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Duas boas notícias contra Belo Monte Imprimir E-mail
Escrito por Rodolfo Salm   
Qui, 09 de Julho de 2009
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Com assinaturas de 94 caciques e outras lideranças indígenas, confira a seguir a declaração do povo Kayapó resultante de uma reunião na aldeia Kikretum (PA) que, segundo as informações disponíveis, foi chamada pela Eletrobrás e Eletronorte para discutir com os índios a proposta da construção da hidrelétrica de Belo Monte:

 

"Reunidos em assembléia extraordinária, nos dias 17, 18, 19 de junho, conversamos bastante sobre a barragem de Belo Monte. Finalizando a assembléia após a explanação por parte dos representantes da FUNAI de Brasília e dos engenheiros da Eletronorte, nos posicionamos mais uma vez com toda determinação contra a barragem de Belo Monte. Como em fevereiro de 1989 e em maio de 2008 em Altamira. Ngôbêjé két. Byti-re tin rã·ã rã·ã (Não à barragem, Xingu vivo para sempre, em tradução livre do idioma Mebengokré)."

 

Mas nem tudo são boas notícias. Fui informado de que o índio Paulo Paiakan estava presente, defendendo a construção de Belo Monte, junto com outros índios a favor, apesar do fato de a grande maioria estar contra. Isso é lamentável, pois há vinte anos Paiakan se destacou como a grande liderança responsável pela suspensão do financiamento do Banco Mundial para a construção de Kararaô (hoje rebatizada Belo Monte). Mas merece uma explicação.

 

Trata-se de um índio da mais alta linhagem do povo Kayapó. Em 1989 foi alçado, junto com o Sting, à categoria de "superstar ambiental global" na luta pelo Xingu. Poucos anos depois, às vésperas da Eco-92, os Kayapó se preparavam para marcar importantes posições na luta pela preservação da floresta e Paiakãn, como não poderia deixar de ser, tinha importância fundamental nesta luta. Mas poucas semanas antes do encontro internacional, acabou sendo injustamente acusado de "estupro de uma estudante" em uma capa da Veja que fez história e desestabilizou o movimento indígena. O que ele ganhou ao impedir o financiamento do Banco Mundial, num gesto que talvez tenha representado o salvamento da maior área de floresta em toda história da Amazônia e que deveria tê-lo tornado um dos maiores ambientalistas de todos os tempos? A calúnia, a perseguição e o confinamento na Terra Indígena, com a ameaça de prisão caso saísse de lá. Aí o Sting desapareceu e as ONGs ambientalistas não lhe deram a devida importância por seu papel histórico na luta contra Belo Monte (isso quando não viraram-lhe as costas simplesmente). Os anos se passaram e hoje os barrageiros conseguiram a liberdade para o líder indígena em troca de seu apoio para a construção da usina. Considerando o que ele passou é difícil criticá-lo por seu atual posicionamento.

 

Há exatamente um ano, escrevi um artigo (O que pensam os índios?), dando seqüência a uma entrevista sobre as conseqüências dos projetos hidrelétricos no rio Xingu, concedida pelo professor da Unicamp Oswaldo Sevá Filho, e ao artigo "A hidrelétrica amaldiçoada", do jornalista paraense Lúcio Flávio Pinto, sobre o ataque dos Kayapó ao engenheiro da Eletrobrás no último protesto de Altamira. Em meu texto do Correio critiquei o artigo de Lúcio Flávio Pinto por conta da seguinte passagem, que considera a "manifestação do cacique Bepe Kamró (Jair) Kayapó, da aldeia Topkrô, que desaprovou a agressão dos guerreiros e colocou-se a favor da usina, como evidência de que começavam a surgir fissuras num movimento (dos índios contra as hidrelétricas do Xingu) até então aparentemente monolítico". Discordei da opinião porque, como escrevi na ocasião, há muito havia percebido, pelo meu contato com aqueles índios, que eles "divergem sobre tudo, seja dos brancos ou entre eles mesmos, pois, para cada idéia que um grupo tenha, há sempre o grupo contrário e os debates são intermináveis".

