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Iraque: democratas ao estilo republicano Imprimir E-mail
Escrito por Virgílio Arraes   
Sexta, 28 de Agosto de 2009
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Constatam-se na política externa do governo Obama as linhas-mestras do governo Bush. É possível que o tempo transcorrido de mandato seja insuficiente para alterá-las a contento.

 

De toda forma, há uma sinalização de que isto, caso ocorra, será de modo atenuado. Pode-se citar, por exemplo, a postura diplomática de Washington no tocante ao Oriente Médio.

 

Concernente ao Iraque, a gestão Bush, em decorrência do processo eleitoral presidencial em 2008, conjugou a sua atuação lá por meio do emprego reforçado da concessão financeira a vários líderes políticos, notadamente aos comandantes de milícias. Atualmente, estes se relacionam com o governo com bastante desenvoltura. Muitos pertencem às assembléias representativas.

 

Na prática, executam, por vezes, funções policiais e judiciais. O critério de escolha dos anglo-americanos parece levar em conta o poder bélico de cada uma das milícias. Não há tempo para analisar a legitimidade de cada uma delas nas comunidades a que pertencem geográfica ou culturalmente.

 

O programa – oficioso em sua forma final - de créditos a chefes locais havia nascido no final de 2006, ante a ineficiência apenas da utilização das forças armadas. O seu objetivo desdobrar-se-ia em duas partes: o primeiro seria o de reduzir a violência; em seguida à menor instabilidade, haveria as condições mínimas para a retirada da maioria dos contingentes.

 

O resultado foi uma acalmação provisória, com o estabelecimento de um convívio em muitos locais, em especial nos de maioria sunita. Paradoxalmente, a aliança ocorreu com os cidadãos outrora mais vinculados à ditadura de Saddam Hussein.

 

Não houve, a princípio, inovação, visto que o regime do Partido Baath coonestou os representantes clânicos também. A forma, entretanto, foi diferente, dado que indiretamente, ou seja, por meio de contratos de restauração da precária infra-estrutura do país.

 

Há a séria desconfiança de que tais parcerias são superfaturadas, à semelhança de uma rotina comum a muitos outros países do Terceiro Mundo. É fato que a margem de lucro delas é bem superior à das empresas estadunidenses, como a Haliburton. Paradoxalmente, a presença externa estimula a corrupção, indo de encontro ao projeto de implementar uma democracia moderna.

 

Até os membros da coligação são influenciados: a facilidade com que as verbas circulam no programa de reconstrução tem seduzido muitos militares, conforme comprovam as auditorias. Torna-se difícil, às vezes, apurar se houve desperdício ou tão-somente corrupção.

 

Oficialmente, a empreitada justifica-se em função da existência do Programa de Resposta de Emergência do Comandante. Ele foi estruturado em 2003 pelo diplomata Paul Brenner, ‘primeiro-cônsul’ no Iraque. Em sua origem, o objetivo havia sido o de prover o projeto com verbas extraídas do próprio Iraque, por causa da abundância do petróleo local.

 

Diante das dificuldades surgidas para consolidar a troca de governo e, por conseguinte, recuperar o setor petrolífero, a Casa Branca teve de suprir o fundo com mais de três bilhões de dólares até o presente ano. Para o próximo ano fiscal, estima-se mais um bilhão.

 

Os comandantes de batalhões têm autonomia administrativa razoável para permitir a execução de obras de recuperação da precária infra-estrutura. Outrossim, as verbas destinam-se a auxílio humanitário. Contudo, até para a edificação de hotéis elas têm sido direcionadas.

 

Com a sobra, encaminha-se o dinheiro oficiosamente para o sustento e para os armamentos dos milicianos. Com isto, as forças armadas anglo-americanas geraram, mesmo precariamente, uma solidariedade cotidiana: poupam-se vidas e reduz-se o desgaste da ocupação. Crimes como seqüestros têm diminuído também.

 

Com vistas aos líderes das milícias, muitos adquiriram um padrão econômico muito acima da média da população. Vários se deslocam, por exemplo, em caríssimos carros blindados acompanhados de vistosos séquitos de segurança ou residem em áreas rodeadas por altos muros onde provavelmente o padrão de consumo é significativo.

 

Assim, em vez de democracia para o combalido país, uma plutocracia movida em parte por financiamento direto do contribuinte norte-americano, enquanto a indústria de petróleo não se estabiliza.

 

Contudo, a situação iraquiana não conseguiu impulsionar em 2008 o êxito da candidatura do Partido Republicano à Casa Branca pela terceira vez, abalada ainda mais no final da campanha pela emergência da crise econômica.

 

Desta maneira, não se compreende a insistência dos democratas em um modelo administrativo de onde se extrai tão pouco para amenizar o sofrimento da sociedade iraquiana e para reforçar o seu cacife eleitoral.

 

Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

 

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