Razões do atraso do Brasil

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Na segunda metade do século 19, o Produto Interno Bruto (PIB) dos Estados Unidos e do Brasil eram praticamente equivalentes. Os Estados Unidos avançaram celeremente e o Brasil estagnou ou retrocedeu. Por quê?

 

Porque os norte-americanos fizeram a reforma agrária e nós até agora não a completamos. A América do Norte incrementou a indústria de base, a navegação marítima, explorou minério, tirou de suas entranhas o petróleo e, principalmente, praticou a democracia, estimulou a iniciativa individual e o desejo de crescer na vida ensinados pela religião protestante.

 

De sua parte, o Brasil mantinha o regime escravocrata, sendo a derradeira nação do mundo a abolir a escravidão. Os anos finais de império e a primeira República marcaram-se por equívocos e inépcia generalizada. Nos pleitos escolhiam-se candidatos a bico de pena, isto é, escrevendo o nome ditado pelos chefetes políticos e por famigerados coronéis dos currais eleitorais.

 

Confrontos armados se disseminavam, pondo em risco a unidade nacional. Os estados contraíam dívidas com bancos internacionais e adquiriam armas importadas, de tal modo que as polícias militares gaúchas, mineiras e paulistas tinham poder de fogo que se igualava ao Exército Nacional.

 

Felizmente, a Revolução de 30, com Getúlio Vargas dirigindo a nação, nos deu a moratória da dívida externa, a melhoria dos preços do café, o Código de Minas, o voto secreto, direito de sufrágio à mulher, Justiça Eleitoral, Consolidação das Leis do Trabalho, Companhia Vale do Rio Doce, Conselho Nacional do Petróleo, Siderúrgica de Volta Redonda, e, no último governo de Vargas, a Petrobrás e o BNDES. O governo desenvolvimentista de Juscelino Kubitscheck garantiu continuidade à colocação do Brasil em novo patamar de progresso.

 

Há trinta anos, início da década de 1980, a China e o Brasil se nivelavam em volume de exportações e, novamente, políticas errôneas distanciaram os dois países.

 

A China é o terceiro maior PIB mundial e dentro de três anos será o segundo, iniciando a caminhada para alcançar os Estados Unidos. Faz mais de uma década que sua economia sobe mais de 10% ao ano. Suas reservas cambiais somam dois trilhões de dólares, 50% aplicados em títulos do tesouro americano.

 

Como a China se avantajou e o Brasil teve pífios resultados? O colosso oriental controlou a inflação, manteve o yuan desvalorizado e abriu a economia, atraindo capitais de fora direcionados à exportação e para suprir carências internas, enquanto Fernando Henrique Cardoso privatizava estatais para firmas alienígenas, que também eram seduzidas para comprar empresas voltadas ao mercado local. A CPI da Desnacionalização da Câmara Federal, que eu presidi, elaborou Projeto de Lei estabelecendo critérios para a vinda de capitais estrangeiros, nos moldes chineses. O AI-5 sepultou essa idéia.

 

A apreciação exagerada do real e os juros estratosféricos (a taxa Selic chegou a 45%) seguraram a evolução de nosso PIB, média de 2,1% nos oito anos de FHC. Nos poucos momentos em que o real se desvalorizou, período pré-posse de Lula e depois da crise do subprime nos EUA, altearam-se nossas exportações e a economia respirou melhor. A taxa Selic tem que baixar rapidamente para 7%, inviabilizando as funestas arbitragens financeiras, e o Banco Central precisa ficar proativo em matéria cambial para impedir a especulação e o artificialismo na cotação do real.

 

Léo de Almeida Neves é membro da Academia Paranaense de Letras, ex-deputado federal e ex-diretor do Banco do Brasil.

 

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