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A crise não passou sua fatura de barbárie Imprimir E-mail
Escrito por Venâncio de Oliveira   
Qui, 18 de Junho de 2009
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Revisão de expectativas?

 

Nas últimas semanas havia uma reversão de expectativas. O fantasma da crise parecia estar sendo derrotado. Como? As forças do mercado rejubiladas estariam ajustando as suas falhas temporárias e necessárias? Alguns lançam o jargão econômico que se reinventa para poder fazer o de sempre: encantar e nada explicar. Os indicadores deveriam ser analisados com mais cuidado e menos otimismo. É o desespero do poder que não consegue entender a ineficiência dos mecanismos de mercado. Todavia, é difícil aceitar que um amplo setor da "esquerda" brasileira foi cooptado para este projeto de poder.

 

Antes da saída dos indicadores do último trimestre os analistas e petistas – antes opostos, hoje amigos – mantinham o discurso dos fundamentos sólidos brasileiros para salvar o mundo das mercadorias. A realidade tem dificuldade de se encaixar nesta tentativa de manipulação das expectativas. As variáveis foram analisadas com muita pressa.

 

Vejamos alguns destes dados. O preço do petróleo voltou a subir, entre a casa dos 60 e 70 dólares (). Os fundos emergentes voltaram a ter "preferência pelo risco" e se moveram para os países emergentes. A exportação chinesa caiu. As relações entre Brasil e China reforçaram-se. A burguesia brasileira começou a pressionar o PSDB a aceitar a entrada da Venezuela no Mercosul. O presidente Chávez vem ao Brasil pedir empréstimos, com um discurso um pouco exagerado, louvando os ímpetos empresariais brasileiros.

 

Estes dados entrecortados poderiam sugerir outra coisa do que a racionalidade do sistema que se ajusta. Para jogar um pouco de água fria nos otimistas basta ver que se mantêm em alta as notícias de quebras e caos na economia estadunidense. O gigante histórico, General Motors, quebrou e teve de ser ajudado pela mão (hoje) louvável do Estado.

 

O movimento dos fundos emergentes não deveria ser analisado com louvor. A voracidade de ganhar dinheiro rápido e fácil é mais sinal de decrepitude do modelo econômico do que de progresso. O fato de que este capital parasitário esteja valorizando moedas dos países emergentes é sinal de desespero do capital, estão fugindo do dólar, e das economias dos países hegemônicos. Os chamados emergentes atraíram US$ 21 bilhões de investidores. Já os mercados de países centrais (Japão, Europa e EUA) perderam US$ 14,1 bilhões ().

 

Isso é um sinal mais negativo que positivo. O déficit dos Estados Unidos promete ser maior com os projetos salvacionistas de Obama. O dólar terá dificuldades crescentes para continuar sendo a moeda de referência. Um processo de mudança de referência não seria indolor; com a quebra do dólar, muitos países e capitais que lhe usam como padrão sofrerão desvalorizações com conseqüências cumulativas para a economia global. A crise do dólar é uma crise das moedas como sistema de referência de valor sustentável, é o capital fictício cobrando seu quinhão.

 

Brasil e seu papel geopolítico no xadrez da crise

 

Neste sentido cabe analisar o papel que joga o Brasil na mundialização do capital. É importante relembrar o processo recente de desvalorização do real. O fato de que o real esteja valorizado não significa que seja uma moeda sustentável mundialmente. O capital tem memória de passarinho, ninguém mais se lembra que, antes do craque de outubro de 2008, o mundo especulou com o real - isso causou a débâcle da Aracruz, salva pelo governo Lula.

 

O real em sua natureza é uma moeda-prostituta. Serve para dar e receber as migalhas dos homens. Quais são os efeitos que estruturam esta natureza? Os juros mais altos do mundo. Dezesseis anos de governos disciplinados às regras do mundo civilizado do dinheiro. Isso cria uma estabilidade aparente para nossa moeda. Coroada com os pontos que os especuladores nos deram ano passado, o Investment Grade. O real é o paraíso.

 

Nos tempos gloriosos dos nossos intelectuais da "esquerda", dos quais alguns se mantêm na trincheira de resistência, isso já era percebido. O real valoriza, os investidores chegam, ganham dinheiro e saem, desvalorizando nossa moeda. É uma aposta. Alguém ganha, outro perde. Sempre o povo acaba perdendo, porque paga as apostas dos jogadores. A situação do filho que joga todo o dinheiro e a mãe acaba sempre o salvando.

 

Outro elemento para entender a participação do Brasil na ganga financeira mundial é o seu papel hegemônico regional e as características do processo produtivo interno. Como analisado por Ruy Mauro Marini (), o Brasil tem características de economia sub-imperialista. Esta natureza conquistada pela industrialização dos anos de ouro do capitalismo brasileiro foi rearticulada, não se perdeu, mudou sua forma. Mas mantém o essencial.

