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As eleições francesas - um panorama sombrio Imprimir E-mail
Escrito por Miguel Urbano Rodrigues   
Segunda, 26 de Março de 2007
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Apresentar a França como um país decadente, despejar críticas sobre o seu povo e, simultaneamente, enaltecer o dinamismo da Espanha e a criatividade da sua burguesia tornou-se quase dever de rotina na mídia portuguesa.

 

Essa cantilena, que repete sem originalidade a de Bush e da extrema-direita dos EUA, deturpa grosseiramente a realidade. A direita, em Washington como em Portugal, não perdoa a França por ter se oposto, no Conselho de Segurança, em 2004, à guerra de agressão contra o Iraque e, sobretudo, haver dito NÃO à chamada Constituição Européia, congelando um projeto que institucionalizava o capitalismo na União Européia.

 

Esses acontecimentos positivos não alteraram obviamente o rumo da política reacionária do governo francês, mas evidenciaram que, na pátria de Robespierre, a classe dominante enfrenta maiores dificuldades do que noutros países europeus para impor discricionariamente a sua vontade.

 

Em março e abril de 2006, a mobilização popular contra uma lei que iria agravar o desemprego entre a juventude atingiu tal magnitude que o governo foi obrigado a revogar esse decreto, já aprovado pelo Parlamento e a promulgado pelo presidente Jacques Chirac.

 

Por muito que isso desagrade a Bush e cia ltda , o povo da França, frente à atual crise de civilização, não se deixa manipular com a facilidade do norte-americano. O peso do país na UE é obviamente muito superior ao da Espanha, onde as Cortes, sob a pressão do social-democrata-liberal Zapatero, aprovaram por ampla maioria a Constituição Européia .

 

Neste contexto, as eleições de abril na França assumem uma importância que não deve ser subestimada.

 

A situação é tanto mais preocupante quanto o desfecho será mau, qualquer que seja o eleito. O número elevado de candidatos impressiona pela quantidade. A maioria aproveita a oportunidade para se exibir e ocupar algum espaço na comunicação social. Mas apenas dois, Segolène Royal, pelo Partido Socialista (PS), e Nicolás Sarkozy, pela União para o Movimento Popular (UMP), têm possibilidades de chegar ao Eliseu. Excluindo os folclóricos, aparecem na corrida cinco candidatos cuja soma de votos, considerável, impedirá que em 22 de abril o vencedor obtenha maioria absoluta, tornando inevitável um segundo turno.

 

Durante meses, as sondagens atribuíram vantagem a Sarkozy, mas as últimas pesquisas apontam para um empate técnico. O resultado, quando se enfrentarem a dois, dependerá de fatores por ora imprevisíveis, inseparáveis da distribuição dos votos dos candidatos eliminados.

 

A perspectiva autoritária

 

Sarkozy conseguiu impor-se a uma direita oficial, dividida. Emerge nela como o representante das forças mais obscurantistas. Diz-se gaullista, como Chirac e Villepin, mas as relações que mantém com ambos são péssimas. Um dos absurdos da atual campanha é precisamente a atmosfera de hostilidade existente entre Sarkozy, o presidente e o primeiro-ministro, membros do mesmo partido.

 

O semanário Le Canard Enchainé tem divulgado comentários insultuosos do chefe do Estado e Villepin sobre o candidato da UMP e opiniões deste igualmente ofensivas sobre ambos. Ninguém desmentiu. Nos corredores dos Conselhos de Ministros em que Sarkozy participa como responsável pela pasta do Interior, a troca de palavras impublicáveis é também freqüente. Mas a relação de forças no maior partido da direita é tão complexa que Chirac não ousou demitir o ministro que lhe critica a política e se comporta como adversário.

 

Descendente de uma família da aristocracia húngara, Sarkozy ganhou notoriedade pelo seu estilo arrogante, pela vocação repressiva e por assumir desde a juventude atitudes racistas.

 

Durante a vaga de violência que principiou em bairros degradados dos subúrbios de Paris e se estendeu depois a quase toda a França, alarmando o governo e a classe dominante, Sarkozy exibiu-se como ministro no papel do duro, "defensor da ordem", usando uma linguagem profundamente reacionária. Ganhou e perdeu apoios.

 

Cultiva um gênero de populismo atípico, que confunde amplos setores do eleitorado. Orador hábil, adotou durante a campanha um discurso diferente do anterior. Renunciou a tratar o tema da imigração na perspectiva do nacionalismo exacerbado e, quando se dirige aos excluídos dos subúrbios, a mensagem, demagógica , é agora outra. Substituiu as ameaças por promessas.

