EUA: teste de fogo ante situação institucional de Honduras

0
0
0
s2sdefault

 

Nos últimos anos da Guerra Fria, a América Central destacou-se no cenário internacional por causa da emergência de movimentos políticos populares opostos à tradicional atuação norte-americana naquela área. A referência a Cuba como símbolo de resistência desde os anos 1960 aos ditames da política externa estadunidense era obrigatória, porque a partir do fim da Guerra Hispano-Americana, em agosto de 1898, Washington passou a considerar aquela região como uma zona de intervenção exclusivamente sua, ao amparar-se na Doutrina Monroe.

 

Entre todas as organizações atuantes nas décadas de 1970 e 1980 naquela área, a de maior relevo foi a da Nicarágua, por intermédio da Frente Sandinista de Libertação Nacional, fundada nos anos 60. Em 1979, os sandinistas apearam do poder o presidente Anastásio Somoza, o maior representante da oligarquia rural. Desde 1937, a família Somoza influenciava diretamente o comportamento sócio-econômico do país, sendo a política externa nicaragüense convergente com os interesses da norte-americana.

 

Com a ruptura institucional, a oposição aos sandinistas, conhecida como os contra (-revolucionários), organizou-se a partir do auxílio financeiro da Agência Central de Espionagem (CIA), tendo por base operacional dois países: Costa Rica e Honduras, sendo este governo uma ditadura militar quase sem interrupção desde 1963.

 

Contudo, em janeiro de 1982, a população assistiu à posse de um dirigente democraticamente eleito. Este processo repetir-se-ia até o fim de junho do presente ano, quando um golpe militar depôs o presidente Manuel Zelaya, do Partido Liberal, sob a alegação de desrespeito a uma decisão do Supremo Tribunal de Honduras. Exilado à força na Costa Rica, Zelaya aguarda a definição de seu destino político.

 

A Corte havia decidido não ser possível a realização de uma consulta popular relativa à reeleição presidencial, em vista de restrições da legislação eleitoral. Zelaya, porém, estava decidido a efetivá-la, o que desencadeou a intervenção militar e, portanto, a séria crise institucional, dado que nem sequer se concedeu ao vice-presidente o direito de ser empossado. Em seu lugar, assumiu o titular do Congresso Nacional, Roberto Micheletti, da mesma agremiação partidária, porém adversário político do dirigente deposto.

 

Assim, consumou-se o primeiro golpe de Estado militar na região desde o fim da Guerra Fria. Corretamente, os países latino-americanos protestaram diante do desrespeito à legislação hondurenha. Todavia, reverberações da dicotomia bipolar ainda persistem: o líder da quartelada, general Romeo Vasquez, foi aluno do atual Instituto de Cooperação de Segurança Americana, mais conhecido no século passado como a Escola das Américas, local em que se treinaram milhares de militares e policiais de extrema-direita para contraporem-se em seus países a movimentos populares, conectados ou não com a União Soviética.

 

Ainda que tradicionalmente desprovido de importância econômica e política, Honduras adquiriu, ao menos de modo momentâneo, importância simbólica para a política externa norte-americana, em vista de seu histórico desabonador de apoio, mesmo velado, a intervenções no continente. Para tanto, bastaria evocar o golpe militar na Venezuela de 2002, aceito como consumado por países também como a Espanha, mas rejeitado de maneira inédita pela contestação popular interna.

 

Desta feita, nem Estados Unidos, nem União Européia omitiram-se diante do golpe, ainda que ambos não manifestem entusiasmo pelo posicionamento político do presidente defenestrado, próximo da Venezuela de Hugo Chávez, ao ingressar na ALBA e na Petrocaribe, o que contrastou com a postura anterior do país, de adesão ao CAFTA desde 2004. Outrossim, isto explica a ausência de um auxílio específico para a reversão da situação desfavorável a Zelaya, entregue à sorte pelo seu próprio partido político.

 

Contudo, a fim de permitir à opinião pública da região uma visão do presidente Obama diferente da de seu desastrado predecessor, é necessário que a diplomacia estadunidense vá mais adiante, ao anunciar, por exemplo, a possibilidade de interrupção imediata do auxílio militar ou a suspensão de novos investimentos – os Estados Unidos respondem por cerca de 3/5 deles em Honduras.

 

Tais ações reforçariam aquelas em curso pela Organização dos Estados Americanos (OEA) e seriam mais efetivas, postas as suas conseqüências imediatas para a frágil economia daquele país, um dos mais pobres da América Latina. Assim, elas poderiam sinalizar que a política externa do governo Obama diferenciar-se-ia da de Bush.

 

Além do mais, seria uma forma de contra-arrestar a influência bolivariana no continente e não involuntariamente ampliá-la, tendo em vista que uma eventual indefinição de posicionamento de Washington soaria como um aval ao golpe praticado.

 

Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

 

{moscomment}

Para ajudar o Correio da Cidadania e a construção da mídia independente, você pode contribuir clicando abaixo.

Relacionados