Um convite ao PCB, PSOL e PSTU: uma jogada ousada

 

Esperava, nesta edição, iniciar um depoimento sobre a luta armada dos anos 1960-1970. Porém, apareceu um convite interessante ao PCB, PSOL e PSTU, para examinarem "uma aliança eleitoral, em torno da senadora Marina Silva", já que todos compartilham "uma posição de independência e de crítica diante do governo Lula".

 

Segundo o convite, uma frente eleitoral que tenha por base uma plataforma de "reformas democratizadoras" poderia contemplar objetivos comuns "dos partidos de centro e de esquerda" e "ganhar o apoio do MST e de setores de base das igrejas cristãs".

 

Acreditam que tal frente seria uma "iniciativa política ousada", que mexeria na "disposição atual das forças políticas e sociais", ventilaria "as propostas econômicas e sociais das forças populares", e aproximaria "a oposição de esquerda ao governo Lula de setores de centro".

 

Alertam que, sem tal iniciativa, a "oposição popular e de esquerda" não aglutinará "forças majoritárias" capazes de "arrebatar vitórias". E concluem que, para constituir uma "alternativa política real nas atuais condições", a "oposição popular e de esquerda" terá que combinar "o programa socialista com uma tática democratizadora".

 

O convite não explicita em que consiste essa combinação entre o programa socialista e a tática democratizadora. Mas não deixa de fazer uma crítica ao PCB, PSOL e PSTU, por seu emparedamento "entre o economicismo corporativista e o doutrinarismo socialista". Com razão, reclama que eles não podem "atacar mais as forças de centro do que as forças de direita". E lembra, também com razão, que "aliança implica diferença", "unidade de ação em torno de objetivos imediatos e comuns". Desde que, é lógico, subordinem "seu discurso e sua atuação à convergência tática".

A proposta, porém, esquece que o conteúdo principal da "posição de crítica" do PCB, PSOL e PSTU ao governo Lula reside justamente no fato de o PT ter adotado a tática democratizadora de aliança com o centro. Esses partidos podem, então, se perguntar: se é para unir-se ao centro, formar uma frente de centro-esquerda e aplicar reformas democratizadoras, por que não se unirem em torno de Lula e de Dilma? Qual a diferença entre a frente eleitoral, que o PT chama de "centro-esquerda", e a frente de "centro-esquerda" da proposta de unificação em torno da senadora Marina Silva?

 

Talvez prevendo isso, o convite tenha tido o cuidado de colocar o PT e o PSDB como principais "líderes dos blocos de centro-direita". Com isso, tentou responder, de antemão, àquela inevitável pergunta. No entanto, como não são ignorantes, os militantes e dirigentes daqueles partidos também poderão perguntar: quem são os partidos de "centro"?

 

Ora, se os partidos de centro forem o PMDB, PDT, PSB etc. etc., a questão retorna. Qual a diferença entre a frente eleitoral que está sendo montada pelo PT, contra a qual PCB, PSOL e PSTU se batem há tempos, e a frente eleitoral proposta pelos que pretendem "aglutinar as forças majoritárias"? A não ser, podem concluir, que esta proposta de apoio à senadora Marina Silva esconda uma jogada mais "ousada".

 

Isto é, embora o convite parta do pressuposto de que o PT e o PSDB são líderes da centro-direita, a mexida na "disposição atual das forças políticas e sociais" na prática só faria uma vítima: a candidatura Dilma. Isto ficando claro, talvez PCB, PSOL e PSTU se animem a participar da frente proposta, mesmo sabendo que PSDB e DEM levarão vantagem.

 

O convite, porém, não pode ser claro a esse respeito. Deixaria boa parte das "forças majoritárias", que pretende conquistar, numa situação desconfortável. Por isso, do mesmo modo que Sun Zi teria feito há 2500 anos atrás, finge atacar o amigo Serra, para destruir a inimiga Dilma.

 

Seu problema, com o qual Sun Zi também se confrontou várias vezes: nem todos foram ignorantes, a ponto de deixarem que a disposição das forças fosse mexida e permitisse a vitória a seu verdadeiro inimigo.

 

Wladimir Pomar e analista político e escritor.

 

