As massas, o espontaneísmo e o voluntarismo

 

Há pouco tempo escrevi que o problema da ultra-esquerda é que ela continua supondo que são os partidos e os governos que fazem as massas trabalhadoras se movimentarem, para o bem ou para o mal. Desconsidera que as massas possuem sua própria dinâmica de aprendizado. E que são capazes de mobilizar-se por conta própria, quando não estão mais dispostas a aceitar determinadas políticas. É por isso que o governo Lula, o PT e a ultra-esquerda não são capazes de mobilizar as classes trabalhadoras do Brasil para algo além do que elas pretendem no momento.

 

Para uns, o parágrafo acima seria uma "defesa desinibida do espontaneísmo". Deduzem daí que, "se as massas trabalhadoras se movimentam por conta própria", isso constituiria uma defesa da tese de que os partidos e os governos populares devem adaptar-se "passivamente a esse nível de mobilização espontânea das massas trabalhadoras", já que "eles não teriam nem a possibilidade, nem a responsabilidade de interferirem no nível de consciência, organização e mobilização das massas trabalhadoras".

 

Sua conclusão: a pretexto de combater o voluntarismo, aquele parágrafo abdica da "responsabilidade que têm os setores mais conscientes e organizados dos trabalhadores de ajudar os demais a avançarem" e "apaga o papel que determinados líderes, partidos e governos influentes podem desempenhar em frear e, até mesmo reverter, a conscientização, a organização e a luta dos trabalhadores".

 

Naquele parágrafo, fiz apenas três afirmações. Primeiro, as massas possuem sua própria dinâmica de aprendizado. Segundo: as massas são capazes de mobilizar-se por conta própria, quando não estão mais dispostas a aceitar determinadas políticas. Terceiro: ninguém é capaz de mobilizar as massas para algo além dos que elas pretendam no momento.

 

Em nenhum trecho o parágrafo ou o artigo tratou de como os partidos e os governos populares devem atuar diante da dinâmica de aprendizado e mobilização das massas. Assim, ao invés de discutirem as afirmações do parágrafo, que são realmente as básicas do artigo, os críticos preferem discutir suas próprias suposições. E atacam ao autor pelo que não disse.

 

Não discutem se as massas possuem ou não uma dinâmica própria de aprendizado, e que importância tem isso para o trabalho cotidiano dos partidos populares. Não questionam se as massas são ou não capazes de mobilizar-se por conta própria, quando não estão mais dispostas a aceitar determinadas políticas, e que importância tem isso para a luta por reformas estruturais, para não falar da revolução social. Nem respondem se alguém é ou não capaz de mobilizar as massas para algo além do que elas pretendam no momento, e que importância isso tem para a tática e a estratégia dos partidos populares.

 

Como todos os voluntaristas, não querem discutir essas questões. Porque, para eles, tudo depende dos setores mais avançados, dos líderes, partidos e governos "ajudarem" os setores mais atrasados a avançarem, interferindo em seu nível de conscientização, organização e luta. E, quando líderes, partidos ou governos não agem sobre as massas como os voluntaristas pretendem, isso representa, para eles, algo parecido a uma traição.

 

Se isso fosse apenas um debate literário ou teórico, talvez não valesse a pena perder tempo com ele. No entanto, a história brasileira tem um vasto cabedal de experiências em que o voluntarismo foi a visão predominante entre as forças populares, causando imensos prejuízos à conscientização, organização e luta das massas. Uma análise da história brasileira do século 20 mostra que o voluntarismo causou muito mais prejuízos que o espontaneísmo, embora este também deva ser combatido.

 

A questão básica para superar o voluntarismo, e também o espontaneísmo, consiste em discutir o papel das massas na história, sua dinâmica de aprendizado e mobilização. A história está cheia de exemplos de mobilizações massivas, em todas as épocas e em todas as regiões do planeta, incluindo o Brasil, como forjadoras dos líderes, partidos e até de governos. Se os voluntaristas ajudassem a recuperar essas experiências históricas, prestariam uma grande ajuda a si próprios.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

 

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Comentários   

0 #6 Pedro 29-05-2011 19:30
O Raymundo precisa definir melhor o que é o Poder. O PT não chegou ao poder, ele chegou ao governo, isso não justifica o posicionamento mais ou menos conciliador do partido, mas que isso tem desdobramentos pra tática.

Falo isso pq se falamos que nosso objetivo é conqusitar o poder do estado, inclusive de forma revolucionária, não estamos dizendo que nosso objetivo é chegar ao governo. Esse último, pode ser no máximo parte do processo de acúmulo de forças.

2 - Intelectual orgânico é aquele que organiza e contribui para a organização da classe, não precisa ser uma pessoa física necessariamente, pode ser o próprio partido político como intelectual que formula e orienta a classe. É diferente do inteletual tradicional, que não está vincular organicamente à classe.