 

Empenhado em atrair cidadãos que votam tradicionalmente no PS, não hesita em se afirmar identificando-se com aspectos do pensamento de personalidades tutelares da esquerda como Jaurès e Leon Blum. Cito o fato por ser revelador de um descaramento demagógico sem limites.

 

Existe a certeza de que, se instalado na presidência, Sarkozy optaria por uma política pró-EUA no tocante aos grandes problemas do mundo contemporâneo. Já a comunicou aliás a Bush. Seria na Europa, depois de Tony Blair (Inglaterra), o melhor aliado dos EUA.

 

Mas, nas suas intervenções, tem evitado sistematicamente abordar com um mínimo de seriedade temas tão fundamentais como a guerra no Iraque, a presença militar francesa no Afeganistão, a situação criada pela agressão de Israel ao Líbano e ao povo palestino, a estratégia francesa na União Européia.A atenção dedicada aos assuntos internacionais é mínima.

 

Relativamente aos grandes problemas da sociedade francesa, a sua atitude é similar. Sarkozy prefere concentrar o seu discurso de campanha no confronto pessoal com a candidata socialista. Mas o debate é desviado do campo das idéias, de questões que condicionam o futuro do país e, de certa forma, da humanidade para o ataque à adversária. Falar do desemprego, das demissões, da Segurança Social, do deslocamento para outros países de grandes empresas, de privatizações é incômodo para ambos.

 

Campanha rasa

 

Ségolène entra obviamente no jogo. Ao discurso político responsável que seria de esperar de uma aspirante à presidência da República prefere o duelo verbal, a resposta a fofocas da imprensa, a denúncia dos podres do adversário. É bonita e elegante.

Por acordo tácito entre ambos, a campanha avança assim num nível baixo.

 

Tão baixo que o eterno candidato da ultradireita, Le Pen, político experiente, consegue nas entrevistas de televisão ser o melhor. É provável que ultrapasse outro candidato da direita, François Bayrou, que afirma ser do "centro", mas é profundamente reacionário.

 

Marie George Buffet, secretária nacional do Partido Comunista Francês, espera ultrapassar a votação que o seu camarada Robert Hue obteve no primeiro turno das presidenciais anteriores. Mas não é candidata pelo PCF. Foi lançada por um Movimento formado had hoc por forças progressistas, a Esquerda Popular e Antiliberal, e tão heterogêneo que alguns dos seus elementos não ocultam o seu anticomunismo. Marie George não se apresenta assim como dirigente comunista e declarou que, qualquer que seja o rumo da campanha de Ségolène, apelará ao voto na candidata do PS no segundo turno, afirmação que causou mal-estar em muitas Federações dos PCF. Isso porque o programa e o discurso de Segolène são ostensivamente reacionários.

 

Joseph Bové faz muito barulho, mas não conseguiu sequer atrair o apoio maciço das organizações camponesas. A candidatura trotskista alcançou menos visibilidade do que a anterior.

 

Obviamente, a distribuição dos votos dos candidatos que não passarão ao segundo turno será decisiva no confronto final de Ségolène com Sarkozy. Perante o quadro existente, a maioria dos analistas admite que o atual líder da UMF está melhor colocado para vencer do que uma socialista que, na realidade, defende também o neoliberalismo, portanto o capitalismo.

 

O medo da rebeldia

 

Um fator inesperado pode, entretanto favorecer Madame Royal, como lhe chamam alguns jornais. A grande burguesia francesa teme que Sarkozy, se for eleito, inaugure na presidência um estilo autoritário, de desrespeito por direitos dos trabalhadores, o que provocaria inevitavelmente forte resistência popular. Ora, o grande patronato não quer ver as massas na rua. O precedente do ano passado não foi esquecido.

 

Em contrapartida, os senhores do capital identificam em Segoléne uma aliada segura e inofensiva. Uma certeza, qualquer que seja o futuro presidente da França, Nicolas Sarkozy ou Ségolène Royal, as perspectivas são sombrias, porque ambos são firmes adeptos de políticas neoliberais. No plano internacional, ambos situam-se à direita de Chirac; defendem uma cooperação mais íntima com Washington, o que significa uma maior vassalagem da França perante a estratégia de dominação do imperialismo estadunidense.

 

A França continuará nos próximos anos a ser governada pela direita. Não é motivo para surpresa. Isso acontece hoje em quase toda a Europa.

 

Mas as generalizações pessimistas podem levar a conclusões falsas. A UE é uma soma de Estados nacionais com vocação federativa, mas econômica e culturalmente separados em alguns casos por diferenças abissais .

 

O povo francês realizou, no final do século XVIII, uma grande revolução, que marcou decisivamente o rumo da história. E voltou, com a saga da Comuna, a ser sujeito de outra que anunciou o desafio do comunismo ao império do capital.

