Rebelo em verde, amarelo, branco, azul anil...

 

Aldo Rebelo serviu-se de simples proposta de deputados paraguaios ao Parlamento do Mercosul para publicar, no poderoso Estado de S. Paulo, de 1º de maio, dia internacional dos trabalhadores, desbragada defesa da ação criminal do Império, quando da destruição do Paraguai como nação independente, em 1864-1870. A diatribe foi publicada dias antes da chegada de Fernando Lugo, na procura de rediscussão do acordo imposto pela ditadura brasileira, nos anos 1970, quando reinava no Paraguai Alfredo Strossner, o sinistro ditador morto há alguns anos, em Brasília, em exílio dourado, concedido sem qualquer ranger de dentes.

 

Rebelo não se opõe ao "Memorial da Guerra da Tríplice Aliança" a ser organizado pelo Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai. Indigna-se, porém, com a possibilidade de que tenha como objetivo rememorar o "genocídio levado a cabo contra o povo paraguaio", que define como "ignomínia contra o Brasil". Para apoiar sua defesa incondicional da ação do Império contra a pequenina nação, desenvolve desbragada manipulação nacional-patriótica da verdade e dos métodos históricos, ao estilo "verde, amarelo, branco, azul anil", dos anos 1970. Nada estranho nos atuais tempos bicudos, se o deputado não se assinasse comunista.

 

Abraçando o irracionalismo e o relativismo histórico, Rebelo propõe ser impossível escrever história isenta da guerra, pois as análises sobre ela variariam segundo os "autores e as conjunturas". Fulmina as leituras do "passado com as lentes do presente", talvez sugerindo que deva ser analisado com os olhos do passado ou do futuro! Defende que, para se terem "conclusões irrefutáveis" sobre "aspectos controversos da guerra", faltariam, sobretudo, "muitos documentos a apresentar". Proposta paradoxal para apoiador de governo que rejeita caninamente a exigência dos historiadores ao direito de consulta de documentos sobre o conflito, classificados como secretos pelo atual governo!

 

O mau uso da história

 

Rebelo empreende igualmente passeio sumário na historiografia do conflito. Sempre apoiado na atual historiografia nacional-patriótica restauracionista, esclarece que as "primeiras interpretações tecidas nos panteões oficiais" – em geral por oficiais das forças armadas – teriam sido sucedidas por "criticismo exarcebado", que define como "revisionismo infantil". Fulmina, assim, sem ter a coragem de citar, o estudo ‘Genocídio americano: uma história da Guerra do Paraguai’, do jornalista Júlio Chiavenatto, que, apesar de seus indiscutíveis limites, contribuiu corajosamente, durante a ditadura, ao esclarecimento da ação – esta sim ignominiosa – do governo imperial no Paraguai.

 

Promove paradoxal defesa do imperialismo inglês na Bacia do Prata, ao propor que o Império Britânico, além de não ter responsabilidades no conflito, teria tentado "pôr panos quentes na desavença"! Destaque-se que, em ‘Cartas dos campos de batalha do Paraguai’, o diplomata britânico sir Richard F. Burton [1821-1890] registrou, sem papas na língua, a visão geral das classes dominantes da grande potência imperialista: "Minhas simpatias vão para o Brasil, pelo menos enquanto sua ‘missão’ for desaferrolhar [...] o grande Mississipi do Sul".

 

Na sua empolgação nacional-patriótica, desatento à própria linguagem – surpreendente para autor de proposta de lei supostamente destinada a proteger a língua portuguesa da ingerência externa –, afirma nada menos do que o "nosso [sic] Império escravista" seria "pacifista", escamoteando com sua apologia as múltiplas intervenções imperialistas do Segundo Reinado no Prata, entre 1851-1876! Registre-se a paradoxal apresentação do exército imperial como vanguarda da Abolição! [...] o Segundo Reinado era pacifista [...], e foi a guerra que conferiu a esta força militar fôlego e consciência para se reorganizar e se consolidar como instituição decisiva, a ponto de ser protagonista das rupturas históricas representadas pela Abolição [...]."

