Sarney, Minc, Dilma e a hidrelétrica de Belo Monte

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Há poucas semanas eu protestava contra o absurdo de o governo federal ter marcado já para setembro ou outubro a licitação para a construção da hidrelétrica de Belo Monte, uma vez que o componente antropológico do estudo de impacto ambiental ainda não está sequer concluído. O componente antropológico é a parte que trata do impacto da barragem sobre os povos que vivem na região, como os indígenas, e é um dos aspectos mais sensíveis da questão. Apesar disso, ao contrário da maior parte do Brasil, onde só havia motivos para se lamentar no Dia Mundial do Meio Ambiente, aqui no Xingu, o dia 5 de junho teve manifestações em clima de festa por conta da ordem da Justiça de Altamira (PA) que, atendendo ao pedido do procurador Rodrigo T. da Costa e Silva, mandou suspender o licenciamento da obra até que este trabalho seja concluído, como manda a lei.

 

Mais recentemente, outra boa notícia: o funcionário do Ibama que aceitou indevidamente os estudos de Belo Monte foi indiciado por improbidade administrativa pelo Ministério Público Federal no Pará. As vitórias foram comemoradas com queima de fogos em vários pontos da cidade, mas ninguém aqui se ilude. Apesar dos vivas ao Ministério Público do Pará, sabemos que se trata apenas de um breve alívio para o Xingu. Como ser mais otimista se o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, já disse que derrubaria esta liminar em poucos dias e que a usina hidrelétrica vai receber o licenciamento ambiental a tempo de participar do leilão de energia, previsto para setembro?

 

Enquanto isso, circulam pela cidade de Vitória do Xingu montes de homens de capacete demarcando a área onde se pretende construir 2.500 casas para abrigar os trabalhadores que levantarão a usina, sinal evidente da ilegalidade, afoiteza, e da gente "não oficial" a serviço das empreiteiras, já fazendo o serviço sujo para avançar ao máximo as preliminares de forma a tentar tornar a desgraça irreversível. Mais material para uma boa denúncia aos Ministérios Públicos Estadual e Federal, aos juízes e ao próprio Ibama, uma vez que este tipo de atitude está sendo tomada antes mesmo da concessão da licença prévia, e muito antes da licença de instalação.

 

A grande imprensa noticiou sem destaque a decisão da Justiça. Tanto a Folha quanto o Estadão publicaram a notícia apenas nos cadernos de economia. A Folha desqualificou a questão indígena como um "entrave" para a construção da usina e ambos os jornais repetiram a falácia de que Belo Monte terá uma potência de 11.181 MW. Na verdade esse valor só poderia ser alcançado pela usina durante um breve período do ano. Devido às fortes secas do Xingu, na maior parte do tempo Belo Monte seria a grande hidrelétrica mais improdutiva do mundo, considerando-se a relação entre a produção de energia e a capacidade instalada.

 

A última do Minc foi dizer à ministra Dilma Roussef que vetará o projeto para a construção da usina hidrelétrica de Torixoréu (MT) – da qual nem se ouvia falar – e, em troca (!), dará liberação da licença ambiental prévia para a Hidrelétrica de Belo Monte, assim que a liminar for cassada. É como se resolvesse entregar o nosso braço direito aos tubarões, em troca de um dedo da mão esquerda. Recentemente falou que "nunca se deu tanta licença na história desse país", adaptando o lema do chefe ao seu triste papel "na história deste país". Segundo um mal informado Minc, "o juiz acatou pedido de uma ONG contra a audiência pública alegando que não havia sido entregue um estudo sobre a questão indígena. E o estudo foi entregue". Só que o estudo não havia de fato sido entregue. E o Ministério Público do Pará não é uma ONG. Ainda segundo o ministro, "Belo Monte é um problemão antigo no quesito ambiental e sempre vai haver conflito, senão é piquenique sem formiga". Antes de assumir, o ministro dizia que não entendia nada de Amazônia. Então suponho que ele não imagina o tanto de formigas que haverá nesse seu piquenique no Xingu, nem o grau de ferocidade delas. E serão tantas que infernizarão a vida daqueles que pretendem vir aqui "fazer um lanche".