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Comentários   

0 #13 Discurso. De novoFidelis Pedro Pretto 21-10-2009 14:46
Quanto mais eu leio sobre alternativas para um Brasil melhor, mais eu fico pasmo sobre os caminhos apresentados por nossos amigos da esquerda. Afinal, nós queremos democracia ampla, geral e irrestrita, ou apenas discurso. Por favor, chega de lullismo, petismo, psolismo, marinaismo, etc...
Eu quero apenas democracia...
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0 #12 Jorge 10-09-2009 16:06
foi uma pena a Marina se perder no PV. Depois que a eleição passar, a mídia passará a criticá-la novamente e será um longo ostracismo, a não ser que queira participar do governo da Dilma ou do Serra. O Pstu não deve apoiar Marina, o Psol,se apoiá-la somente vai deixar claro que é praticamente um Ptezinho, e que foi um grande erro pessoas de valor como Ivan Valente, terem deixado o PT.
O objetivo estratégico da direita brasileira é destruir o PT. Para isso ela pode apoiar, circunstancialmente, forças à esquerda.
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0 #11 PSOL tem posiçãoRonaldo Oliveira 27-08-2009 11:26
Pode até acontecer diferente, o que me decepcionaria, mas o PSOL, em seu II Congresso deixou evidente que Marina Silva, no PV, não representa a Esquerda Democrática.
Não! Não vamos nos aliançar com antagônicos.
O PSOL é ECOSSOCIALISTA, não aceita o capitalismo verdejante apontado pelo PV.
Lembrado que teve voto do PV para aprovar a MP da grilagem amazônica, que o PV tá com o DEM e PSDB em SP.
Já afirmamos, teremos candidat@ própri@. Heloísa Helena prioritariamente, mas temos mais nomes, Plínio, um deles, João Alfredo (CE) outros.
Saudações Ecossocialistas, logo, Libertárias,
Axé
BAguinha
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0 #10 Considerações...Odécio 27-08-2009 04:37
Muito boa a análise do Prof.Benini. Também achamos que está dificil para a (s) esquerda(s) raciocinar fora da lógica-ideológica do capital; é preciso mais esforço, imaginação e criatividade para se projetar para além do capital; com Marx, para além de Marx. Urge uma grande e interativa reflexão sobre o momento atual.
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0 #9 Marina é vanguarda? Lula transformador?Sérgio Lopes 26-08-2009 15:55
Pelo visto, estamos mal das pernas nessas eleições. Apontar Marina Silva - um dois únicos ministros anunciados por Lula nos EUA - como vanguarda de uma chapa progressista é confundir o marketing das ONGs com transformações sociais efetivas. Já atribuir ao governo Lula a adoção de "uma tática democratizadora de aliança com o centro" é ignorar que a marca central dele é o financismo, que destina anualmente ao Bolsa Juros cerca de 10 vezes mais que ao Bolsa Família e ao dobro da soma do orçamento anual da Saúde e da Educação. Isso foi mitigado no segundo mandato por alguma elevação do gasto público, mas não a ponto de mudar a essência da política pró-rentistas. O que falta às forças transformadoras é construir uma agenda autônoma de mudanças, que fuja da cooptação lulista e da agenda udenista da mídia.
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0 #8 O inimigo central é a direitaAntônio Augusto 26-08-2009 12:38
O governo Lula é um governo de centro, com participação subordinada de forças de esquerda. Sua política econômica, apesar de concessões importantes, como o bolsa-família, ou muito menos privatizações que no governo FHC, contempla no essencial os interesses do grande capital. À esquerda cabe atrair as forças populares, democráticas e de esquerda presentes no governo Lula. Para isso se deve centralmente bater no núcleo político duro das classes dominantes, composto pelo PSDB, DEM e a "grande" mídia. Uma política bem diferente do sectarismo estéril da ultra-esquerda, que trata o governo Lula como o inimigo central dos trabalhadores. A propósito, o comentário de Tânia Queiroz explicita a política da ultra-esquerda, tem o mérito de preconizar exatamente o que as forças revolucionárias não devem fazer - uma versão do "comunismo puro e sem compromissos", em 1920, da camarada Sylvia Pankhurst.
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0 #7 Tudo em nome do poderRoque Santos 25-08-2009 18:25
Sou do PT, ainda sou pelo menos. Mas do Interior. Sempre soube que o Pomar era coerente pelo que ouiva falar da articulação de esquerda, pois por aqui pouco importa as tendencias, quando se está no interior.
Mas ultimamente ao ler seus artigos criticando a companheira ética Marina Silva, chego a repugnar.
Tenha coerencia de reconhecer o valor de Marina Silva. E não fique com receio pois será uma briga de Davi e Golias e voces vão ganhar, tanto faz Sarney, PSDB ou PT um de vcs vai.
Portano esqueçam Marina, ela não merece,
Saudações petistas, pois aindo sou..mas cada dia mais desanimado
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0 #6 Gato Preto 25-08-2009 16:42
Faltou dizer no texto quem exatamente fez o convite. Se a própria Marina? Ou PV? Quem?
Fora isso... todos sabem que o PSTU, boa parte do PCB e a esquerda do PSOL nunca vai topar algum tipo de apoio ao PV.
O bloco mais a direita do PSOL, mesmo divido em dois (MES, PP/MTL, Heloisa, Chico Alencar... e APS/Ivan Valente/ENLACE) é o único setor que pode ter a cara-de-pau de topar um apoio a candidatura de Marina e seu "desenvolvimento capitalista sustentavel", em troca, claro, de avançar na conquista de cargos e mais espaço na institucionalidade burguesa, no que, aliás, são especialistas.
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0 #5 AmbiçãoVentura Picasso 25-08-2009 13:54
Concordo com tudo Luzimar Jr. Caminhar lado a lado com Sarney Filho, com Talmir Rodrigues e com Dom Benedito não alcança um projeto revolucionário. No máximo, pode tirar 15% de votos da Dilma. Marina da Silva e seu cavalo de Tróia, mostra vaidade pessoal liberando a ambição de ser mais um referencial político sem prestígio.
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0 #4 Lucidez e maturidadeGilson Gruginskie 25-08-2009 13:47
A construção da maturidade política não só na esquerda, mas em todos os projetos humanistas , é lenta. Wladimir, como sempre, representa a lucidez e maturidade necessárias no debate político brasileiro. Parabéns pela coragem do artigo.
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