 

Para inocentar os crimes realizados na guerra, apoiado em "pesquisadora americana [sic]" – estadunidense, prezado deputado! –, impugna a estimativa de 1,1 milhão de habitantes para o Paraguai, que reduz para 320 mil, dos quais "60 mil" teriam morrido "durante a guerra". O paradoxal no raciocínio é que, se esses números forem corretos, o Paraguai teria perdido em torno de 20% de sua população! Um verdadeiro e indiscutível genocídio! A minoração apologética extremada da população paraguaia deixa também em péssimos panos o Império que, com mais de nove milhões de habitantes, necessitou de seis anos, dezenas de milhares de mortos e recursos impressionantes para se impor ao país, segundo proposto na época, com uma população menor do que a da província do Rio Grande do Sul – 430 mil habitantes, em 1872!

 

Guerra entre nós, paz com os senhores!

 

A avaliação histórica de Rebelo do grande conflito é de relativismo patriótico paradoxal. No conflito, o Paraguai teve suas razões e seus heróis, ao igual que o Brasil. "Cabe-nos", apenas, "perfilar os heróis de cada lado", cantando, cada um, paraguaio e brasileiro, loas aos seus feitos patriótico-militares. "Os combatentes paraguaios merecem a honra eterna de seus compatriotas", como "os mais de 50 mil brasileiros mortos merecem e aguardam o reconhecimento pleno da pátria, pois foi por ela e em nome dela que pereceram [...]" – propõe o deputado.

 

Visão que liquida qualquer possibilidade de construção de interpretação geral da história, desde o ponto de vista dos povos e dos oprimidos, ao reduzi-la à realidade de valores e parâmetros essencialmente nacional-patrióticos, que irmana oprimido e opressores. No frigir dos ovos, Rebelo substitui o grito sintético sobre a falta de contradição entre os oprimidos de todo o mundo, lançado há 161 anos, com a velha proposta nacional-patriótica de que os "proletários e povos de todo o mundo devem unir-se .... sob o mando das suas respectivas classes dominantes!".

 

Sem dúvidas a "historiografia ainda tem um longo caminho a percorrer" para elucidar todos os aspectos daquela guerra fratricida. Porém, ao contrário do que propõe Rebelo, não há hoje dúvidas, entre os especialistas não dogmáticos, sobre o caráter socialmente avançado do Paraguai, nascido das suas singularidades históricas que deprimiram o surgimento de classes proprietárias e comerciais, ensejando o desenvolvimento de poderosa classe de pequenos camponeses proprietários ou arrendatários, sobretudo das grandes fazendas públicas do país. Principal base social dos governos nacional-jacobinos paraguaios do dr. Francia e de Lopez pai e filho.

 

Contra-revolução liberal

 

O sentido da guerra contra o Paraguai explicita-se plenamente após o conflito, quando o país, sob governos fantoches e liberais, foi obrigado a endividar-se para pagar, por décadas, indenizações draconianas ao Brasil e à Argentina e perdeu boa parte de seus territórios em favor desses países. A guerra constituiu, sobretudo, espécie de implantação, sob as forças das armas, com o apoio indiscutido da Inglaterra, de ordem liberal-mercantil no país. A partir dos anos de ocupação militar pelos exércitos do Império brasileiro, privatizaram-se aceleradamente as fazendas públicas, os ervais, as reservas florestais e constituíram-se grandes latifúndios, em geral propriedades de estrangeiros – argentinos, ingleses, brasileiros, paraguaios colaboracionistas etc.

 

Desde a independência, em 1810, até o fim do sangrento conflito, em 1870, o Paraguai fora caso único de estabilidade política e social na América do Sul. Ao desorganizar para todo o sempre o poderoso campesinato de origem guarani, derrotado e profundamente dizimado durante a guerra, o conflito lançou aquela nação em uma situação de instabilidade e ditaduras militares permanentes, cortejadas e manipuladas pelos grandes interesses econômicos, especialmente do Brasil e da Argentina.