 

A economia brasileira explora nações menores, como Paraguai, Venezuela e outros. Isso cria um efeito amortecedor para a burguesia brasileira que é vassala da economia mundial, tendo de transferir uma parte de seu excedente com pagamentos de juros e rendas ao exterior. Como faz isso? O empresariado brasileiro em aliança com o Estado domina fronteiras agrícolas e recursos naturais de países latino-americanos ou mesmo africanos (), o que permite custos menores, com um excedente maior para a burguesia brasileira.

 

As exportações brasileiras têm um duplo destino, os países centrais e os periféricos. O Brasil exporta capitais, carros e aviões para a restrita burguesia e classe média de países da extrema periferia da economia mundial. Com a pulverização destes mercados, ou seja, a ampliação do horizonte comercial feita pela diplomacia brasileira, permite-se incrementar a carteira comercial brasileira. Por último, o Brasil exporta suas commodities, carros, aviões e parte dos seus lucros para os países centrais. Assim, o Brasil é fortemente dependente da exportação, bem como da saúde econômica de países periféricos e centrais.

 

O capital internacional também é dependente da economia brasileira, pois tem lucros a receber dos seus investimentos especulativos e de suas montadoras de carros. É importante agregar neste sentido a participação do capital internacional na Petrobrás, Vale do Rio Doce e Embraer. Dessa forma, é fácil entender a pressão que sofre o tucanato. O mercado venezuelano é estratégico, dada a possibilidade de exportar capitais e mercadorias, e dominar fronteiras petrolíferas. Outro exemplo é a disputa pelo gás boliviano pela Petrobras, ou ainda o domínio da fronteira agrícola paraguaia por brasileiros.

 

A partir destes elementos é difícil perceber o fim da crise, e mais fácil entender as apostas dos fundos. O Brasil tem potencial econômico e regional, isto cria ilusões nos apostadores internacionais. Porém, de fôlego curto, pois o Brasil é dependente da acumulação de capital dos países centrais. Os programas salvacionistas de Obama podem criar outro ciclo curto de acumulação, mas baseado em elementos frágeis, a dívida externa e interna estadunidense. A bolha pode ser maior e seu estouro pode ter conseqüências mais drásticas para a economia mundial.

 

Mercado interno e ilusões de capitalismo autóctone

 

A economia brasileira tem seu mercado interno para amortecer os efeitos da crise. O Brasil tem um desenvolvimento desigual e combinado de seus setores econômicos, ilhas de excelência como a produção de aviões e setores tecnologicamente atrasados. Tal fato permite uma classe média que trabalha no centro destas empresas, uma aristocracia operária, gerentes e tecnocratas, criando uma demanda que poderia incentivar um ciclo interno de acumulação. Este mercado é esquecido até o momento da crise. Quando as empresas têm problemas com a demanda externa, voltam-se para dentro, com incentivos ao consumo interno, o que explicaria a política de corte de impostos para consumo de carros. Trata-se de um efeito de relaxamento da crise, mas não de superação, pois dificilmente o brasileiro vai consumir os aviões e as sojas que são o setor dinâmico da economia nacional.

 

Dentro da tentativa da superação da crise, cabe analisar algumas políticas colaterais. A economia brasileira é estruturalmente dependente da superexploração do trabalho, necessária para contrabalancear o compromisso de enviar excedentes para o exterior. Uma burguesia ávida por lucros precisa superexplorar sua classe trabalhadora para assim manter seu consumo de classe dominante européia e estadunidense. Desta forma, é impossível fazer um estado de bem-estar social brasileiro.

 

E todos os intentos que buscaram respeitar a democracia liberal foram julgados pelas mãos de ferro da burguesia. Temos um mercado de trabalho estreito. Quando tivemos o ápice de regulação, a burguesia usava do mercado informal para poder manter o ritmo de acumulação selvagem. Os governos neoliberais desmontaram a precária política social que tivemos. O governo Lula não se atreveu a tocar nestas mudanças.

 

O crescimento econômico recente não foi captado pelo mercado de trabalho brasileiro. As taxas de desemprego de 5% a 6% seriam insuportáveis para a burguesia brasileira. Que fizeram? Um pequeno choque de desemprego. Exemplo disso: a demissão em massa na Embraer. Se a crise piorar, o desemprego (aberto) pode chegar aos patamares de 13% do início do governo Lula. Em um recente relatório seu, a OIT demonstra que, dentro dos pacotes anti-crise no mundo, o brasileiro é que menos tem proteção social, no qual a ajuda para desempregados é a mais precária (). O salário mínimo de cerca de 200 dólares é uma vergonha. Honduras, que é uma economia bem menor que a brasileira, tem o salário mínimo de 250 dólares. Essa é a política trabalhista progressista do governo Lula? Qualquer política trabalhista que questione a superexploração de fato é uma medida revolucionária.

