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O papa do anátema Imprimir E-mail
Escrito por Léo Lince   
Qui, 17 de Maio de 2007
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Quando o cardeal Ratzinger foi escolhido papa, todos se lembram, a fumaça que noticia o eleito não saiu tão branca. Saiu cinzenta e duvidosa. Foi necessária a intervenção da grossa materialidade de bronze, o badalar dos sinos do Vaticano, para que as dúvidas do Espírito Santo ficassem subsumidas na clareza do anúncio: o que era conhecido até então como um grande inquisidor assumiu o trono de Roma.

 

Entre as qualidades do novo papa, versado na doutrina, a de maior realce é a sua condição de intelectual sofisticado. Um Maquiavel na condição de príncipe. Como tal, ele não fala como profeta que anuncia a boa nova em meio aos clamores do mundo. As coisas e os problemas estão no mundo, mas ele nem a igreja precisam aprender. Navega com desenvoltura no mundo apartado da doutrina, considerada soberana e suficiente como plataforma a partir da qual se distribui normas e reprimendas. Não desperta entusiasmo, mas temor. Ao contrário do seu antecessor, que também era conservador, mas falava de um outro ponto de vista. 

 

A recente visita ao Brasil, que produziu uma verdadeira overdose de exposição na mídia, serviu de vitrine para a feição, a fala e estilo puro e duro do pastor alemão feito pontífice. E ele não fez por menos: pontificou como teólogo radical na defesa da ortodoxia da doutrina. A agenda de temas levantados por Bento 16 nesta visita, no fundamental, foi negativa e conservadora.

 

Na questão dos costumes, ele pagou geral. Pílulas?  Só as de frei Galvão. E “selinho” pode? Só os comemorativos da visita papal. Camisinha, nem pensar. Casais católicos praticantes que buscaram refazer seus lares em segundas núpcias? Uma praga. Enfim, desfiou um rosário de repreensões em absoluto descompasso com as práticas comuns até entre seus fiéis seguidores.

 

Mas não ficou nisto. Na política, sem falar nas questões nebulosas sobre uma eventual “concordata” entre o Vaticano e o Brasil, a agenda pública do papa operou na mesma clava. O estado laico, uma conquista republicana decisiva para a afirmação da liberdade, inclusive religiosa, foi objeto de condenação implícita. Ensino religioso obrigatório nas escolas, retrocesso histórico, foi defendido. Excomunhão para os parlamentares que tratarem o aborto como questão de saúde pública. Milhares de mulheres continuarão morrendo todo ano, mas está no Código.

 

Assim como o diálogo, o ecumenismo está em baixa. O encontro com as outras denominações religiosas – algumas nem foram convidadas - foi um espetáculo vazio de conteúdo. Afinal, são seitas que não resistirão ao fogo dos pregadores da nova evangelização. Até a história da colonização foi reescrita pela nova doutrina, que não faz fé nos fatos, nem respeita a alma dos dizimados. O frei Bartolomeu de Las Casas, heróico defensor dos índios contra os métodos brutais dos colonizadores, deve ter se retorcido na tumba.

 

Os conservadores dominam a burocracia do Vaticano e se ocupam em desmontar meticulosamente o legado de João 23. O Concílio Vaticano 2º, acompanhando os ventos democráticos que sopravam na década de 60 do século passado, patrocinou uma abertura da igreja para o mundo.  Os ventos agora são outros. O diálogo, o ecumenismo e a liberdade são caminhos perigosos. O Mistério, o Milagre e a Autoridade é o que deve disciplinar o tropel dos rebanhos.

 

Otto Maria Carpeaux, no belo ensaio introdutório da edição brasileira dos “Irmãos Karamazov”, escreveu: “a filosofia do Grande Inquisidor – o direito absoluto da Igreja-Estado, representada por uma elite ideologicamente formada, sobre as consciências e os corpos – é a filosofia do totalitarismo”.  Neoconservadorismo sem compaixão: Bush, Sarkozy, papa do anátema.

 

 

Léo Lince é sociólogo.

 

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