 

Alfredo Strossner manteve, de 1954-1989, uma das mais longevas, corruptas e desapiedadas ditaduras latino-americanas, ao dar as costas à Argentina e obter o apadrinhamento permanente dos sucessivos governos brasileiros. Foi durante o seu governo que os ditadores em turno no Brasil ditaram as condições draconianas que permitiram a construção da Usina Hidroelétrica de Itaipu Binacional. Fernando Lugo elegeu-se defendendo precisamente uma rediscussão desses acordos espúrios e a devolução parcial das terras arrancadas ao campesinato paraguaio, hoje em boa parte nas mãos de grandes sojicultores brasileiros.

 

Por uma história e política dos povos

 

Os crimes cometidos contra a população e a nação paraguaias são de exclusiva responsabilidade das classes dominantes brasileiras, como um todo, e das facções liberais argentinas e uruguaias de então. No Brasil, na Argentina, no Uruguai, a população pobre partia, não raro, manietada e tratada como gado, para ir lutar em conflito que literalmente abominava, pois tudo tinha a perder e nada a ganhar na luta contra os irmãos paraguaios.

 

Na Argentina, os gaúchos desertaram e levantaram-se em armas aos milhares contra os governos liberais de Mitre e Sarmiento que agrediam sua autonomia provincial e os direitos nacionais paraguaios. No Brasil, a negativa do homem livre em partir para o Prata obrigou a compra e libertação de cativos destinados a morrer sob bandeira negreira que manteria nos grilhões, por ainda quase vinte anos, seus irmãos. Durante a guerra, os quilombos brasileiros regurgitaram de desertores, que compreendiam que, se "deus é grande, o mato é maior!".

 

Ao contrário do que afirmam os proprietários das riquezas e do poder e seus intelectuais arrendados, não houve, ontem, como não há hoje, contradições entre os trabalhadores e trabalhadoras, entre os homens e as mulheres de bem das nações latino-americanas. O "Memorial da Guerra da Tríplice Aliança" que devemos construir deverá cimentar a aliança dos trabalhadores, pobres e oprimidos latino-americanos e celebrar o martírio dos populares e combatentes guaranis, brasileiros, argentinos e uruguaios, ceifados no altar dos mesquinhos interesses das suas classes dominantes nacionais.

 

Mário Maestri é doutor em História pela UCL, Louvain, Bélgica. Foi preso e refugiado durante a Ditadura Militar brasileira. É atualmente comunista sem partido.

 

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Comentários   

0 #7 Diego Ferreira 21-05-2009 13:43
O que me espanta é que as pessoas ainda "surpreendem-se" quando um representante do stalinista PCdoB defende uma postura nacional - desenvolvimentista. Depois de tantos anos ajoelhando-se frente ao governo Lula e dizendo amém à cartilha neo-liberal, o que poderíamos esperar desses que mantém o nome "comunistas" mas que, na verdade, há muito tempo são a "vanguarda do peleguismo"? Depois da tentativa da Folha de falsificar a história da ditadura no Brasil, já não esperava mais nada destes jornais comprometidos com o aprofundamento da desigualdade e miséria de nosso povo.
No entanto, obrigado Professor Maestri, acredito que tenha colocado as idéias desse deputado no seu devido lugar.
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0 #6 Marxismo AutogestionárioRaymundo Araujo Filho 19-05-2009 13:08
Ao meu ver e com todo o respeito, o Djalma Batiglahia precisa ampliar e atualizar suas a sapiências sobre Marxismo e Comunismo.

Se procurar vai encontra vasto movimento com a vertente do Marxismo Autogestionário, que não coloca exatamente o partido como a maior construção possível para o Comunismo.

Esta vertente considero importante, pois poderá fazer uma ponte entre os Anarquistas Originários e suas vertentes e Marxistas críticos ao que fizeram do Marxismo Econômico e Político em algo que chamamos Socialismo Autoritário.

E não precisamos desconsiderar a história, seus mártires e vítimas, que independente de concordâncias ou não, ofereceram suas vidas ao que acreditaram. Mas sem eximirmos de críticas profunadas e denúncias necessárias para que a História se faça REALMENTE, e não seja apenas IDEALIZADA.

Recomendo a Rede Social Ning MOVAUT (Movimento Autogestionário), onde estamos desenvolvendo bons debates sobre o tema.

