Reflexões de um aposentado

 

Nem todas as pessoas reagem da mesma forma diante da aposentadoria. Alguns celebram este fato com alegria, o que me parece muito salutar. Outros recebem a aposentadoria como epílogo, com um certo sofrimento, atitude que não é de forma alguma aconselhável. De minha parte tive um sentimento de vazio quando me aposentei de todo. Senti-me desprovido de uma identidade profissional.

 

Ao preencher a ficha de um hotel, em Santa Catarina, diante do item profissão, acudiu-me a dúvida. Que profissão vou colocar aqui? Juiz aposentado, professor aposentado? Isto não é profissão. A condição de aposentado não desmerece ninguém. Pelo contrário, é muito honroso conquistar uma aposentadoria após décadas de trabalho. Contudo, a situação de aposentado não define uma profissão.

 

Instantaneamente acudiu-me uma inspiração e escrevi: Professor itinerante. Não que já fosse realmente um professor itinerante, mas aquela autoconstatação traçou para mim um roteiro pós-aposentadoria: eu seria um professor itinerante.

 

É isso que tenho sido. Ando a rodar pelo meu estado e pelo Brasil ministrando seminários e proferindo palestras. Nessa minha itinerância percorri todos os estados brasileiros, exceto Tocantins e Amapá.

 

Os temas mais freqüentes dos seminários têm sido: Hermenêutica Jurídica e Ética das profissões jurídicas. As palestras isoladas têm abrangido um leque mais vasto de assuntos.

 

Se o aposentado sentir-se feliz, sorvendo simplesmente a aposentadoria, essa atitude não merece qualquer reparo. Ele fez jus ao que se chama ócio com dignidade (otium cum dignitate).

 

O pedagogo tcheco Comenius ensina: "No ócio, paramos para pensar. Ou seja, no ócio paramos externamente para correr no labirinto do autoconhecimento, para investigar nossa condição de seres humanos. Não se trata de passar o tempo, de perder o tempo, mas de penetrar no tempo (no instante eterno) para mergulhar no essencial. Não é tempo perdido, é sagrado e consagrado. Tempo humanizador".

 

Usei o verbo no presente do indicativo - Comenius ensina, e não no passado, Comenius ensinou - embora se trate de um escritor morto, porque a sabedoria não morre.

 

Se quem se aposentou pode desfrutar da aposentadoria serenamente e com espírito livre, numa situação inversa haveremos de ponderar que a aposentadoria não tem de, necessariamente, marcar um encerramento de atividades.

 

É também saudável continuar trabalhando se essa atividade suplementar traz alegria. O aposentado tem experiência e pode transmitir experiência, o que resulta num benefício para a sociedade.

 

Triste é constatar que, em algumas situações, a aposentadoria é insuficiente para os gastos da pessoa e de sua família, obrigando o aposentado a trabalhar para complementar o parco benefício que lhe é pago. Nestas hipóteses, estamos diante de uma injustiça, de um grande desrespeito ao valor do trabalho e à dignidade da pessoa humana.

 

Os pífios proventos, que castigam algumas categorias de aposentados, atentam contra a Constituição Federal, pois que esta assegura aos aposentados em geral a irredutibilidade do valor dos benefícios (art. 194, parágrafo único, inciso IV). Sempre que se aumenta a diferença entre o que ganham ativos e inativos agride-se a Constituição na sua letra e no seu espírito.

 

Se nos socorrem os princípios de Justiça Social que alimentam a Constituição, jamais a Administração discriminará o aposentado, mormente no que se refere a proventos. Se alguma diferença devesse ser estabelecida entre ativos e inativos seria para aquinhoar com favorecimento os inativos, uma vez que a idade provecta cria gastos com saúde que normalmente não alcançam os servidores mais jovens.

 

No meu caso não continuei trabalhando para suplementar renda, mas sim para atender a um apelo existencial.

 

Gosto de viajar, não tenho medo de avião, alegra-me conhecer lugares e pessoas, minha mulher também gosta e aí vamos nós, dois aposentados, desbravando o Brasil.

 

João Baptista Herkenhoff, livre-docente da Universidade Federal do Espírito Santo, é hoje um professor itinerante.

E-mail:Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Homepage:http://www.jbherkenhoff.com.br/

 

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Comentários   

0 #2 Ser aposentado não diminui ninguémPablo de Oliveira Lopes 11-07-2009 13:51
Num país que ainda não sabe valorizar os idosos, a aposentadoria causa certa insegurança em algumas pessoas. O medo de ganhar menos e de depender da ajuda dos familiares faz com que diversos cidadãos reflitam sobre o momento de parar de trabalhar.
Gasta-se muito com remédios e plano de saúde quando se é mais velho. E isto custa caro, caríssimo. Como pagar tudo isso com quantias tão pequenas?
Após longos anos de trabalho, é justo que um profissional tenha momentos de descanso. Não há vergonha nisso, mas há incerteza, pois vivemos no Brasil.

Pablo de Oliveira Lopes
Médico
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0 #1 Armando 10-07-2009 16:24
Numa sociedade que cultua o mito da eterna juventude - de cujo paroxismo Michael Jackson é a expressão mais evidente - a condição de aposentado se torna paradigmática: de um lado o aposentado é estigmatizado pela idade e a sua suposta inutilidade, pois é visto como improdutivo - e então relegado a um status de cidadão de segunda classe.
De outro lado - como as pessoas estão se aposentando com menos idade, pelo aumento da expectativa de vida - percebe-se uma certa inveja, no plano do subconsciente, da ociosidade, disponibilidade de tempo e a virtual liberdade, das quais o aposentado poderia se permitir usufruir - sobretudo levando-se em conta que estes seriam atributos que corresponderiam, privilegiadamente, a esta mesma condição mitificada da \"juventude\". O que conduz, igualmente, a um outro tipo de discriminação, e talvez explique a falta de entusiasmo das categorias da ativa em apoiar as reinvindicações por isonomia de proventos.
Como é típico do individualismo exacerbado na mentalidade vigente, cínica e burra, esquecem que também poderão vir a ser aposentados um dia.
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