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Honduras é um problema de toda América Latina Imprimir E-mail
Escrito por Venâncio de Oliveira   
Sábado, 25 de Julho de 2009
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As imagens de um golpe militar na América Central. Um garoto morto pela repressão militar hondurenha. Os toques de recolher. O estado de exceção. Seriam parte de um filme da década de 1980. Porém, é uma reportagem do começo do século 21. Ensinando que as democracias liberais e o capitalismo, sempre quando estão ameaçados de perder um pouco de seu controle da pobreza, lançam mão da repressão. Esse é um ponto de consenso que já deveria estar morto no debate, se não houvesse ideólogos da paz americana que insistem na tese de um capitalismo que geraria benefícios humanos para todos.

 

O que deveria ser discutido com mais profundidade são as causas deste golpe, e não os fatos sobre os agentes políticos que precederão o drama hondurenho. No entanto, os fatos persistem, morra ou nasça gente, ou seja, os fatores econômicos que, de forma mais ou menos direta, influenciam ou criam cenários para o movimento político mais evidente. Em síntese, entender a luta de classes e as estruturas econômicas, que levaram à débâcle institucional hondurenha.

 

Honduras é um país dependente, ou melhor, subordinado. É pequeno em comparação com outros no jogo geopolítico. Porém, é simbólico para os velhos dramas latino-americanos. O conceito de dependente não significa um país que está dentro da escala menor da evolução social. Conforme o pensador brasileiro Reinaldo Carcanholo:

 

As características econômicas e sociais da Etiópia e do Haiti, em linhas gerais, não são o resultado de um não desenvolvimento capitalista ou de um subdesenvolvimento. Pelo contrário, são conseqüências diretas e inevitáveis do pleno desenvolvimento do regime mundial de capital; essenciais para que a Alemanha e os EUA sejam o que são. Desenvolvimento econômico de uns e subdesenvolvimento de outros são duas caras do mesmo processo global.

 

Honduras tem recursos naturais, água, ouro, terra e força de trabalho. Esse conjunto deveria ser sua riqueza, porém, é seu desespero. Os recursos naturais servem para ser tomados pelo capital internacional e a força de trabalho para produzir lucros extras aos países do centro.

 

Quais as conseqüências?

 

Por parte da força de trabalho são catástrofes humanas. Dependência da migração ilegal e perigosa; constante salário abaixo do nível de subsistência; inexistência de um estado de bem-estar social; violência e caos social. Isso cria massas de pessoas dispostas a tudo, se soubessem que têm chances de mudar as coisas. São gente perigosa para o capital. Essa é a realidade da América Latina. Porém, quanto mais perto se fica do império pior. América Central e Caribe são os lugares mais caóticos da América Latina. Os mais dependentes.

 

No nível dos recursos naturais, as conseqüências são o saque e a dependência; a instalação de mineradoras que contaminam a natureza; a especialização em alguns cultivos de alimentos para exportação, e não para a alimentação da população. Em resumo: a inexistência de soberania, isto é, de autodeterminação dos povos sobre seus territórios, e daí deriva a falta de soberania alimentar.

 

O que acontece com a elite? Por que aceita tão facilmente ser subordinada?

 

A burguesia interna é uma gerente do capital internacional. Foi posta pela conquista. Não tinha a menor intenção de desafiar seu amo, que no começo foi seu padrinho político-econômico. É difícil pensar que a burguesia centro-americana estaria disposta a se aliar a seu povo mestiço, com rostos dos originários, com as diferenças étnicas e o ódio de mais de um século. A isso se soma o medo dos processos revolucionários, de tirar a burguesia estrangeira e saírem eles mesmos do poder.

 

Para a elite a melhor via é: buscar participar do saque ao melhor que se possa encontrar, superexplorando a força de trabalho e ganhando algo na venda dos recursos naturais. Neste caos social e econômico, que financia a social-democracia européia e o consumismo estadunidense, cria-se um Estado em cacos. De um lado gente passando fome, de outro, o saque e a pouca produção de valor interno – que em sua maioria é mandado para o exterior.