 

Assim, a crise é jogada nas costas do trabalhador. O fato de que é possível superar a crise a partir de termos capitalistas não dá perspectiva de que teremos um mundo mais justo, pois é impossível humanizar o capital. O fato de que a extrema-direita ganha cadeiras no parlamento Europeu pode ser indício de que as soluções para superar a crise vão demandar mais barbárie. Talvez, a classe trabalhadora européia perca todos os resquícios do estado de bem-estar social que foi conquistado por uma classe mais combativa.

 

Novo ciclo de acumulação não superará a crise estrutural

 

O fator China ainda é uma incógnita. É uma economia maior do que a brasileira, mas alguns elementos são muitos semelhantes: a superexploração de trabalho nacional e a dependência da acumulação de capital internacional. A queda da exportação chinesa é um fator que pode acumular mais conseqüências negativas mundiais. Talvez, coubesse uma análise da classe média interna chinesa, uma população maior que a brasileira, e que poderia ser um efeito amortecedor com mais alcance. Isso responderia à tentativa da burguesia brasileira de buscar outro amo, o estreitamento comercial entre a burguesia brasileira e a burocracia chinesa. Outro ciclo de crescimento não anula as contradições próprias do capitalismo. Um consumismo chinês-brasileiro e um plano de guerra estadunidense de longo alcance podem gerar uma crise de sobreprodução energética sem precedentes, capaz de ameaçar a própria civilização humana.

 

A crise do dólar ainda não foi sentida em toda a sua extensão. Uma mudança de padrão será bem dolorosa e, neste sentido, estariam equivocados tanto os emergentes que querem uma transição pacífica para outro padrão (obscuro) de referência como os conservacionistas que pensam que as coisas estão boas do jeito que está. Outro problema é que o petróleo volta ao crescimento anterior. Sobre o petróleo, são importantes duas considerações: a baixa anterior significou um estouro de uma bolha, dos apostadores que especulavam com seu crescimento; por outro lado, sua caída não restabeleceu preços estáveis. O crescimento dos preços de petróleo é sustentado e está relacionado com a crise de alimentos, agora só lembrada em alguns documentos da FAO. Este novo ciclo de crescimento de preços pode significar outra bolha para ser estourada, que significaria mais tremores na abalada economia mundial.

 

Como muito bem analisado pelos marxistas Chesnais () e Reinaldo Carcanholo (), esta crise é filha mal criada da crise de 1970. Neste tempo houve uma reconfiguração do capital e a liberalização financeira, comercial e de trabalho criou outros jogadores. Isso trouxe mais instabilidade à contraditória economia capitalista. A crise não acabou, é impossível sublimar seus conseqüentes problemas humanos.

 

Os projetos alternativos não se evidenciaram. Não quer dizer que não exista formulação consistente. Mas padecemos da crise de um ciclo na esquerda brasileira e mundial. Enquanto os socialistas não conseguiram superar a hegemonia da caducada fórmula reformista, um projeto consistente de superação do capitalismo não terá seu reflexo na práxis política da classe trabalhadora.

 

Não é uma questão de substituição simples da direção antiga. Mas de uma construção de novos discursos, relações e linhas da esquerda e da classe trabalhadora organizada. O discurso da velha esquerda mantém uma correspondência ideológica com a realidade fetichista do capital. A idéia de um Brasil desenvolvido promete sonhos de estado de bem-estar social.

 

A ilusão tem seu tempo determinado. A esquerda socialista que se mantém na luta não conseguiu uma influência que se contraponha ao popular projeto de uma social-democracia tupiniquim. Os projetos alternativos latino-americanos, venezuelanos e bolivianos estão sendo testados. A crise não traz um alento para os socialistas, ela pode passar sua fatura de barbárie.

 

Notas:

 

1) http://www.oil-price.net/index.php?lang=pt

 

2) CANZIAN Fernando. Apetite por risco volta ao mercado global, Folha de S. Paulo, 26/06/2009.

 

3) MARINI, Rui Mauro. La acumulación capitalista mundial y el subimperialismo, Cuadernos. Políticos, México, n.12, abril-junio 1977. Alegre, UFRGS, 2007. http://www.marini-escritos.unam.mx.

 

4) Diante disso não é nada fraterna e progressista a política externa brasileira com os países latino-americanos e africanos. O projeto do etanol de criar desertos verdes fora do Brasil é um ataque à soberania alimentar de nações como Haiti, El Salvador e outras que estão dentro do horizonte comercial do governo Lula.

 

5) Para OIT, ação do Brasil deixa trabalhadores sem proteção, Folha de S. Paulo, 26/03/09.

 

6) CHESNAIS, François. Recesión mundial: el momento, las interpretaciones y lo que se juega en la crisis, in: http://www.herramienta.com.ar/.

 

7)CARCANHOLO, Reinaldo. Situación mundial: aspectos teóricas de la crisis capitalista, in: http://www.herramienta.com.ar/.

 

 

Venâncio de Oliveira é economista e trabalha no CEICOM (Centro de Investigación sobre Inversión y Comercio) – http://www.ceicom.org/

.

Contato: venancio.comuna(0)hotmail.com

 

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