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Europa: direita, volver! Imprimir E-mail
Escrito por Frei Betto   
Sexta, 19 de Junho de 2009
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Eleitores de 27 países que configuram, hoje, a União Européia elegeram, a 7 de junho, os deputados do Parlamento europeu, sediado em Estrasburgo, França.

 

O nível de abstenção foi alto: 57,06% dos eleitores preferiram não comparecer às urnas. Comprova-se a progressiva despolitização dessa sociedade em que as pessoas estão mais interessadas em adquirir um carro novo do que conquistar direitos sociais. Na Europa, o consumismo venceu o comunismo...

 

Das 763 cadeiras do Parlamento europeu, 263 passam a ser ocupadas pelos partidos conservadores. Sem contar os eurodeputados britânicos, tchecos e poloneses que formam, à parte, a bancada dos eurocéticos, e sempre votam com a direita.

 

Os socialistas (leia-se: social-democratas) detinham 217 cadeiras. Ficam, agora, com apenas 161. Os ambientalistas ampliaram sua bancada de 43 para 52 cadeiras, liderados pelo ex-líder estudantil francês (maio de 1968) Daniel Cohn-Bendit.

 

Na bancada francesa de euroecologistas figura José Bové, líder camponês que, anos atrás, participou de atividades do MST no Brasil.

 

Os conservadores obtiveram expressiva vitória nos seguintes países: Reino Unido, Irlanda, Holanda, Áustria, Portugal, França, Eslovênia, Itália, Hungria, Luxemburgo, Chipre, Bulgária, República Tcheca, Polônia, Lituânia, Finlândia, Alemanha e Espanha (onde o Partido Popular, de direita, obteve 42,2% dos votos, e o PSOE, socialista, 38,5%).

 

Os socialistas venceram na Dinamarca, Suécia, Malta, Grécia, Romênia e Eslováquia. A meio caminho ficaram Bélgica, Letônia e Estônia.

 

Esse resultado confirma o adiamento da pretensão da Turquia de integrar a União Européia. No bojo dessa direitização da política européia está o antiterrorismo, com fortes conotações anti-islâmicas. A Europa "cristã" promove, à semelhança dos Reis Católicos da Espanha no século XV, novo expurgo de quem não reza por seu credo.

 

Vencido o ateísmo (leia-se comunismo) chegou a hora de rechaçar o islamismo em nome de uma "civilização cristã" que ostenta, como um de seus líderes, um primeiro-ministro italiano septuagenário que paquera meninas de 16 e promove, em sua casa de praia, embalos em trajes adâmicos...

 

O grande cabo eleitoral da direita foi a crise financeira. Nos anos 30, em consequência da bancarrota da Bolsa de Nova York (1929), o capitalismo passou pela crise de adolescência que levou a Europa ao nazi-fascismo e, com efeito, à guerra que fez 50 milhões de vítimas fatais.

 

Na atual crise senil, o pêndulo da história européia repete o mesmo movimento. A diferença reside nos alvos. Desta vez não são os judeus, e sim os imigrantes, sobretudo árabes e africanos. O crescente desemprego ainda não toma postos de trabalho de europeus, mas de estrangeiros que ali buscam sobreviver. Governos, como o espanhol, oferecem ao imigrante interessado em retornar ao seu país de origem passagem aérea, gastos de viagem e ainda uma ajuda equivalente a R$ 1.300.

 

O resultado dessas eleições confirma a falência da esquerda européia. Ela desabou com o Muro de Berlim, tentou resistir ao naufrágio agarrando-se em frágeis bóias como Mitterrand, Zapatero e D’Alema e, agora, obtém ridículos índices de aprovação. E ninguém ignora que foi ela que salvou a Europa do nazi-fascismo. As tropas aliadas tiveram êxito porque de um lado a União Soviética fez Hitler recuar, e de outro a Resistência clandestina minou o moral dos ocupantes.

 

Por que a esquerda faliu na Europa? Entre várias hipóteses, a dificuldade de entender que a classe operária já não é a mesma da primeira metade do século XX. E há uma nova agenda que a esquerda, de início, encarou com preconceito: ecologia, sustentabilidade, relações de gêneros, ecoeconomia solidária etc.

 

A religião, tão impregnada na consciência popular, também sofria discriminação. Refém de conceitos teóricos acadêmicos, a esquerda européia nem reconheceu nem manteve vínculos com os novos sujeitos históricos: imigrantes, desempregados, "minorias" excluídas e amplos setores da classe média desamparados pelo fim do Estado de bem-estar social e o advento do neoliberalismo.

 

Não são as teorias de Marx (aliás, "O Capital" é, hoje, um dos livros mais vendidos na Europa) que justificam a esquerda, e sim a existência de 4 bilhões de seres humanos sobrevivendo abaixo da linha da pobreza. Para esses, o capitalismo já nasceu fracassado. Só lhes resta buscar o outro mundo possível. Mas... com que roupa? Com que força política capaz de transformar o desalento e a indignação em mobilização e projeto de futuro?

 

Frei Betto é escritor, autor de "Diário de Fernando – nos cárceres da ditadura militar brasileira" (Rocco), entre outros livros.

 

Copyright 2009 – FREI BETTO - É proibida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal(0)terra.com.br)

 

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