Dilemas para a esquerda socialista e o PSOL

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Há um debate aberto sobre qual deve ser a resposta da esquerda socialista para os desafios colocados nestes tempos de agravamento da crise econômica.

 

Tal debate parte do pressuposto de que os efeitos mais perversos da crise recairão sobre os ombros da classe trabalhadora e que as saídas oferecidas até aqui, inclusive pelo governo Lula, estão na ótica de preservar os interesses do grande capital. E que, para tanto, estaria colocado o desafio para os movimentos sociais autênticos, sindicatos combativos e partidos da esquerda socialista construir e apresentar uma alternativa de programa, de saída para a crise, tanto no terreno das lutas sociais como para as eleições em 2010.

 

Mas indo diretamente à questão deste artigo, é público que há um debate aberto em um dos atores principais desta articulação, o PSOL, a respeito do lugar da denúncia das mazelas da corrupção em um programa e no perfil político da esquerda socialista, com conseqüências no debate de arco de alianças.

 

Estamos diante de uma nova totalidade no cenário internacional e nacional - a vigência de uma crise econômica estrutural do capital. Não temos dúvidas de que o centro, o eixo da resposta e da construção de um perfil socialista e anticapitalista, tem que estar na crise e na afirmação de uma saída de ruptura sistêmica, que busque apoiar-se nas demandas mais urgentes da classe trabalhadora e do povo, esfolados pela crise do capital. Tudo o mais deve se subordinar a isso. Inclusive as denúncias dos podres poderes da República. Por mais que o regime democrático burguês esteja coalhado de escândalos diários de corrupção (essa é a natureza do Estado brasileiro), a denúncia da corrupção não pode ser a pauta central de uma esquerda socialista na etapa atual, porque ela não é a pauta central do cotidiano das mazelas insuportáveis que recaem sobre os trabalhadores e o povo.

 

Sinais preocupantes

 

E deste ponto de vista consideramos muito preocupante que, além de fincar pé neste perfil como eixo do partido, esteja ocorrendo, por insistência de setores da direção do partido, uma busca em alavancar como aliados prioritários, quase exclusivos, personalidades dissidentes do aparelho de Estado, como o delegado Protógenes.

 

Um verdadeiro tiro no pé para o partido, como se verificou na ida do delegado ao ato de 1º de maio da Força Sindical, ao lado de Paulinho - um dos mais notórios pelegos da classe trabalhadora brasileira e também investigado por denúncias de corrupção. Isso enquanto a esquerda socialista partidária, movimentos sindicais e sociais combativos, pastorais sociais etc. se uniam para realizar um 1º de maio independente e classista na Praça da Sé.

 

Está aqui um dos dilemas centrais da esquerda e do PSOL no próximo período. Nos anos 90, o PT se caracterizou por sustentar como principal perfil político o eixo de "ética na política", contra a corrupção. Combinado a isso, moderou seu programa, buscou ampliar suas alianças à direita, estreitou laços com setores do empresariado, passando a aceitar financiamentos destes para as campanhas eleitorais, abriu as portas para estranhas filiações distantes do ideário de partido da classe trabalhadora.

 

Sabemos no que deu isso e o pior que poderia ocorrer hoje é um repetição da história na forma de trágica caricatura com o PSOL. A negociação de contribuições em 2008 à campanha municipal em Porto Alegre oriundas da Gerdau e da indústria armamentista Taurus evidencia esse risco.

 

Questões indispensáveis

 

Há três questões que devem balizar o perfil do PSOL nesta conjuntura e que consideramos que são condições básicas e indispensáveis para credenciá-lo como um pólo aglutinador de uma reorganização ainda mais ampla na esquerda e nos movimentos sociais em tempos de crise:

 

1) O centro político e programático do partido deve ser a resposta à crise econômica do ponto de vista de um programa anticapitalista;

 

2) O centro de gravidade da atividade do partido deve ser a busca de inserção central nos movimentos sociais e nas lutas de resistência da classe trabalhadora, dos sem-terra, sem-teto, da juventude. Ou seja, uma aliança efetiva com os trabalhadores e oprimidos. E não a busca de aliados em figuras da hierarquia do aparelho de Estado, que sinalizem um arco de alianças e perfil de programa que nada terão a ver com a vocação de um partido que se pretenda anticapitalista;

 

3) O PSOL deve se afirmar como partido socialista de trabalhadores e trabalhadoras, que contribua para buscar organizar com sua militância e estrutura partidária a luta permanente da classe trabalhadora em todos os seus aspectos práticos. E, portanto, não pode estar com suas portas abertas para a aceitação de possíveis filiações de porta-vozes estranhos ao ideário da esquerda socialista.

