Apoteose da pequena política

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O presidente Lula, tudo indica, fez escola. Com a imagem do Senado Federal em petição de miséria, chegou a vez do seu presidente, José Sarney, declamar em discurso solene o velho refrão: "não sabia de nada". O que lhe imputam, ele não nega, aconteceu de fato. Mas nada fora dos conformes, da prática habitual entre os seus pares; ou, quando ilegal, executado à sua inteira revelia. Impoluto, ele que preside a Casa pela terceira vez e nomeou o indigitado Agaciel, se julga injustiçado. Prometeu investigar tudo, "doa a quem doer", e declarou sem corar: "eu não sei o que é ato secreto".

 

Uma frase chave foi destacada pelos jornais no pronunciamento em pauta: "a crise não é minha, é do Senado". Na sequência, sem deixar claro se dava ao plural o uso majestático, enfatizou: "nós não temos nada a ver com isso". Inútil buscar nelas mesmas o sentido de tais frases. Que diabo disso é aquilo só saberemos no desdobrar dos acontecimentos. Pode ser um mero freio de arrumação, um aviso aos navegantes, um cala-boca geral. Pode ser também uma volta a mais na espiral da crise que, para muito além do Senado, envolve o conjunto das instituições e valores republicanos. Ou até mesmo uma nova teoria sobre a impessoalidade da corrupção sistêmica, aquela que por si move e sobre a qual ninguém é responsável.

 

Neste momento, as luzes da ribalta estão focadas em Sarney, uma figura cada vez mais emblemática. Depois da morte de ACM, ele se tornou a mais luzida expressão do peso das oligarquias regionais na política brasileira. Quando jovem, na chamada "banda de música" da UDN, ostentava fumos progressistas: desbancou o oligarca de sua região para ocupar, com os mesmos métodos, o seu posto. Na ditadura, foi prócer da ARENA e "evoluiu" de opinião quando a transição para a democracia se afigurava inevitável. Na época, por conta de tal deslocamento, ele foi definido por Fernando Lira, então um autêntico do MDB, como sendo a expressão mais lídima da "vanguarda do atraso". Embora não pareça, era um elogio. Por golpes do acaso, a morte de Tancredo, se fez o primeiro presidente da chamada "Nova República". Sempre bem composto com os governos que lhe sucederam, ostenta no momento atual a condição de conselheiro e lulista de carteirinha.

 

Apesar de imortal, por ser titular da Academia Brasileira de Letras, como pessoa política Sarney deve ao governo Lula a longevidade de sua condição de oligarca regional. Aliás, dos males provocados contra o Brasil pelo lulismo, a revitalização das oligarquias regionais está entre os mais danosos. Prometia alvoradas – outro modelo econômico, ética na política, nova gramática do poder - e se realizou como continuidade do ocaso. Desmobilizou o ímpeto mudancista dos movimentos sociais e agora, na condição de "atraso da vanguarda", chafurda no pântano comum da mais desqualificada política de negócios.

 

Daí a fieira interminável de escândalos, cidadania desencantada, crise da representação política, apodrecimento das instituições. Um momento particularmente perigoso. Lula e Sarney são peças chaves do quebra-cabeças, onde a junção da "vanguarda do atraso" com o "atraso da vanguarda" resulta no que aí está: a apoteose da pequena política.

 

Léo Lince é sociólogo.

 

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Comentários   

0 #3 Espedito Antonio Sararaiva Da 06-09-2009 13:33
o Assunto da midia é como se fosse novidade para a sociedade brasileira, a História não nega que por muito tempo poder esteve e está a serviço das elits e de seus apadrinhados, e de se estranhar o PSDB pousar de bom moço,quondo sempre se beneficiou dos esquemas montados em todos os níveis do poder.É preciso que se investigue as denuncias, mas que os que sempre se beneficiaram ou se beneficiam desta estrura de poder não venham se fazer de politico honesto e intocavel.
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0 #2 Denuncias apos tantos anos de podermaria das graças garcia 19-06-2009 18:04
Porque so agora, interessa a pig desestabilizar o Senado , e Sarney? Esta figura carimbada desde a ditadura? Nunca antes o Senhor do Maranhão sofreu denuncias ? Porque so agora? A quem isto interessa?
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0 #1 \"PESSOA COMUM\"Flávio 19-06-2009 06:52
Realmente não podemos tratar essas pessoas como "pessoas comuns"... pessoas comuns, como eu, como você que se sente indignado, somos pessoas que não nos prestaríamos a esse tipo de análise, esse tipo de ameaça "o problema não é meu, é do Senado..." e quem é o Senado, caro Senador "ser não comum"???
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