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Nos caminhos do genocídio e da esperança Imprimir E-mail
Escrito por Egon Heck   
Segunda, 31 de Agosto de 2009
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Cone sul do Mato Grosso do Sul; fronteira com o Paraguai; território tradicional Guarani; visita às comunidades Kaiowá Guarani com a presença de cooperadores internacionais.

 

Primeira estação

 

Iniciamos a viagem por Nhanderu Marangatu. São mais de 900 pessoas espremidas em 124 hectares. Um professor da comunidade assim se expressa: "descrevemos isso porque denunciamos ameaças de morte, espancamento, assassinato, abuso sexual, estupros, mas nunca fomos atendidos pela Funai e pelo Ministério Publico Federal". Nesta comunidade foram assassinados na luta pela terra, Marçal Tupã’i e Dorvalina. Os assassinos não foram punidos.

 

A terra de 9300 hectares está homologada desde 2005. Logo depois, uma ação dos fazendeiros foi liminarmente aceita pelo então presidente do Supremo Tribunal Federal, Nelson Jobim, suspendendo os efeitos. Até hoje a ação não foi julgada. Sob permanente vigilância e ameaças, os indígenas vêem o pouco da mata que ainda existe sendo rapidamente destruída, e eles aí confinados, até muitas vezes sem lenha para fazer fogo e sem ter para onde ir.

Mais de uma centena de crianças estão sem documentos e por isso fora da escola. Dizem que os índios são do Paraguai, quando existe historicamente a terra desses grupos familiares num e outro lado da fronteira. Recentemente delegação da comunidade esteve com o ministro Cezar Peluso, do Supremo Tribunal Federal, relator do processo, solicitando mais uma vez urgência no julgamento do processo. A resposta é de que vai providenciar isso.

 

Segunda estação

 

A comunidade com a marca mais profunda do genocídio e sofrimento na luta pela terra é Kurusu Ambá, no município mais violento do país, Coronel Sapucaia. Ali fomos recebidos pela comunidade mobilizada em ritual de indignação e esperança. O ritual de recepção foi um desses fenômenos raros de se acreditar. Parece impossível um grupo humano submetido a tamanha crueldade ter tanta energia para saudar a vida e acreditar em dias melhores, lutando. Ter a certeza de que a terra de Kurusu Ambá voltará a ser a sua terra sem males.

 

Dos aliados de outros países que os estavam visitando, apenas pediram que falassem ao mundo a verdade sobre o que se passa na comunidade de Kurusu Ambá. As ameaças continuam e a qualquer momento pode ter mais vítimas. Falam emocionados dos três líderes que foram assassinados, dos que foram presos, dos que foram baleados, das crianças que morreram de fome. Um cartaz de papelão de caixa dizia "22 ANO DE PACIENCIA E TRES VITIMA".

 

Ao final das falas foi novamente proferida a palavra do líder assassinado Ortiz: "a luta não vai parar enquanto tiver um Kaiowá Guarani em pé".

 

São aproximadamente 200 pessoas sob as lonas pretas à beira da estrada e fim da paciência.

 

Terceira estação

 

Amabai é uma das primeiras terras Kaiowá Guarani reservadas a eles no início do século passado. A pequena porção de terra foi sendo expropriada pela expansão das fazendas e da cidade ao redor. Hoje são quase 8 mil pessoas em menos de 2 mil hectares. Não fica difícil entender porque é uma das áreas de maior índice de violência na região e no país. Além das graves conseqüências do confinamento, a região é marcada e pressionada pelo narcotráfico, alcoolismo, prostituição, trabalho escravo e outros males sistêmicos.

 

Ali fomos visitar o acampamento do Nisio, do tekoha Guaiviry. Recentemente perderam sua grande mãe e líder religiosa Odulia. Logo antes de morrer disse para registrarem sua fala: "Quero tekoha Guaiviry para os meus filhos ocuparem o tekoha em meu lugar. Depois do Aty Guasu espero que essa terra seja demarcada para meus filhos e comadre... A minha filha fica em meu lugar para não terminar o meu broto. Não quero que a cultura não indígena entre no tekoha Guaiviry. Depois quero que meus filhos me levem para onde está meu irmão" (Odulia Mendes, texto manuscrito).

 

Quarta estação

 

Final de dia, nas trilhas do sofrimento e da esperança Kaiowá Guarani. O vereador Otoniel e o capitão da aldeia de Caarapó, Te Ykue, nos introduzem em outros campos não menos minados e difíceis. A participação na política partidária e o trabalho de plantio e corte de cana-de-açúcar. Apesar de todos os problemas enfrentados na função de representante da comunidade na câmara municipal, essa tem sido uma experiência construída com muito debate e consciência pela comunidade. Ele é um dos oito vereadores indígenas Kaiowá Guarani da região.