 

Fernando Silva é jornalista, membro do Diretório Nacional do PSOL e do Conselho Editorial da revista Debate Socialista.

 

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Comentários   

0 #6 Questões indispensáveisMr.Rusty 20-05-2009 06:02
Caro Fernando
Sou um orfão da esquerda que sonhou em mudar o País e que um dia teve os nomes de PT, PC do B e PCB. Tenho votado em candidatos do PSOl desde o evento do mensalão, que ninguém sabe se, de fato, existiu, mas demonstrou a falta de vontade do presidente Lula em trazer a verdade a tona. Conocordo com suas preocupações, mas tenho algumas ponderações:
1 - O que seria um programa anticapitalista? Vivemos em uma sociedade que é bicentenária no Capitalismo e se o partido adota(r) esse discurso irá trilhar um caminho tortuoso para fazer o eleitorado entender. Isso siginifica muitos, mas muitos anos de doutrina e cultura.
2 - As alianças do partido com os movimentos sociais e populares deve ser pautada pela observancia do estado de direito, não pode o partido apoiar cegamente os crimes e as contravenções patrocinadas por movimentos como o MST, por exemplo.
3 - Existe um enorme trabalho de base a ser feito junto aos trabalhadores. Pouco adianta, por exemplo, a Heloisa Helena ter uma votação expressiva ou, quem sabe, ser eleita para um cargo executivo se a base de sustentação é composta pelos mesmos de sempre? Qual o percentual de trabalhadores que conhece o Robaina? A Fernanda (minha candidata)? O trabalhador conhece a deputada bonitinha, o homem do tempo, o senador que distribuia medicamentos e cadeiras de rodas. Para mudar essa realidade é preciso entender que o trabalhador conhece (e se reconhece)o presidente da associação do bairro, do grêmio de funcionários, do sindicato.
São perguntas com sugestões implicitas, caberá ao partido desenhar seu caminho e definir se ele apontará para um futuro de transformação da realidade social e economica brasileira ou se será mais uma esperança perdida pela classe trabalhadora.
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0 #5 O inicio já previa o fim do PSOLRunildo Pinto 20-05-2009 05:16
Caro Fernando! Participei das primeiras reuniões do PSOL, onde levantamos a questão do centralismo democrático e, esta proposta foi rejeitada pois feria o principio da pluralidade, o que a meu ver não fere nada. O PSOL, já nasceu amarrado a questão eleitoral,da sobrevivência dos mandatos de suas lideranças. E esta é a preocupação principal do PSOL. A organização de tendências dentro partido, foi a aderência de uma prática polícia falida e o PT provou isto e continua dando provas disto. No final das contas as tendência viram hárea de influência dos \\\"capa pretas\\\", do partido. A organização revolucionária na institucionalidade deve conceber práticas que não se prostitua a na ordem legal. O Processo eleitoral burguês deve ser secundário para quem quer construir as condições objetivas à transformação social, e isto não é negar a participação no processo com candidatos. A luta deve ser anticapitalista e antiimperialista. O partido deve formar quadros e não filiados e fazer política com os movimementos sociais e não com os partidos burgueses, respeitando a autonomia de cada movimento, mas credenciando-se pela prática como vanguarda dos movimentos socias. O psol, tem sobrevivido de pecuinhas, como a corrupção, que obvimente deve ser atacada, mas é muito pouco para uma partido de esquerda que toma posições táticas as vezes bizarras. Tenho a convicção que o PSOL tem na vala comum um lugar ao lado do PT.
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0 #4 guimarães s.v. 19-05-2009 14:20
caro Fernando, creio que você pôs o dedo na ferida. sou recém-ingresso no PSOL, vindo do PT, que ajudei a construir e consolidar na Bahia nos idos de1981-1987. a grande inquietação, apreensão mesmo, que sinto é a de que o PSOL não venha a cometer os mesmos erros que o PT desde seu início, em especial o do eixo "ético-político", como se todos os "anjos" estivessem de nosso lado e todos os "demônios" do outro. foi o que aconteceu com o PT de seu início até 1990, mais ou menos. concordo "in totum" com as três questões propõe como centro de nossa atuação política. em certo sentido, seus questionamentos são os meus. abração psolista. sérgio guimarães, nome de querra que usei no PT.
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0 #3 ConcordânciaHarlem Fherreira 19-05-2009 13:00
Caro amigo Fernando, fico feliz com suas palavras que so expressam a vontade de quem está chegando e preste a embarcar em algum partido "socialista". Sou estudante e militei no PT, naquela epoca, tinhamos que ler a risca a "cartilha do PT" dai veio aquele momento de filia tudo e todos, fecha com tudo e todos, virou bagunça, a conclusão nem preciso falar. No entanto quero aqui ressaltar o que encontrei no Forum Social Mundial, realizado em Belém, fiquei acampado na UFRA, onde estavam Militontos, como disse o Frei Betto, naquela ocasião em discursso sobre o papel do militANTE, encontrei jovens preocupados se estavam bem vestidos, encontrei jovens que estudam e sempre estudaram em escola particular, discutindo a vidsa de um estudante de escola publica, que retrocesso em meu caro, estamos discutindo um mundo melhor, como pedia o tema do Forum e a juventude ali que encontrava, discutia marca de tênis, quem tinha o melhor caro e assim por diante. Fiquei tão desacreditado com a esquerda socialista que naquele momento me deu vontade de sumir dali, logo a frente estava o bairro da terra firme, onde poderiamos encontrar verdadeiras mazelas sociais; Drogas, prostituição, fome, ignorancia, crime de todos os graus, convidei alguns mili"tontos" porém a resposta foi a mesma, a lá é muito arriscado, so tem bandido, vamos ficar aqui é mais seguro. Agora te pergunto...Que papel um jovem desse vai desenvolver para anciosa sociedade civil.
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0 #2 Um sopro de vida para a extrema-esquerdaJonathan 19-05-2009 10:08
Acho que somente uma aliança entre a esquerda governista(Bloco de Esquerda) e a esquerda anti-governista, é possível sonharmos com um futuro viável para uma proposta democrática e socialista. Isto é, aliança entre esquerda e extrema-esquerda. Talvez seja utópico dado o grau de sectarismo da extrema-esquerda.