 

Não é à toa que o Xingu é o grande rio dos índios, onde eles mantiveram mais terras do que em qualquer lugar. Não foi por causa da benevolência do conquistador, mas pela ferocidade destes povos quando o assunto é defesa de suas terras. E agora eles vão novamente se levantar. O governo que insistir em construir a hidrelétrica de Belo Monte inevitavelmente protagonizará cenas tristes como aquelas recentemente vistas no Peru, com índios sendo abatidos pela polícia de helicóptero. E este pode ser o destino de um possível governo de Dilma Rouseff, que está investindo fichas neste projeto arriscado.

 

Então, por que a ministra Dilma investe tanto na construção da hidrelétrica de Belo Monte? A força política da ministra vem do presidente Lula, que tem sua maior base de apoio no Nordeste. Belo Monte é uma peça fundamental do plano de conquista e colonização da Amazônia através da Rodovia Transamazônica, que é a entrada do Nordeste para esta região, diferentemente das BR-163 e 363, que partem do Sul para o Norte. Assim, esta obra se tornou fundamental para alavancar sua candidatura à presidência. Politicamente falando seria mais sensato, até para evitar as tais cenas de massacres de índios, investirem primeiro na construção das hidrelétricas do Madeira, que já estão em uma fase mais avançada e que já serão um desastre de grandes dimensões sob o ponto de vista ambiental. Dificilmente o governo teria como bancar politicamente estas grandes obras ao mesmo tempo. Mas Dilma já está totalmente atrelada a esta idéia. Por isso sinto calafrios quando vejo suas percentagens de intenção de votos crescerem.

 

Além dos custos sociais e ambientais discutidos, os custos propriamente econômicos de Belo Monte vão crescendo e se revelando estratosféricos. A última notícia é que a nova estimativa do custo da obra é R$ 30 bilhões, segundo a Alstom, gigante fornecedora de equipamentos para usinas hidrelétricas, que já está negociando com as empresas interessadas em participar da disputa da usina. Agora, as empresas concorrendo para entrar no leilão, estão admitindo que o custo da energia deva ser bem mais alto do que o das hidrelétricas do rio Madeira. Isso vai ficando mais claro à medida que empresas e bancos começam a fazer as contas de modo um pouco mais realista.

 

Pode-se argumentar que este é o custo da instalação das bases de um país moderno e desenvolvido. Mas está longe de ser o caso aqui. A Alstom é investigada por corrupção na Suíça, na França e no Brasil. Recentemente foi condenada no Tribunal de Contas de São Paulo pelo pagamento de propinas a políticos em troca de favorecimentos em encomendas públicas para as obras do Metrô. A Eletronorte, a Eletrobrás, o Ministério das Minas e Energia, a ANEEL, a Camargo Correa e a Elabore estão tomados por mentirosos doentios que nos empurram goela abaixo este projeto catastrófico e injustificável, inclusive financeiramente falando. São paus-mandados do grupo de Sarney, que hoje nos envergonha com os escândalos no Senado. Mas aquilo que vemos no noticiário na TV é apenas a ponta do iceberg. Apesar de toda polêmica em torno da construção de hidrelétricas no Xingu, em 2005 o Senado aprovou a construção de Belo Monte em regime de urgência. A relatoria ficou a cargo de quem? José Sarney. É essa turma que se perpetuaria com a eleição de Dilma Roussef, que também tornaria mais provável a tragédia da construção desta hidrelétrica no rio Xingu.

 

Rodolfo Salm, PhD em Ciências Ambientais pela Universidade de East Anglia, é professor da Universidade Federal do Pará.