São duas reflexões e problematizações que são importantes para pensar o debate.

No mais, o texto do Pomar é muito bom. No fundo o que subsiste em grande maioria nos setores "mais à esquerda" é a tese da crise de direção, que pouco explica a realidade concreta e uma série de confusões e imprecisões sobre categorias fundamentais do marxismo.

É isso, abraços.
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0 #5 As massas e os \"ismos\"...julio filipe 22-05-2009 17:41
Curiosa esta forma de polemizar que o autor utiliza; ele próprio \"analisa\" as suas proposições iniciais.
Na minha modesta opinião, no seu afã de crítica ao voluntarismo - propósito sem dúvida meritório - revela sensíveis simpatias pelo espontaneísmo.
Manifesto o meu acordo com o propósito de discutirmos o papel das massas na História. As massas -operárias, camponesas, trabalhadoras, populares, consoante cada exemplo concreto - desempenham o papel central em todos os grandes acontecimentos de viragem e mudança políticas. São as massas, quando organizadas e em acção, que materializam um propósito ou objectivo político, sob a condição de se encontrarem ganhas/direccionadas para o alcançarem. Sem programa político não existe acção política consequente.
Então, discutamos os objectivos e os meios e deixemos para depois a sua classificação, usando então os diversos \"ismos\" disponíveis.
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0 #4 O Intelectual OrgânicoRaymundo Araujo Filho 21-05-2009 16:58
O que vai aqui é apenas uma visão crítica (= de análise) da história. Não sou de jogar a criança fora, com a água do banho e sei respeitar os que deram a vida por suas crenças e ideologias pelo Povo, embora discorde de muitas coisas do processo.

Sempre me interessei em descortinar esta figura, nomeada por Gramsci, a do Intelectual Orgânico. Já vou esclarecendo que não sou especialista em nada, além de bosta de vaca, veterinário rural que sou. Mas, tentei entender algumas coisas "pela aí".

O Intelectual Orgânico sempre me foi apresentado como aquele agente partidário que ia "às massas" (não as italianas e chinesas) para, pensando estar identificado com elas, instruir e alavancar a Revolução, a partir das teorias políticas de combate ao capital, e seus vários matizes.
Isso gerou o orgulho paternalista com que os Agentes Partidários (e da Revolução, como se achavam)exibiam um egresso das Classes Populares e o exibiam como novo militante de vanguarda, por ter absorvido as teorias políticas de esquerda em voga.

Quando resolvi ler, eu mesmo, Gramsci no original (em português, é claro)entendi outra coisa.

Entendi que o verdadeiro Intelectual Orgânico é aquele que, egresso de que classe for, teve oportunidade e possibilidade de acessar a compreensão não apenas empírica de sua existência e dos seus pares de origem, sem perder o Norte de sua Cultura Original, mesmo sabendo que é necessário a miscigenação e dela com a chamada Cultura Formal.

E também que sua tarefa é refletir dia a dia a teoria política, a partir do REAL e não do IDEALIZADO e a de ensejar a criação e surgimento de novos Intelectuais Orgânicos, cada vez mais egressos das Classes Pobres, agora acessando, em massa, o conhecimento intelectual não empírico.

E isso só se consegue com a convivência CULTURAL entre Intelectuais e Aspirantes a ser um, e não a TRANSPOSIÇÃO de uma Cultura (a chamada formal) para a Empírica. O máximno que se conseguiu com isso foi a ridicularização dos Folclores Populares.

E que essa atitude moderadora e mescladora das culturas em jogo, não é pelo atraso, mais sim por um Desenvolvimento Humano Possível e mais equalizado com o horizonte de possíveis usuários dos avanços tecnológicos, em acessos democratizados, e produzidos não por uma necessidade de mercado = Mais Valia e Lucro(Milton Santos e Sebastião Pinheiro), mas sim por necessidades intrínsecas e emanadas pela própria sociedade, em regime de livre manifestação.

Assim, o Voluntarismo não seria nunca um Paternalismo idiota ou apenas interesseiro, e nem a idolatria do Expontaneísmo insuficiente poderia vingar em uma dinâmica desta.
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0 #3 Brasil sem amarrasmarcos rogério machado da 21-05-2009 16:12
Creio que com eleitores que voltam por obrigaçao,jamais teremos um Brasil livre.Lembro-me agora do Ba~rão de Itararé:\"O Brasil é feito por nós\" O difícil será desatar os nós.
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0 #2 Como diria Jack...Raymundo Araujo Filho 21-05-2009 13:52
Vamos por partes!

1) Primeiramente cumprimentar o W. Pomar por se dignar em dialogar com invisíveis sociais e desimportantes políticos que comentam criticamente seus artigos, aqui no Correio... É um alento saber que a nossa esquerda não é composta só por aristocratas.

