Ainda a dinâmica de aprendizado das massas

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Para escapar do voluntarismo e do espontaneísmo, em primeiro lugar é necessário que os líderes e militantes dos partidos populares participem ativamente da dinâmica de aprendizado "normal" das massas. Como diziam alguns clássicos da "escola política do trabalho de massas", nesse processo é preciso "quase fundir-se" com as massas populares, de tal modo que elas reconheçam tais líderes e militantes como "companheiros de luta".

 

Embora só a prática leve as massas a comprovar que os aspectos negativos da realidade, decisivos em seu modo de trabalho e de vida, estão relacionados com o predomínio do capitalismo, isso não exclui que líderes e militantes populares realizem um constante trabalho de esclarecimento e organização. E que, para não ficar apenas no negativismo, reiterem sempre que "um outro mundo é possível", como solução para os problemas existentes.

 

Mas não vamos pensar que esse trabalho faça com que as massas "ganhem consciência" sobre democracia popular, socialismo ou o que quer que tenha sido apresentado como solução positiva. Quando elas forem à luta, elas irão para negar, liquidar ou extinguir os aspectos negativos da sua realidade. E, para ser realista, mesmo que tenham transformado uma dessas propostas em sua bandeira, elas terão pouca ou nenhuma idéia do seu significado ou conteúdo.

 

Por outro lado, quando as grandes tensões se apresentarem, as massas tenderão a reconhecer os líderes e militantes que, além de participarem de sua dinâmica "normal", também se tornaram referência na apresentação de soluções para tais tensões, e estarão mais propensas a segui-los.

 

Se examinarmos todas as experiências socialistas, vamos ver que a dinâmica "normal" de aprendizado das massas retornou após a realização das revoluções políticas e sociais. Seu nível real de consciência recolocou na ordem do dia a continuidade de um trabalho ativo de "quase fundir-se" com as massas e, portanto, a disputa contra o voluntarismo e o espontaneísmo.

 

Em sua dinâmica de aprendizado "normal", as massas têm sido capazes de mudar as políticas estabelecidas por líderes, partidos e governos populares no período revolucionário. Em alguns casos, extremaram suas tendências de igualitarismo por baixo. Em outros, resgataram formas de propriedade e de produção que lhes impuseram um desenvolvimento econômico e social desigual.

 

Ou seja, tanto impuseram avanços estratégicos, sem base material consistente para sua sustentação, quanto obrigaram a retiradas estratégicas, mesmo colocando em risco as conquistas principais. Portanto, a questão da dinâmica de aprendizado das massas populares, seja a "normal", seja a das "tensões", não é secundária, nem restrita a alguns momentos da história.

 

Ela é persistente. Deve estar presente enquanto o nível educacional e cultural das massas permanecer como componente da realidade de desigualdades econômicas, sociais e políticas. Quem não entender isso vai continuar tentando fazer o "assalto aos céus" sozinho.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

 

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Comentários   

0 #1 MAS, E AS FORÇAS CONTRÁRIAS ?RINALDO MARTINS 06-06-2009 23:07
O presente texto de W Pomar é o terceiro aprofundamento sucessivo do seu texto intitulado “Não basta querer”, publicado aqui em 12 de maio 2009 e que gerou algum debate virtual. Para quem não leu esse seu texto inicial, a tendência é a natural concordância teórica com o que ele alega no atual e no penúltimo texto (27/05 e 2/06). Não obstante, esses textos estão aí para servirem em defesa da sua tese de que o governo Lula e o PT não foram mais ousados ou radicais ou não puderam evitar algumas alianças não porque não tenham querido mobilizar as massas, já que “ não se pode achar que basta que eles queiram para que as coisas se realizem” mas justamente “devido à correlação de forças desfavorável provocada pela falta de mobilização popular”, conforme suas palavras conclusivas no último parágrafo.

O referido texto inicial é perpassado de acalorada defesa das intenções e do esforço do governo Lula em fazer o máximo e o melhor para o país, no limite das suas possibilidades reais e a partir de uma conjuntura adversa. Nesse sentido, o autor bate na ultra-esquerda acusando-a de irrealista, alegando que “o governo Lula, o PT ou a ultra-esquerda não são capazes de mobilizar as classes trabalhadoras do Brasil para algo além do que elas pretendem no momento”.
Ora, sem entrar no mérito dessa questão da relativa capacidade de mobilização popular, seja de quem for, que é aborda nos seus 4 textos, W. Pomar, nessa sua tentativa de justificar o governo, simplesmente ignora a discussão do outro lado da moeda, ou seja, da capacidade de DESMOBILIZAÇÃO que um governo efetivamente tem em suas mãos. Esta sim é a questão principal que devemos analisar em relação ao governo Lula.
No meu entender, como já disse em crítica ao texto de W Pomar (“Não basta querer”), o mal maior promovido por esse governo não foi não ter contribuído para a mobilização e organização popular. Foi de ter contribuído para o aprofundamento da DESMOBILIZAÇÃO das massas e também dos movimentos sociais, “como nunca visto na história desse país”. Afirmo que Lula, em 6 anos, conseguiu fazer o que a ditadura militar não conseguiu em 20 anos. Nada melhor foi para os dominantes do que ter colocado no poder alguém como Lula. Aliás, nunca fui brizolista, mas hoje dou-lhe total razão quando ele dizia que o PT e o Lula são a esquerda que a direita gosta.
Ou seja, Lula, o PT e as esquerdas em geral não só traíram o seu discurso histórico de que o poder institucional, em seu comando, seria principalmente para servir como um instrumento para ajudar na organização popular visando o fortalecimento da luta coletiva pelas profundas mudanças estruturais. Pior, eles traíram os próprios PRINCÍPIOS que diziam defender. Com os mesmos pretextos pragmáticos utilizados por W Pomar, quais sejam, a “correlação de forças desfavorável”, “falta de mobilização popular”, etc., os atuais setores no poder tentam justificar suas práticas injustificáveis. Deixaram-se mesmo foi CORROMPER-SE perante as mordomias e glórias do poder, ou como prefere dizer Frei Betto, simplesmente revelaram a sua verdadeira face.
Portanto, o presente texto de W. Pomar tenta descolar essa questão política de fundo que o suscitou: a defesa do governo Lula. Como se a mobilização popular tivesse a sua própria lógica, a sua própria “dinâmica”, nada tendo a ver com o projeto político do governo.
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