conselho dela a Joey uma declaração implícita dirigida a Shane?

 

Não se apegue demais a Shane... Eu não quero que você... Ele vai se mudar um dia, Joey. Você vai se decepcionar se começar a gostar demais dele.

 

Sendo o que é, Shane só tem uma coisa a fazer. Como no passado, ele terá de usar sua arma – sozinho. E o faz, derrotando Wilson (Jack Palance, em atuação memorável, encarnando a maldade pura – até o cão sai quando ele entra...) e Ryker, com a inesperada ajuda do pequeno Joey, que consegue enfim participar decisivamente da ação – adulta e heróica.

 

Shane sabe que o pequeno Joey o admira por motivos errados. Mas é preciso seguir seu caminho sozinho e não dar a Joey um modelo de vida equivocado. Shane simplesmente afirma: "Um homem tem que ser o que ele é" – uma variação de um grande clichê dos westerns: "Um homem tem que ser o que um homem tem que ser". Ferido no duelo de tiros, Shane parte, levemente inclinado sobre a sela, ferido e morrendo (ou já morto?), cavalgando colina acima por entre as lápides em direção aos picos nevados da cordilheira Teton. Ocaso.

 

No espelho do início, o primeiro a vê-lo chegar é também o primeiro a vê-lo partir – o pequeno Joey. Ao abandoná-lo, Shane deixa claro não poder viver aquela vida – there’s no living with a killing. Os colonos, o pequeno Joey, todos os que ficaram para trás, porém, construirão não só uma vida, mas toda uma civilização sobre essa terra manchada com sangue escorrido da amizade. Nietzsche também sabia disso. Scorsese não esquecerá a lição.

 

Cordiais saudações.

 

* * *

 

ACONTECE: nos Cines Olido e Espaço UNIBANCO, a V Cinema Mostra AIDS, até 03/09. Promoção do Grupo pela Vidda/SP. Mais informações: http://www.cinemamostraaids.org.br/

 

Cassiano Terra Rodrigues é professor de filosofia na PUC-SP e doador de sangue, em nome da amizade universal.

Contato: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

 

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Comentários   

0 #7 Shaneafonso 01-05-2010 15:41
Só agora, muito tempo depois e quase por acaso, leio sua crônica sobre o filme de George Stevens.
Muita boa, muito bem construída. Trata do essencial de uma forma única. Considero Shane o maior dos westerns. Seu conteúdo é de uma riqueza impressionante. George Stevens, creio, não deve ter tido a real dimensão da obra magistral que produziu. Paulo Perdigão, outro grande admirador do filme escreveu um livro com detalhes e mais detalhes sobre essa obra e que disseca Shane em todos os seus aspectos. Eu, particularmente, assisti Shane quando tinha apenas 7 anos de idade e fiquei maravilhado. Voltei a assistí-lo inúmeras vezes depois, creio que umas 100 vezes. Tenho livros e revistas sobre ele, fitas VHS e DVDs americanos originais e outros com legendas e dublados. Já o vi de todas as formas. É um filme magistral, difícil de ser igualado. Shane influenciou muito minha vida. A todos os instantes eu me vi (e me vejo) numa situação parecida com situações do filme e lembro até de suas falas. A que considero mais expressiva é quando, no final, o velho Ryker lhe diz; seu tempo já passou pistoleiro. E Shane responde: a diferença é que eu sei disso!
Parabéns mais uma vez pela análise clara, objetiva e pertinente.
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0 #6 Mariana Dalmaso 15-09-2009 13:04
Cassiano, sempre apreciador de ótimos filmes.
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0 #5 pliniosampaio@cidadania.org.br 02-09-2009 12:22
Prezado Cassiano
sua análise é uma joia. Eu não tinha razão de cobrar sua presença nas colunas? Estou de acordo com o Edilson: é o melhor filme de cow boy que já assisti.
Um abraço agradecido. Plinio
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0 #4 otimoeudoxio rosado 02-09-2009 05:58
shane! volta shane... belo texto, revivi as minhas lembranças de menino ouvindo o meu pai contar para mim, e anos depois assisti o filme na tv.
um abraço
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0 #3 Shanes instead ShamesViça 01-09-2009 19:10
Mais uma vez, um texto muito bacana.

O brasil tá precisando que se criem amizades na boa luta.

Parabéns.
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0 #2 Muito bom!Marcos Vinicius 01-09-2009 14:16
Adorei. Já gostava do filme, mas o comentário me fez vê-lo com olhos renovados.
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0 #1 sobre o filme: \" Os brutos também amam\Edilson Montrose Aguiar 01-09-2009 12:25
Assiti este filme por volta do ano 1958/1959 junto com meu pai e minha mãe, no Cine Conquista na cidade de Vitória da Conquista, Ba., e o elegi como o melhor faroeste de todos os tempos, ou seja: o melhor filme de cowboy, como falávamos quando menino. Assiti tantos outros também bons como Vera Cruz, Onde começa o inferno, Rastros de ódio, No tempo das diligências, mas este, \"OS BRUTOS TAMBÉM AMAM \' é imbátivel. Parabéns pela resenha, foi muito bem feita.
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