O caminho é outro

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Desgraças são um grande negócio. Notícias de assassinatos na alta roda, quedas de aviões, atropelamentos em série e crimes brutais vendem revistas e aumentam os pontos de audiência de telejornais, deixando contentes os donos de veículos de comunicação e de empresas que investem em publicidade. Apesar de stes fatos terem uma base real, são tratados como ficção. Como capítulos de uma novela, as tragédias vão sendo esquecidas e todo dia novas desgraças ou novos detalhes mórbidos que esquentem os antigos precisam alimentar a roda para que ela continue girando.

 

Com a divulgação dos relatórios do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), com previsões para o futuro relacionadas ao aquecimento do planeta, elaborados por cientistas de todo o mundo e divulgados nos últimos meses, não foi diferente. Todo mundo comentou, muitas reportagens e entrevistas foram veiculadas. Mas a coisa foi esfriando e, hoje, poucas semanas após a divulgação da segunda parte, o assunto já perde a capacidade de atrair anunciantes e público, ávido por novas catástrofes.

 

Parece que o povo não entendeu muito bem a mensagem. Aquela não foi apenas mais uma notícia para consumo instantâneo, como a queda de um avião ou mais um escândalo de corrupção. A questão das mudanças climáticas é mais profunda. Não sei se daria para ser diferente na atual conjuntura, mas quase todo mundo continua defendendo com o mesmo fervor a necessidade de expansão da capacidade energética do Brasil para que a economia do país cresça, ignorando a problemática ecológica. “Corremos o risco de não ter energia para crescer como a China, nosso principal concorrente”, protestam os críticos da atuação do Ibama, por exemplo.

 

Simultaneamente à divulgação dos relatórios das mudanças climáticas, o presidente Lula tem vindo com freqüência a público atacar os entraves do órgão ambiental para a construção de hidrelétricas em áreas de floresta na Amazônia, como se a função do Ibama fosse simplesmente dar a benção a qualquer barbaridade em nome do sucesso do PAC. Nem se considera a possibilidade de o órgão rejeitar alguma obra. Fala-se apenas nos “atrasos nas liberações”, raciocínio que espertamente elimina a possibilidade de “proibição das obras”, expediente que na teoria poderia (e deveria) ser utilizado pelo órgão em casos extremos.

 

Tentando olhar de fora, o momento que vivemos daria um bom filme ou livro de horror. No melhor estilo de George Orwell ou Aldous Huxley, seria a história de uma sociedade que, apesar de ter capacidade para detectar o fato de estar a caminho da autodestruição e de já ter de fato chegado a esta conclusão, não consegue fazer o que é necessário para parar a roda. Neste cenário nada hipotético, caminhamos como zumbis para o precipício que sabemos estar lá. É como um viciado em heroína que perde o controle sobre sua própria mão, que ganha vida própria e prepara a dose derradeira e fatal, como um tiro na sua própria cabeça.

 

Alguém duvida que precisamos transformar este modelo de vida em sociedade que exige, para sua sobrevivência, a destruição das últimas grandes áreas naturais do planeta? As hidrelétricas do Rio Madeira, obsessões do nosso presidente, resolverão o problema da demanda por energia por quanto tempo? É bom deixar claro que elas são obsessões não apenas do Lula; quando ele fala nos “bagres” no seu “colo”, sua ansiedade pelo início das obras é reflexo da forma de pensamento das pessoas que detêm hoje o poder real no mundo.

 

Com a sede insaciável de crescimento da economia, claro está que em breve serão sacrificadas outras áreas da Amazônia e de outras partes do país e outra e outra e outra. Até quando? Até acabarmos com tudo? E depois, pergunto aos defensores do crescimento econômico ad infinitum? Para onde vamos correr? Para Marte?

 

Mais cedo ou mais tarde teremos que acordar deste pesadelo. O ser humano, apesar dos incríveis avanços na tecnologia e na ciência (ou talvez por causa deles), parece ter esquecido da principal lição: somos parte da Natureza, assim como o mico-leão, as baleias, o vírus da dengue e as rochas. A visão espiritualista de que a Terra (ou a terra, tanto faz) é nossa Mãe precisa ser compreendida e aceita pelas mentes que tomam as decisões sobre o futuro da sociedade. Dela retiramos tudo que precisamos para viver. Desde os alimentos até o petróleo e seus derivados. Virar as costas para esta realidade, além de pouco inteligente, equivale a matar quem te alimenta, é como um suicídio coletivo.

 

O caminho é reduzir a demanda por energia, não apenas encontrar formas alternativas de produzi-la. Será tão difícil ver isso? Esse sistema está fadado ao fracasso e não há quem possa provar o contrário. Apesar de parecer impossível, essa mudança de paradigma se dará por bem ou por mal, independentemente da nossa vontade. Quanto mais rapidamente aceitarmos o inevitável, mais fácil será a transição, antes que uma verdadeira tragédia nos force a mudar de estilo de vida, nem que este novo estilo tenha de ser adotado pelos poucos sobreviventes da catástrofe, envolvidos numa luta pela vida parecida com aquela que travamos há algumas dezenas de milhares de anos.

 

 

Danilo Pretti Di Giorgi é jornalista.

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