Validação de diplomas de médicos de Cuba: uma questão humanitária

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No dia 20 de agosto próximo, às 19 horas, acontecerá na Assembléia Legislativa estadual uma Audiência Pública para que os setores interessados da sociedade debatam uma questão que tem tido pouca repercussão na imprensa. Trata-se do problema da revalidação dos diplomas de brasileiros(as) que se formam em medicina em Cuba, mas que, em verdade, pauta uma discussão muito mais ampla, pois envolve os brasileiros formados em medicina em outros países e os estrangeiros que querem atuar profissional e legalmente no Brasil.

 

Mas por que a Audiência só tratará sobre os formados em Cuba? Por que esse caso merece destaque? Simplesmente pelo fato de ser Cuba o único país no mundo a oferecer oportunidade para os brasileiros pobres se tornarem médicos. Com um detalhe, tudo arcado pelo governo da Ilha. E mais: há um dado quantitativo relevante: já são cerca de 1.000 jovens, entre formados e estudantes pela Ilha socialista.

 

No entanto, um aspecto qualitativo sempre é posto em questão. O nosso país tem mesmo que verificar a qualidade da formação adquirida fora das nossas fronteiras, pois, sabemos, há uma verdadeira indústria de profissionais e de diplomas, dentro e fora do país. Nesse sentido, mais uma vez, Cuba se sobressai positivamente, pois ali a saúde e o ensino não foram mercantilizados, portanto, aquele país não faz parte da rota de fabricação de diplomas. Além do mais, os índices de saúde cubanos são mundialmente conhecidos e a formação do médico de lá já foi verificada por diversas missões brasileiras que constataram a qualidade e a compatibilidade com o currículo praticado por aqui.

 

Resta, então, responder a uma singela questão? Por que os diplomas desses brasileiros formados em Cuba não são automaticamente revalidados aqui? Por incrível que possa parecer, a resposta não é tão simples. Há médicos demais no Brasil? Não, pelo contrário, há uma enorme carência desse profissional, não obstante a estatística simples informar que o nosso quadro é compatível com o índice exigido pela Organização Mundial de Saúde (OMS).

 

As estatísticas oficiais indicam que no Brasil há 1,15 médicos para cada grupo de 1.000 habitantes. Porém, em vez de revelar, esse dado só encobre verdades sobre a realidade brasileira. Se formos estratificar esses índices, enxergaremos uma realidade absurda. Há cerca de 500 municípios que não têm um médico sequer. Há estado no país que tem média de 0,5 médico para mil habitantes. Se tomarmos os dados de certas regiões muito pobres ou distantes, veremos que o quadro chega a ser caótico. Dados oficiais reconhecem carência de mais de 30% de certas especialidades em hospitais: anestesistas, obstetras, pediatras e psiquiatras, por exemplo.

 

Hoje as opções de especialização são maciçamente voltadas para as especialidades "rentáveis", como cardiologia, cirurgias plásticas, e por aí vai. Qual a política pública que visa corrigir essa distorção? Desconheço-a. Uma sociedade absolutamente voltada para a produção de mercadorias a qualquer custo terá dificuldade em enquadrar ou disciplinar o rentável filão do "mercado da saúde". O sistema de saúde público, por si só, não tem capacidade de enfrentar a lógica mercadológica e ainda atender às grandes necessidades da enorme população brasileira.

 

Aliás, uma população socialmente desequilibrada e prenhe de agravos na saúde pública que extrapolam em muito as simples doenças a serem tratadas: alto índice de assassinatos e de violência causadora de traumatismos; alto índice de populações sem acesso a saneamento básico e alto índice de acidentes, principalmente os de trânsito, são elementos que provocam superlotação dos nossos equipamentos de saúde.