 

Também procura refletir sobre o século passado, quando praticamente se iniciou o processo de forte impacto e muitas mortes, num processo genocida que continua até hoje. Procurou refletir o processo desde a escravidão livre da extração da erva-mate até o trabalho escravo de hoje nas usinas de cana de açúcar. Só da aldeia de Tei Ykue saem em torno de dez ônibus de trabalhadores Kaiowá Guarani para as usinas. São em torno de 700 trabalhadores indígenas só desta aldeia.

 

No total, conforme o Ministério do Trabalho, são mais de 13 mil indígenas trabalhando no plantio e corte da cana na região. Procuram mostrar o forte impacto desestruturador dos laços sociais e familiares que traz esse trabalho de meses fora da aldeia. É praticamente o único trabalho que lhes resta. E mesmo assim com os dias contados, pois está em curso um rápido processo de mecanização de todo o processo da cana. Daí a urgência do reconhecimento das terras para que não se agrave ainda mais a situação de dependência, mendicância, violência e fome.

 

Quinta estação

 

Próximo a Dourados, encontra-se uma das situações mais cruéis a que está submetida uma comunidade Kaiowá Guarani hoje, no Mato Grosso do Sul. A terra de Passo Piraju foi retomada há um quase 10 anos. Foi um tempo de conflitos e ameaças constantes por parte dos fazendeiros da região, que a todo custo querem ver os índios longe dali. Eles estão confinados a 40 hectares por um Termo de Ajustamento de Conduta.

 

Porém nos últimos três anos, após um conflito em que morreram dois policiais, eles estão submetidos a um permanente bombardeio de prisões, pressões, armações e ameaças inimagináveis. Em conseqüência disso hoje se encontram reduzidos a menos da metade das famílias que havia nos anos passados. Alguns se encontram no presídio de segurança máxima de Dourados. Outros cumprem prisão na aldeia. A intenção clara é de vingança dos policiais e a retirada dos índios por parte dos fazendeiros.

 

Heroicamente as famílias que ali sobrevivem resistem a toda essa onda agressões. Uma das lideranças desabafa: "pensávamos que a escravidão tivesse acabado. Agora aqui no Passo Piraju ela está começando". Denunciam o clima de terror a que estão submetidos, constantes tiros, cerca elétrica até a beira do rio, cana até a porta da aldeia. "Aqui polícia é insegurança pública". Falam do medo com que se locomovem "levando a morte na mão!". Na prisão foram torturados e dona Plácida voltou recentemente do presídio gravemente doente.

 

Sexta estação

 

Dourados tem se notabilizado nacional e internacionalmente por ser a Terra Indígena de maior população do país, em torno de 13 mil pessoas, onde tem ocorrido o maior número de mortes de crianças por desnutrição e um dos maios altos índices de suicídios e homicídios do país.

 

Alguns chegam a afirmar que se trata de um processo acelerado de favelização. As casinhas, umas próximas às outras, não dão mais condições de sequer fazer uma pequena roça familiar. Para complicar a situação, o SPI (Serviço de Proteção ao Índio) trouxe, já no século passado, várias famílias Terena com o intuito de ensinar os Kaiowá Guarani na produção nas lavouras.

 

O rápido aumento das violências - em conseqüência do aumento do tráfico de drogas, formação de gangues, trabalho escravo nas usinas - tem contribuído para que se tomasse um nível assustador. Em função disso estão sendo discutidas políticas de segurança na aldeia, que vão desde a preparação de contingentes policiais para atuar na área, até o toque de recolher a partir das dez horas da noite.

 

Sétima estação

 

As ameaças de despejo têm sido uma constante para a comunidade de Laranjeira Nhanderu, no município de Rio Brilhante. Quando estivemos visitando a comunidade, era o dia em que expirava mais um prazo.

 

Os indígenas falaram de tudo que têm passado nesses quase dois anos em que retornaram a seu Tekohá, terra tradicional. Duas crianças morreram em decorrência da falta de permissão da assistência à saúde, três jovens se suicidaram sob as pressões da reintegração de posse.

 

Resistência e esperança, acima de tudo

 

Ao concluirmos a maratona de contato com as realidades de comunidades Kaiowá Guarani, fica a imagem forte dos "condenados da terra", dos "restos", dos quais brotará uma nova sociedade, mais justa e solidária. Povos semente de sonhos e utopias, povos da resistência, da transformação e da esperança.

 

Egon Heck é coordenador do Cimi (Conselho Indigenista Missionário) no Mato Grosso do Sul.

 

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