Esta Rede Social é iniciativa do jovem prof. Nildo Vianna (UFGo), que desenvolve estudos sobre o Marxismo Autogestionário, por identificar textos de Marx que possibilitam esta extração política.
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0 #5 \"...certo, perdeste o senso...\"Breno Nascimento 17-05-2009 19:39
Em primeiro lugar, não posso deixar de louvar o Mestre Mário pela lucidez intelectual e científica com que criticou o texto do Deputado. Que bom seria se o "Estadão" publicasse também este texto do Mestre Mário, exercendo em plenitude a tão propalada liberdade de imprensa, jogando luzes diversas sobre fato tão relevante para a compreensão dos processos políticos do nosso castigado continente. Depois de ler o texto do Mestre Mário me ponho a pensar: Que tipo de herança histórica, estamos deixando no presente para o futuro do nosso país? Já não basta a proliferação de siglas partidárias órfãs de berço político e ideológico no Brasil, barrigas políticas de aluguel que agora descobriram que podem se unir e se constituir em grande força de barganha? E vem justamente um deputado comunista, e do PC do B, para alimentar as mentiras históricas que sempre nos jogaram no fosso do desenvolvimento. Se esta interpretação partisse de um deputado de direita, de algum general reacionário, ou de algum pós-comunista do PPS, eu até entenderia e respeitaria. Mas partindo de um deputado comunista, só consigo compreender pela ótica da anestesia política em que está mergulhada a nossa esquerda, preocupada apenas em mediar as contradições do capitalismo brasileiro. A mim me parece um embace do senso de verdade e de história, cacoete adquirido do grande esforço político para garantir a execução do projeto político que se propõe elevar a posição do Brasil no cenário mundial. Não é negando a brutalidade do genocídio nesta guerra contra nossos irmãos paraguaios, que vamos tornar o Brasil mais forte. Pelo contrário, é a luz verdadeira sobre estes - e muitos outros - fatos históricos que irão nos permitir corrigir a história, alinhar nossos interesses continentais, e tirar o nosso continente do porão do desenvolvimento em que foi jogado pelos colonizadores.
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0 #4 Doutor ComunistaDjalma Batigalhia 14-05-2009 14:45
Quando se critica um artigo, convém no portal, a publicação na íntegra do artigo criticado. Pincelar um artigo - criticando e zombando dos itens pincelados- é algo ruim para o debate.

Mais importante que o artigo, entretanto, é a forma como o autor se apresenta: comunista sem partido... Nem trotski conseguiu ir tão longe nessa aberração surrealista. Comunista sem partido talvez é a evolução histórica do rebelde sem causa.
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0 #3 Jeronimo Castro 14-05-2009 11:27
Nada, absolutamente nenhuma traição ou mentira, me surpreende nos Estalinistas de sempre.
O PC do B segue fiel a si mesmo, ou seja fiel a um Estalinismo cadudo e reacionario
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0 #2 José Damião de Lima Trindade 14-05-2009 09:21
Parabéns ao historiador Mário Maestri, sempre lúcido, corajoso e contundente na defesa da verdade histórica. A guerra genocida CONTRA o Paraguai não pode mesmo ser mais tomada como uma bravata patrioteira. Aliás, esta seria uma boa oportunidade para o governo brasileiro abrir os arquivos secretos que ainda mantém - passados já quase 150 anos ! - sobre aquela guerra imperialista que não nos orgulha. Já que não tem coragem de abrir os arquivos secretos sobre nossa ditadura militar recente, que o faça, ao menos, em relação àquela guerra. Ou terá também medo de que os historiadores venham a comprovar documentalmente, e por fontes brasileiras, o que já de sabe?
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0 #1 comunista?Paulo de Carvalho 14-05-2009 09:02
apenas os parabéns ao articulista por sua clareza e acuidade na análise do texto do deputado, onde o que surpreende já foi assinalado por maestri - ele ainda se assina comunista!
então, o deputado publica no estadão porque o estadão mudou, ou o estadão publica o deputado porque o deputado mudou?
that's the question!
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