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Anotações sobre as notas Imprimir E-mail
Escrito por Gabriel Perissé   
Qui, 17 de Maio de 2007
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Sempre tive dificuldade para entender o que leva um professor a “dar” nota 4,3 e não 4,8 a um aluno. Tudo bem, nunca fui muito “objetivo”, e talvez por isso a minha limitação. Sempre intrigante, também, aquela reclamação do estudante reprovado: “fiquei por meio ponto...”

 

Pelo menos em São Paulo parece que esse problema está resolvido, conforme a notícia divulgada recentemente. Pelo novo padrão de médias bimestrais na rede pública estadual, as notas serão arredondadas para mais. O aluno que, por exemplo, obtiver nota 4,1 na média anual terá sua nota arredondada para 5.

 

As notas são experiência bidirecional. Quando o professor “dá” nota 2 para o aluno “fraco” está, ipso facto, “dando” nota 2 para si mesmo! Merece nota 2 o professor “fraco” que não conseguiu que seu aluno “tirasse” nota melhor.

 

Esse “dar” notas e esse “tirar” notas — esses verbos transformam as notas em valores a serem “tirados” de alguém, que, benevolamente, pode concedê-los. Ou não. Imagino aluno e professor em animado cabo-de-guerra, cada qual puxando para si o famigerado meio ponto.

 

Avaliar é uma das tarefas mais difíceis da tarefa docente. Porque estamos falando em avaliar o conhecimento que uma pessoa adquiriu, que um jovem, que uma criança assimilou. Avaliar objetos é simples. O sapato está furado? Nota zero. O computador está lento? Nota 4. O automóvel é novo? Nota 10.

 

A nota 10 é uma nota curiosa. Há professores que dizem jamais terem “dado” nota 10, pois ninguém seria capaz de saber tudo. A nota 10 pode representar o fim dos estudos. Excelente, o aluno decorou e “tirou” nota 10. Passou direto. E daí?

 

Mas a nota 5 também é interessante. “Tirar” nota 5 significa que eu sei metade de tudo. E já não seria maravilhoso? Talvez por isso, em geral, os estudantes sejam aprovados com nota 5.

 

Para alguns sistemas, só passa quem “tira” nota 7, pois saberá 70% de tudo. Se eu soubesse 70% de Filosofia ou Física eu seria um Sócrates, um Einstein.

 

No dia-a-dia praticamos avaliações. Avaliamos um serviço, uma conversa, uma proposta. Apreciamos. Julgamos. Aprovamos. Reprovamos. Também no âmbito escolar precisamos exercitar o espírito de avaliação.

 

Contudo, as notas tentam quantificar algo que me parece imponderável. E elas nos fazem esquecer a grande contribuição dos erros. A nota zero vale tanto, ou mais, do que um 10.

 

 

Gabriel Perissé é doutor em Educação pela USP e escritor.

Web Site: http://www.perisse.com.br

 

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