Sabemos que o PT virou um partido de centro, está totalmente envolvido em formar um centrão com o PMDB, só resta a esquerda se unir, mesmo reconhecendo suas diferenças, e dessa união oferecer uma alternativa mais a esquerda, que quebre a polarização PSDB-PT. Que recria a ilusão de um PT como a única esquerda viável.

A meu ver, o grande equívoco da extrema-esquerda é tranformar a sua divergência ao PT como oposição ao governo PT. Sua função seria sempre fazer pressão para que os próprios trabalhadores pressionem o governo, sem serem confundidos com a direita. Divergir sem se opor. E assim se oferecer como uma alternativa mais a esquerda, e não querer convencer que Lula defende o grande Capital. Dizer que o Lula é moderado é uma coisa, dizer que é conservador ou reacionário, aí é demais! Esse tipo de reducionismo não convence ninguém. E só serve para endoçar o discurso desqualificador da direita.

Infelizmente a extrema esquerda está mais interessada em roubar o eleitorado do PT, com essa gritaria, do que derrotar a direita, do que criar uma hegemonia favorável a esquerda, do que desmontar a ideologia dominante que ainda influencia a muitos trabalhadores pouco mobilizados. Acho que derrotando a direita, haverá mais espaço para a esquerda disputarem entre si. Mas será que ainda vale dizer que a esquerda só se une na prisão?

E sem reconhecer os méritos desse governo vai ser difícil perceber o caráter reacionário do retorno dos tucanos, que virão com todas as forças para evitar que o ciclo da esquerda vá além da pessoa do Lula.

Porque não viabilizar um segundo turno entre a centro-esquerda e a esquerda unida? Porque não viabilizar um parlamento majoritariamente de esquerda? Ao invés desta permenente luta fatricida que a direita sempre lucra.
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0 #1 Esquerda ?jose ernesto grisa 19-05-2009 08:42
Hoje para se considerar de esquerda, basta partir da social democracia até .... É uma identidade pertubada pelo pós-modernismo de alguns. A premissa é o PSOL é um partido verdadeiramente anticapitalista?
Qual o conteúdo dado ao seu socialismo.Poder Operário/ camponês, ou poder popular? Qual sua visão da institucionalidade burguesa? Quer transfomar capitalismo menos corrupto? Bloco histórico ou alianças eleitorais? Financiamento de campanhas pela burguesia? A atual trajetória já pode se prever onde vai acabar. Para que serve a história?
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