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Estado palestino: um jogo de paciência Imprimir E-mail
Escrito por Luiz Eça   
Sexta, 19 de Junho de 2009
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Se havia alguma esperança de que o "premier" Netanyahu fosse mais permeável à idéia de um Estado palestino, elas se perderam no seu histórico discurso na Universidade Bar-Ilam, em Tel-aviv.

 

O máximo que ele considerou aceitável foi a criação de uma entidade fraca, sem exército, sem o direito de controlar suas fronteiras, seu espaço aéreo e até de celebrar tratados com os países que desejasse. Em suma: sem soberania, um não-estado, portanto.

 

E isso Bibi considera uma concessão, pois os palestinos, segundo ele, não teriam direito à independência já que a Cisjordânia (a "Judéia" e a "Samaria" no seu entender) seria parte de Israel, o "lar nacional dos judeus". Para Netanyahu "nós precisamos aceitar a verdade. A verdade é que na região do nosso lar nacional, no coração do lar nacional judeu, agora vive uma grande população de palestinos". Daí sua proposta, necessária para lidar com os problemas causados por esses "estrangeiros".

 

Netanyahu se diz disposto a discutir com os palestinos. Mas não sem antes excluir o Hamas, pois "Israel não se sentará à mesa de negociações com terroristas que visam sua destruição", esquecendo que, na verdade, quem tem feito mais para destruir o outro foi seu país. Haja vista o que aconteceu em Gaza, primeiro submetida a impiedoso cerco, depois a invasão que matou 1.500 pessoas – com o objetivo declarado de eliminar o Hamas.

 

Exige ainda como pré-condição para começar a negociar o reconhecimento pelos palestinos de Israel como Estado judaico. O que significaria renunciar ao direito de retorno dos árabes expulsos da Palestina.

 

Por fim, deixou claro que não interromperá a expansão dos assentamentos judaicos. Foi esta a resposta israelense ao discurso de Barack Obama, na Universidade do Cairo, quando defendeu a idéia de um Estado palestino independente e viável, o fim dos novos assentamentos e uma solução para os palestinos expropriados por Israel.

 

Obama pareceu incoerente quando qualificou as afirmações de Netanyahu como "um importante passo à frente". O fato é que a simples aceitação de negociar um Estado palestino com os árabes, embora com termos e pré-condições desanimadoras, representa o início do processo. Sua continuação depende de outros passos, de outros protagonistas: os palestinos e Obama.

 

Já faz tempo que o Hamas parou de lançar ataques a Israel. E seu líder, Ismail Hanya declarou recentemente que o Hamas aceitará um Estado palestino na Cisjordânia. O que equivale ao reconhecimento de Israel, pois antes exigia que esse Estado incluísse também o território israelense. Como os judeus não têm problemas com o Fatah, não há por que esperar mais pelas negociações.

 

A estratégia das partes também está definida. Netanyahu pretende resistir ao máximo, renovar suas exigências, manter-se intransigente, pois aposta no apoio da opinião pública do seu país e nas pressões dos políticos americanos, tanto republicanos quanto democratas, bem como dos poderosos lobbies pró-Israel. Confiando em que, no frigir dos ovos, Obama nunca terá força para pressionar Israel com ameaças de retaliações.

 

Obama vai num caminho oposto. Insiste na sua tese dos dois Estados, avançando cada vez mais em suas posições. No Cairo, pela primeira vez, anunciou que a solução dos dois Estados era também do interesse dos Estados Unidos. Robert Gibbs, seu porta voz, reiterou que o presidente "estará comprometido com um Estado palestino, no lar histórico dos dois povos", contestando Netanyahu, que afirma ser a Palestina somente dos judeus. E, nesta semana, Hilary Clinton confrontou o ministro das Relações Exteriores, Avigdor Lieberman, afirmando que o congelamento total dos assentamentos era "importante e essencial". Isso depois de negar que o ex-presidente Bush tivesse concordado verbalmente com a ampliação dos assentamentos, conforme alegava Lieberman.

 

Como o "premier" israelense, Obama visa conquistar a opinião do povo israelense, dos políticos dos Estados Unidos e dos judeus americanos. Joga com a pressão desses públicos para conduzir Netanyahu a fazer concessões pelo menos razoáveis. Começa a ter êxito. De acordo com pesquisa do INSS, 42% dos israelenses já se opõem à expansão dos assentamentos; 41% apóiam, "mas não se resultar num confronto com os Estados Unidos".

 

Enquanto isso, os palestinos esperam. Dão um tempo para Obama conseguir avanços mais substanciais. Que poderiam ser, além da interrupção dos assentamentos, o desbloqueio de Gaza, inexplicavelmente abandonada à arbitrariedade do exército de Israel.

 

Mas a paciência dos palestinos não poderá ir muito mais longe. Não é fácil conter a ira dos elementos mais radicais do Hamas e movimentos semelhantes. Netanyahu já está jogando com isso. Em 27 de maio, soldados e policiais israelenses atacaram uma casa em Hebron e mataram Abed Dudin, destacado militante do Hamas. A alegação foi a de sempre: autor de atos terroristas contra a população de Israel. Investigado, julgado, condenado e executado pelo Mossad e o exército, em total desrespeito aos princípios do direito.

 

Uma retaliação da parte do Hamas seria um excelente pretexto para Netanyahu interromper o processo de paz antes mesmo do seu início. Ela pode não acontecer agora. Mas ninguém garante que não se repetirá um incidente semelhante, ameaçando todo o processo.

 

É muito arriscado. Obama tem de se apressar.

 

Luiz Eça é jornalista.

 

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Última atualização em Quarta, 24 de Junho de 2009
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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