2)Como Einstein já nos legou, a localização de qualquer corpo no espaço, agora transferindo para as ideologias, dependem de onde se localiza o observador. Portanto, a sustentação dos argumentos factualmente, são mais esclarecedoras do que classificações de direita, centro, esquerda e ultra esquerda. Somos o que fazemos, não o que dizemos ser, já disse o velho Anarquista.

3)Não li em lugar algum, nesta polêmica, que são "os governos e os partidos que mobilizam as massas". Mas é fato que eles, no Poder têm possibilidades de impedirem ou atrasarem esta mobilização e tomada de consciência, a partir de vários expedientes que vão da corrupção ideológica até a material (principalmente de dirigentes e ideólogos subalternos), quando não pela repressão pura e simples.. Isso é fato.

4)"As massas" só são homogêneas sob dois aspectos:A)quando nos referimos às massas comestíveis (as da Itália e chinesas são supimpas); B)Quando são fruto de concepções que fazem parte de um idealismo pragmático, impostos por regimes e ideologias autoritárias, onde as pessoas são objeto e não sujeirto das transformações sociais propostas.

5)As "dinâmicas próprias de aprendizado" não são dons divinos, na minha concepção. Fazem parte, como resultante, das vivências e oportunidades materiais e psicológicas que as pessoas experimentam. Portanto, o que dissemos, foi exatamente o contrário do que W. Pomar entendeu, e fez de base para seu argumento central, neste artigo acima, o colocando então, no cadafalso do idealismo.

6) Estas vivências e consciências" das massas" são produzidas pelas políticas que a Clase Dirigente e a Burguesia (Proprietários dos Meios de Produção) impõem à sociedade, em uma correlação de forças estupidamente desigual, pois uns detêm em seu poder, TODOS os instrumentos formadores do Capital e da Opinião Pública. E quando não elaboradas e a situação chega a limites insustentáveis, como todos nós sabemos, acaba em barbarie e a consequente repressão indiscriminada.

7)Parto também de minhas vivências pessoais e profissionais, em contato direto, no caso, com sistemas produtivos da agricultura e agroindústrias familiares, onde pretendemos resgatar esta "dinâmica de aprendizado das massas", adicionando elementos teóricos e práticos para que se possa fazer uma leitura consciente e não empírica do que se têm, para podermos avançar política e tecnologicamente. Não amamos, portanto, o expontaneísmo, aliás, que muito agrada os Bonapartistas e Autoritários Iluministas, em geral, e alguns no particular.

Aliás, por isso sou encantado por Paulo Freire e Francisco Ferrer y Guardia (Escola Moderna, Espanha).

6)É lamentável sermos desclassificados como voluntaristas, quando apenas queremos a discussão fora do pedestal do poder institucional, como lamentavelmente virou moda na "esquerda" brasileira. O Poder popular encontrará suas institucionalidades próprias para se firmar. Não vejo Indígenas, Caiçaras e Quilombolas, por exemplo, ativistas em Partidos políticos de origem cultural européia, como principal instrumentos de sua luta política. E as "massas urbanas" apenas têm servido de substrato eleitoreiro para seus comandantes.
E esta tarefa libertadora requer muito mais do que simples expontaneísmo.

7) Concluindo: Não acho correto nem políticamente confiável, que absorvamos a idéia que, "há, uma dinâmica própria, natural e epontânea nas "massas" a qual devemos obedecer, para não avançarmos muito nas formulações, "que se tornariam incompreensíveis para as "massas populares". O perigo é gestarmos nossos planos e proposições políticas em gabinetes e aparelhos político-
institucionais, dentro ou fora do Poder, e levá-las prontas para os "Populares", sem uma convivência diuturna com quem escolhemos como nossos pares sociais. É a receitra para o fracasso.

Quem serve massas prontas é a Sadia-Perdigão, na tal BRF. E são intragáveis.

Espero que este importante debate, não teórico, mas vivo continue.
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0 #1 AliançaMara 21-05-2009 10:41
Não seria o caso de criar vínculos entre o voluntarismo e o espontaneismo, já que analisar tais categorias idoladamente pode polarizar seus significados: de um lado a ajuda plena do outro a total autonomia. Há que ressaltar que a massa pode estar inserida em valores culturais que incentivem a reprodução do estilo de vida vigente e limitem as necessidades da comunidade. Isso refletiria diretamente em seu espontaneismo, cabendo aos intelectuais a realização do processo de conscientização da categoria.
Só que todo esse raciocinio me lembra demais as práticas utilizadas nos projetos inseridos no Desenvolvimento de Comunidade, em que a população era resposabilizada por seus problemas e cabia a mesma juntamente com a ajuda dos intelectuais a superação de seu subdesenvolvimento...
Como agir diante desta situação?
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