 

O Estado é um mecanismo de completo assalto sobre os ossos que restam. Enquanto isso, os Estados nos países do centro estão estruturados sobre bases democrático-burocráticas desenvolvidas, com uma força de trabalho que deve ser convencida, em vez de submetida às chicotadas. Os Estados desses países devem domar sua classe, enquanto participa da maior parte do saque. A burocracia aproveita-se de cada segundo de seu poder para saquear e lucrar. Um Estado quase pessoal, oligárquico.

 

O anacronismo é regra e não exceção nesses Estados. Uma elite medrosa a qualquer discurso civilizado. Esse é o cenário que leva Zelaya a ser deposto. Ameaçou dar um pouco de civilização a um povo superexplorado. Um salário de 400 dólares. O pior foi querer ouvir essa mesma gente. Poderiam dizer muitas coisas que iam tocar nos anos de lucros feitos à base de chicotadas.

 

Assim, o golpe é a necessidade da burguesia interna de renovar seu poder e hegemonia. Uma dinâmica interna feita por gente real. Histórica. Que tem seu desenlace singular, pois não é uma história de linhas cartesianas. Esse mesmo país era o lugar mais ‘seguro’ para a burguesia nos anos de luta sangrenta em El Salvador, Nicarágua e Guatemala pelas mesmas razões acima descritas, quando o mais provável era ter nascido uma guerra em Honduras como nos outros países da faixa. Agora, são eles que desafiam a lógica do poder.

 

No entanto, os fatores econômicos dialogam com tal singularidade. Chegando no meio de uma crise econômica e hegemônica do capital e de seu país líder, Estados Unidos, deixam a história mais singular. Os estadunidenses devem e não devem apoiar o golpe. O fato de ter uma base militar em Honduras ensina que as coisas não passaram sem o conhecimento do falcão. Por outro lado, seria contraproducente para Obama em sua batalha para convencer o mundo sobre a necessidade de manter ataques bélicos ao Oriente Médio apoiar o golpe militar.

 

É importante, mais que tudo, tirar lições desse golpe antes de buscar desenlaces possíveis. Esse golpe é um aviso para os outros países centro-americanos que padecem dos mesmos fatos econômicos e históricos. Uma elite medrosa e violenta. Um caos social. Uma dificuldade de pôr em prática ganhos sociais mínimos para os trabalhadores.

 

Outro problema da experiência hondurenha é o personalismo do processo político. Zelaya ou não Zelaya. Isso dificulta a organização de uma força coletiva que tenha um projeto que expulse essa elite do poder e gere benefícios de fato para o povo que trabalha, que garanta soberania sobre o território e alimente de verdade a população.

 

Coisas assim. Visto como nada de esquerda por gente que vive nos países do centro, porém capaz de ameaçar esses mesmos privilégios do ‘mundo civilizado’. Hoje, é difícil convencer toda a população com Zelaya. Não há organização social de corpo vinda dos estratos baixos que formule projetos para além de Zelaya, que dispute a hegemonia política e militar. A questão para os países centro-americanos é: como reorganizar o movimento desde baixo, para que essa gente que não fala possa expulsar os que mandam a chicotadas?

 

É complicado prever o que acontecerá nessa história singular de Honduras, sob o risco de tentar ser futurologista. Porém, é difícil pensar que os EUA desempenharão um papel em favor do povo hondurenho. Se Zelaya regressar pelas mãos estadunidenses será outro, não mais aquele que queria dar voz pela primeira vez a essa gente que nunca foi escutada. Por outro lado, é de vital importância entender que este xadrez é jogado por peças que influenciam destinos centro e latino-americanos. Assim, entender as características do processo hondurenho é necessário para que possamos antecipar fatos históricos possíveis na região, por serem países tão semelhantes em sua historicidade. Filhos de uma mesma miséria. Poderíamos refazer a frase de Francisco Morazan*: "O mais autoritário hondurenho é o mais autoritário salvadorenho".

 

* liberal centro-americano que lutou no século XIX pela unificação centro-americana e que disse: "O melhor salvadorenho é o melhor hondurenho".  

 

Venâncio de Oliveira é economista e trabalha no CEICOM (Centro de Investigación sobre Inversión y Comercio) – http://www.ceicom.org/.

Contato: venancio.comuna(0)hotmail.com

Traduzido por Gabriel Brito, jornalista.

 

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Última atualização em Terça, 28 de Julho de 2009
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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