 

Essas revoluções deixaram ali sementes que não morreram. A França é hoje um dos países capitalistas mais desenvolvidos e ricos do mundo. O sistema entrou numa crise estrutural para a qual não existe desta vez saída salvadora. Mas a sua desagregação não tem data no calendário e o desfecho dependerá fundamentalmente do crash final nos EUA, pulmão e motor do imperialismo.

 

Aquilo a que os neoliberais chamam "os anos gloriosos" do capitalismo europeu, após a Segunda Guerra, encobre realidades incômodas para as classes dominantes, empenhadas em reescrever a história de acordo com os seus interesses. A vitória alcançada pela União Soviética contra o "invencível exército alemão" deu ao país dos Sovietes um enorme prestígio no Ocidente. Finda a guerra, as lutas dos trabalhadores que se haviam batido contra o fascismo assumiram uma amplitude que assustou as burguesias nacionais. Um grande medo de que essas lutas fossem o prólogo de situações revolucionárias invadiu a Europa capitalista. Então, um conjunto de fatores simultâneos contribuiu para a mudança do mapa social do Ocidente. Não houve concessões, mas sim conquistas das massas.

 

Mas é evidente que a humanização da vida, uma melhora sensível das condições materiais dos trabalhadores e a ofensiva para desarticular os sindicatos contribuíram dialeticamente para uma quebra drástica do espírito de luta da classe operária em todo o Continente.

 

A exploração persistiu, mas sob formas suavizadas. A ditadura do capital sobre o trabalho manteve-se, mas, na Europa desenvolvida, passou a ser muito mais difícil mobilizar as massas para lutar contra o sistema responsável pela injustiça social.

Mesmo neste início do século XXI, quando essa injustiça se agrava a cada ano, após o desaparecimento da União Soviética, a França aparece como o paraíso no imaginário de milhares de candidatos a emigrantes da Europa Oriental e da África.

 

Na América Latina, onde a implantação brutal do neoliberalismo na sua versão imperial produziu efeitos devastadores, lançando na miséria dezenas de milhões de trabalhadores, a resposta dos povos contra as ditaduras da burguesia é globalmente positiva, embora o desfecho das mudanças em curso seja imprevisível.

 

Na França, a esperança da revolução surge transferida para um futuro remoto. As instituições criadas pela burguesia funcionam em benefício do seu projeto. Mas a classe dominante tem consciência de que, num moderno Estado capitalista, as engrenagens do sistema devem ser programadas de modo a evitar situações de opressão susceptíveis de provocar explosões de descontentamento social.

 

Intelectuais revolucionários

 

Passei  uma semana em Paris. Impressionou-me verificar que o Estado burguês funciona ali com eficácia, não obstante o povo pagar a fatura de um sistema em crise. Os meios de comunicação social - imprensa, televisão e rádio - a serviço da direita esforçam-se por cumprir a sua tarefa de desinformação e manipulação da opinião pública.

 

Foi, entretanto, gratificante verificar que o nível do debate político no âmbito das forças progressistas reflete na França a herança cultural de um grande povo. Numa conferência do sociólogo belga François Houtart sobre a América Latina – estavam na mesa o historiador egípcio Samir Amin e o economista Remy Herrera –, a participação do público, ao longo de duas horas, foi intensa, deixando transparecer não somente a condenação frontal do imperialismo, como a solidariedade com os processos de ruptura com o capitalismo em curso na região.

 

Não serão hoje muito numerosos os intelectuais revolucionários de grande qualidade na França. Mas a quantidade existente, de Labica a Gastaud e Henri Alleg, chama a atenção.

 

A criatividade dos pensadores marxistas franceses fascina. Li agora um pequeno livro de Jean Salem - Lenine et la Revolution -, que, pelo que diz e pelo convite à reflexão sobre a História profunda, deveria ser lido pelos comunistas de todo o mundo. Numa centena de páginas, o autor, professor de Filosofia Grega na Sorbonne (é filho do escritor Henri Alleg), recorre a Dez Teses de Lenine, que selecionou das Obras Completas de Vladimir Ilitch, para desmontar o bombardeamento midiático que falsifica a História e iluminar brilhantemente a atualidade da sua mensagem revolucionária carregada de lições no campo da teoria e da ação.

 

Livros como o de Jean Salem fortalecem a confiança dos comunistas no futuro. Ajudam a preparar as grandes lutas que se esboçam no horizonte.

 

Artigo originalmente publicado em http://www.diarioi.info

 

 

Miguel Urbano Rodrigues é jornalista e membro do Partido Comunista Português. 
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Última atualização em Segunda, 26 de Março de 2007
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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