 

Então, a questão continua a incomodar: por que não se revalida rapidamente os diplomas dos(as) brasileiros(as) formados(as) em Cuba? Bem, sobra-nos uma hipótese plausível e incômoda. Em um país capitalista, socialmente apartado como o nosso, onde se pratica uma medicina mercantilizada e elitista, há uma instituição corporativa que só pensa em "proteger" seu "mercado" e que exerce forte influência no parlamento e nas universidades brasileiras. Portanto, tudo isso pode se resumir a uma sigla: CFM (Conselho Federal de Medicina).

 

Pois bem, a Audiência Pública convocada por uma Frente Parlamentar do legislativo do estado de São Paulo, apoiada por uma Associação de Familiares, é uma ótima oportunidade para que a sociedade brasileira tome conhecimento sobre esse assunto e constate como ele revela uma questão social muito mais profunda.

 

Marcelo Chaves é da Associação de Familiares e Amigos de Estudantes em Cuba (AFAC).

 

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Comentários   

0 #5 diplomas expedidos por cubamaria tome f. dos reis 26-01-2010 22:35
Como trabalhadora da saúde pública devo dizer que assisti a queda da qualidade desse serviço essencial à vida de qualquer naçao ao longo dos trinta anos de profissao. E como mae de estudante de medicina em Cuba devo dizer que o problema da revalidaçao para diplomas expedidos naquele país é puramente polítiqueiro,reacionário e busca atender a uma elite mercenária que só tem olhos para seu proprio umbigo e estao pouco se lixando para a grande massa de pobres que perambulam de posto em posto, necessitando mais de que uma consulta mal feita por muitos burgueses que fazem medicina por status e nao vocaçao. Necessitam sim de profissionais que receberam uma formaçao que os fazem enchergar mais que um corpo doente à sua frente e sim o SER HUMANO que os procuram na esperança de terem suas dores ou problemas solucionados,desinteressados dos valores em R$ que possam ter na carteira ou em contas bancárias.
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0 #4 Bloqueio contra Cuba!Aloísio 23-08-2009 10:59
Concerteza além dos pontos apontados pelo Marcelo há também a questão de tentar desmoralizar as politicas sociais do governo cubano perante ao mito de propaganda comunista de ditadura.
O povo brasileiro só vem a ganhar com esse ropimento(validação de diplomas de profissionais formados em Cuaba).
Parabéns aos organizadores e ao Marcelo pelo artigo.

Aloísio,estudante de História
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0 #3 validação dos diplomas médicos de Cubarenato machado 21-08-2009 08:22
Esta é uma das facetas cruéis da elite brasileira mesquinha , anti-nacional e aculturada ,que atuam em poderosos lobbies como este. Apesar do SUS , a realidade da saúde da esmagadora maioria de nós , brasileiros, não é muito diferente daquela que foi documentada no filme Sicko de Michel Moore. Extremamente oportuno o artigo e esta luta deve ser de todos nós , indignados com a injustiça social. por favor gostaria de receber mais informações sobre o tema ou onde possa ter acesso.
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0 #2 Diploma medicoNilson Ribeiro do Nascimento 21-08-2009 06:34
Realmente o problema é político, ao referendar o diploma, se referenda a politica cubana de solidariedade com os povos. Se legitima o socialismo, por isso essas enormes barreiras.
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0 #1 Médicos brasileiros formados em CubaPaulo de Tarso Celebrone 20-08-2009 17:09
Parabéns pela análise. De fato as instituições corporativas médicas fazem jus ao nome e parecem não se importar com o sofrimentos dos milhões de brasileiros que sofrem com a falta, não só de médicos, mas de uma atenção multiprofissional. Nas capitais, principalmente do sudeste e sul, há médicos e outros profissionais à mancheia, enquanto noutras regiões, exportadoras desses profissionais, sofre o pobre, aquele que só tem o SUS para recorrer. Se o povo brasileiro pudesse ter uma informação correta sobre Cuba, certamente saberia reconhecer os avanços sociais desse país e desse povo. Porém, com o domínio da mídia pelos interesses reacionários, somente cita-se Cuba para falar mal, para desinformar. Parabéns aos organizadores de eventos dessa natureza. Saudações.
Paulo
Enfermeiro
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