 

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Comentários   

0 #7 Em busca de energia alternativaosvaldo 21-04-2010 14:11
Hoje li uma noticia de que o Brasil desperdiça entorno de 10% do que gera de energia, ou seja 9 bilhoes de reais, tudo isto é visto quando vamos a hospitais creches onde a luz em pleno dia é mantida acessa em alguns pontos ou ate mesmo em consultorios de medicos quando estes estao em horario de almoço ou não tem atendimento, isto sem contar em favelas onde a população com famigerados gatos roubam energia e desperdiçam. isto sem falar em eletro e eletronicos ineficiantes etc...
mesmo tendo um panorama melhorando em termos de economia não nos damos o luxo de pensar em melhorar, mas não é mais facil destruir do que tornar aquilo que temos em eficiente.
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0 #6 yasmin 10-12-2009 06:38
Parabéns pelo artigo!A minha última esperança é que realmente exista inferno; aí esse pessoal (alcoa, governo da direita petista e empreiteiros),que quer dinheiro a qualquer custo, vão queimar durante bastante tempo, de preferência com vermes lhes comendo bem devagarinho...
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0 #5 TRANSAMAZONICA/HIDROELETRICA BELO MONTEROGÉRIO MEDEIROS CARVALHO 08-12-2009 07:34
ESTOU CANSADO DE OUVIR UM MOTE DE NOTICIAS SOBRE OS DOIS ASUNTOS, BOAS E RUIS , MAS COMO SEMPRE A LENTIDÃO DESSE PAIS NÃO VEJO NADA ACONTECENDO, EU FICO COM PENA DE3 MIN E ESSE POVO QUE VEIO PARA UM FIM DE MUNDO DESSE ,SEM ASFALTO ,SEM INVESTIMENTO NEHUM,QUANDO VEM UM IVESTIMENTO TIPO A HIDROELETRICA TEM PESSOAS CONTRA , SOCORROOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO OOOOOOOOOO, TEM ALGUEM QUE PODE AJUDA ESSE POVO SE PRONUNCIA POR FAVOR
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0 #4 Sergio Augusto 27-11-2009 08:44
Oque mais me preocupa não é a Usina mas o fato que pessoas como voces não observam que setores reacioinarios desejam mesmo é que o Brasil seja etenamente de terceiro mundo se uma usina de onze milhoes de kilowats fica inviavem que façam cindo usinas de um milhão ou construam usinas nucleares mas isso num pode né AS WWF da vida ficam fulas eu outro dia falei pra um integrante dessa ONG e disse NOS EUA AS FLORESTAS DE CONIFERAS NÃO EXISTEM MAIS E O QUE TEM É APENAS 14% DELAS E CONTINUAM A SEREM DESMATADAS E VOCES NÃO FAZEM NADA. e sabe oque o americano me disse? SIM NÃO FAZEMOS NADA E SORRIU PARA MIM .
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0 #3 Mauricio 28-10-2009 15:25
Trabalho na construção de 1 PCH ( Pequena Central Hidreletrica) Posso dizer que o desmatamento por aki é grande, Imagine em uma UHE.
Deve ter proporções catastroficas. A realização deste empreemdimento será 1 grande erro na historia da humanidade.
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0 #2 marcos lima 13-10-2009 02:04
Bom trabalho Rodolfo, gostaria de poder fazer alguma coisa contra esse absurdo.
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0 #1 gilmar 03-09-2009 13:15
caríssimo. a vazão mínima do xingu na seca qual é? quais são as áreas índígenas atingidas pela usina? não me fale de area de perambulação pois indio não anda em área derrubada. me diga o que sua universidade fez até agora para dinimir o crasso desmatamneto através da transamazonica? conheço-a desde piaui ate itaituba, conheco toda cuiaba santarem , rio maria xinguara, canaa dos carajás. pará. do jeito que esta o pará vai virar pasto. belo monte vai desmatar quanto?não deixe-nos sem infomações. ah, vou construir belo monte sou. ja trabalhei geologo. amo altamira desde 81, adoro o rio xingu.
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