EUA e a dificuldade de estabelecer coesão na política externa

 

Ao assumir a presidência há pouco mais de seis meses, a prioridade de Barack Obama era interna, em função naturalmente da crise econômica herdada. Além do mais, ele havia invocado para si uma reivindicação histórica dos democratas, embora nem sempre lembrada quando estavam no poder: a ampliação progressiva do acesso dos cidadãos americanos a um sistema de saúde. De certa forma, o começo do mandato de Obama aproximou-se nestes aspectos do de Bill Clinton, em 1993.

 

Estima-se que cerca de 15% da população estadunidense não possuem assistência médica constante, por insuficiência de recursos. O quadro pode agravar-se exatamente em decorrência do estado atual da economia. Nesse sentido, o governo Obama dispôs-se a negociar com os republicanos uma pauta mínima, mas as perspectivas ainda não se apresentam animadoras.

 

Na política externa, apesar de membro por quatro anos da Comissão de Relações Exteriores do Senado, ele buscou cercar-se de colaboradores que conjugassem, em maior ou menor grau, experiência com peso político, como foi no momento da escolha do responsável pelo Departamento de Estado, a senadora de Nova York Hillary Clinton.

 

Por isto, manteve à frente da pasta de Defesa o titular da gestão Bush, Robert Gates. Além do mais, reforçou administrativamente o Conselho de Segurança Nacional, bem desprestigiado durante os anos Bush.

 

De início, rememore-se que as prioridades apontadas pelo governo democrata conectavam-se essencialmente com o continente asiático, de duas maneiras: diplomaticamente, as referências haviam sido Irã, Coréia do Norte e Israel; militarmente, Iraque e Afeganistão.

 

Paralelamente, houve a necessidade de demonstrar aos habitantes de países muçulmanos que os Estados Unidos não estavam e nem estiveram engajados em confrontos religiosos. Indiretamente, isto influenciou a determinação presidencial de encerrar, ainda que não de forma imediata, as atividades presidiárias da base naval de Guantánamo, local em que se isolaram os combatentes considerados mais extremistas ou suspeitos disso.

 

Enfim, Obama deparou-se com um fardo considerável, que lhe foi legado por Bush, em vista da inapetência para analisar a política internacional sob ótica mais ampla e menos auto-suficiente, ou seja, de forma multilateral. Alterada esta disposição, o desafio da Casa Branca é manter a coesão da equipe diante das novas dificuldades.

 

No caso, há nova similaridade com os primeiros meses de Clinton, envolvido com o fracasso da presença norte-americana na Somália – simbolizado tragicamente pela queda do helicóptero Black Hawk, tema de filme em 2001 - e com o imbróglio político no Haiti.

 

No tocante à administração Bush, houve um embate que se caracterizou entre os falcões, entrincheirados no Departamento de Defesa e na vice-presidência, e os pombos, recolhidos basicamente no Departamento de Estado. Após a preponderância interna, os falcões conduziram a política externa sem a formulação tática adequada que possibilitasse o êxito da estratégia de transformar os países do Oriente Médio em democracias neoliberais.

 

Nem o fato de que quase todos os falcões fossem desprovidos de experiência militar real impediu-os de sobreporem-se aos especialistas do Conselho de Segurança Nacional quanto ao Oriente Médio. Desaçaimados, eles terminaram por promover um desgaste na política externa do país somente visto no tempo de Richard Nixon com a guerra do Vietnã. Mais tarde, os críticos adjetivá-los-iam de falcões-galinhas, em vista da conjugação de arrogância com inexperiência de combate.

 

Nesse sentido, Obama tem uma visão de mundo bem mais clara que a de seu antecessor. Assim, as decisões centralizaram-se politicamente na presidência de novo. Explica-se, deste modo, a sua mensagem de diálogo ao Irã, por exemplo, em março último, ou ainda o seu discurso no Cairo com o fito de desanuviar o relacionamento entre estadunidenses e muçulmanos.

 

Boas iniciativas, sem sombra de dúvida, mas carentes até o momento de maior encaminhamento prático, como se observou após a eleição presidencial iraniana em que a Casa Branca não sabia qual postura adotar no tocante à reeleição de Ahmadinejad. A hesitação até o momento prevalece, visto que a retomada de negociações com Teerã legitimaria para a comunidade internacional a conturbada apuração do resultado deste pleito.

 

Guardadas as devidas proporções, há o mesmo impasse com a Coréia do Norte, em face do processo sucessório no país por meio do qual se autenticaria a hereditariedade do governo.

 

Apesar de demonstrar mais disposição para encarar os problemas da política externa do que a gestão Bush, o governo Obama não consegue equacionar a maneira por que iria solucioná-los. Com o passar do tempo, se as suas propostas demorarem a ser implementadas, há o risco de o eleitorado passar a considerá-los como dele, sem chance de invocá-los mais como uma ‘herança maldita’, como no caso do Brasil. A sorte está lançada aos democratas!

 

Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

 

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Comentários   

0 #1 EE.UU e indecisão na política externaWendel Anastácio 26-08-2009 13:12
" E a esperança se fez água". Seria o título correto para este artigo, mas a realidde é que Obama se fêz refém dos llobys, e hoje nada pode mais fazer.
O que veremos daquí prá frente, será apenas retórica. Ou vocês ainda têm dúvidas de que ele foi posto no cargo somente para salvar as instituições financeiras!
Mas não se iludam, o jogo desde o início estava marcado. E esta queda na polpularidade dele nestes últimos dias, não deveria ser surpresa.Qdo não se atende aos financistas das companhas eleitorais, já se sabe qual o fim.
Fiquem atentos, mais supresas, (surpresas?), haverão de vir!
Aguardem.
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