 

A opinião dos índios parece ser muito importante para os barrageiros, dado seu esforço para distorcê-la e manipulá-la. Um exemplo curioso vem do "Blog do Mércio" na página "Índios Kayapo podem aceitar Belo Monte", em que o ex-presidente da FUNAI Mércio Pereira Gomes republica meu artigo e cita Lúcio Flávio Pinto. Mas o que escrevi acabou completamente distorcido com o objetivo de reforçar a crença de que os índios estão mudando de opinião sobre a hidrelétrica no baixo rio Xingu: "Os escritores são conceituados e não estariam falando coisas sem ter alguma base". Pois não só não estão como deixaram isso bem claro na carta acima transcrita. A minha "base" é o contato que tive com os índios, inclusive no período em que Mércio presidiu o órgão indigenista. É engraçado agora ser chamado de "conceituado" (especialmente para defender uma idéia contrária à minha), pois, no período de sua administração, tive boicotados pelos seus subordinados diretos meus projetos de segurança alimentar para os Kayapó e não havia nada que pudéssemos fazer a respeito. De toda forma isso não importa agora e o que lhe interessa mesmo é a construção da usina.

 

De toda forma, depois das longas discussões recentemente desenvolvidas na aldeia Kikretum, temos hoje uma carta clara e manifestadamente contra a construção da usina. O real significado disso, porém, não é claro. A reunião com os índios é um requisito constitucional para a construção da barragem, mas trata-se de reuniões consultivas e não deliberativas. Ou seja, agora os barrageiros já têm mais um dos documentos dos quais precisam para avançar em sua empreitada. E, legalmente, não precisam dar atenção ao que está escrito nele, podendo simplesmente ignorá-lo e arquivá-lo solenemente.

 

Então a boa notícia deve ser relativizada e na melhor das hipóteses mantém todas as coisas nos mesmo lugar, uma vez que os Kayapó já eram e apenas mostram que continuam convictos na luta contra Belo Monte (e isso tende a ser ignorado).

 

Mas ainda tenho uma outra notícia, essa sim realmente nova e boa. E ela não vem dos índios, mas, inesperadamente, do campo adversário: a grande mídia. O jornal O Globo publicou na edição do dia 27 de junho o breve comentário que reproduzo abaixo, mais tarde republicado em vários jornais do país, na coluna de Anselmo Goes (aquele gordinho bigodudo e meio debochado que escreve aquilo que os outros colunistas "mais sérios" não têm coragem de escrever):

 

"O senador petista Delcídio Amaral, que andou defendendo a construção da usina de Belo Monte, anda com um pé atrás em relação ao negócio. É que as contas feitas pela meia dúzia de interessados no negócio mostram que a construção da hidrelétrica pode sair mais cara do que se imaginava. Os orçamentos feitos tanto por empresas nacionais quanto estrangeiras variam entre R$ 22 bi e R$ 24 bi. Na prática, este seria quase o custo de uma usina do porte de Itaipu, que gera o dobro dos 4,3 mil megawatts, em média por mês, projetados para Belo Monte. Sem levar em conta que Itaipu está na região Sul e Belo Monte no meio da Amazônia".

 

Pela primeira vez na grande imprensa se vê algo mais próximo da potência real projetada para Belo Monte (ao invés dos 11 mil megawatts do período mais chuvoso que se apregoa que seriam válidos para o ano todo) e sobre os verdadeiros custos dessa obra faraônica e desastrosa, que ainda pode ser evitada.

 

Pode parecer pouco para conter a gana insaciável de uma quadrilha de barrageiros assassinos que pretende desfigurar todos os rios da Amazônia, mesmo além dos limites do território brasileiro (vide o artigo recente do professor Marc Dourojeanni, da Universidade Nacional Agrária de Lima, Peru, sobre os planos do Brasil de construir e operar seis grandes hidrelétricas em território peruano). Mas, com o fim das chuvas no mês passado, as águas do Xingu estão baixando rapidamente e revelando suas magníficas corredeiras e praias de areia branca da região de Altamira. Isso me traz uma esperança que é fundamental para afastar o fantasma do medo de que estas maravilhas da natureza sumam para sempre sob um lago imundo dentro de poucos anos e aproveitar o verão com entusiasmo redobrado na luta pela preservação.

 

Rodolfo Salm, PhD em Ciências Ambientais pela Universidade de East Anglia, é professor da Universidade Federal do Pará.

 

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Última atualização em Segunda, 13 de Julho de 2009
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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