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A esquerda e a crise Imprimir E-mail
Escrito por José Luis Fiori   
Terça, 05 de Maio de 2009
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A esquerda keynesiana interpreta de forma mais ou menos consensual a nova crise econômica mundial que começou no mercado imobiliário americano e se alastrou pelas veias abertas da globalização financeira. Seguindo o argumento clássico de Hyman Minsky [1], sobre a tendência endógena das economias monetárias à "instabilidade financeira", às bolhas especulativas e a períodos de desorganização e caos provocados pela expansão desregulada do crédito e do endividamento, quando se faz inevitável a intervenção pública e o redesenho das instituições financeiras [2] sem que isto ameace a sobrevivência do próprio capitalismo. Por isto, apesar de suas divergências a respeito de valores, procedimentos e velocidades, todos os keynesianos acreditam na eficácia, e propõem, neste momento, uma intervenção massiva do Estado para salvar o sistema financeiro e reativar o crédito, a produção e a demanda efetiva das principais economias capitalistas do mundo [3].

 

No caso da esquerda marxista, entretanto, não existe uma interpretação consensual da crise, nem existe acordo sobre os caminhos do futuro. Alguns seguem uma linha próxima da escola keynesiana e privilegiam a financeirização capitalista como causa da crise atual, enquanto outros seguem a linha clássica da teoria da "sobreprodução", do "subconsumo" [4] e da "tendência ao declínio da taxa de lucros" [5]. E ainda existe uma esquerda pós-moderna que interpreta a crise atual como resultado combinado de tudo isto e mais uma série de determinações ecológicas, demográficas, alimentares e energéticas.

 

Do ponto de vista propositivo, alguns marxistas acreditam na eficácia de uma solução "keynesiana" radicalizada [6], outros acham que chegou a hora do socialismo [7], e muitos consideram que acabou o capitalismo e a modernidade e só cabe lutar por uma nova forma de globalização solidária, onde as relações sociais sejam desmercantilizadas, e o produto social seja devolvido aos seus produtores diretos [8]. Numa linha diferente, se colocam os autores neomarxistas que associam as crises econômicas capitalistas com o que chamam de ciclos e crises hegemônicas mundiais, que envolvem, além da economia, as relações globais de poder [9].

 

Estas teorias lêem a história do sistema mundial como uma sucessão de ciclos hegemônicos, uma espécie de ciclos biológicos dos Estados e das economias nacionais que nascem, crescem, dominam o mundo e depois decaem e são substituídos por um novo Estado e uma nova economia nacional que percorreria o mesmo ciclo anterior até chegar à sua própria hora da decadência. Neste momento, a maioria destes autores considera que a crise econômica atual é uma parte decisiva da "crise da hegemonia" dos EUA, que deverão ser substituídos por um novo centro de poder e acumulação mundial de capital, que provavelmente está situado na China.

 

Do nosso ponto de vista, entretanto, a melhor maneira de pensar o "sistema inter-estatal capitalista", que se formou a partir da expansão européia do século XVI, não é através de uma metáfora biológica, e sim cosmológica, olhando para o sistema como se ele fosse um "universo em expansão" contínua. Com um núcleo central formado pelos Estados e economias nacionais que lutam pelo "poder global", que são inseparáveis, complementares e competitivos e que estão em permanente preparação para a guerra, uma guerra futura e eventual, que talvez nunca ocorra, e que não é necessário que venha a ocorrer [10].

 

Por isto, os Estados e economias que compõem o sistema inter-estatal capitalista estão sempre criando, ao mesmo tempo, ordem e desordem, expansão e crise, paz e guerra. E as potências que uma vez ocupam a posição de liderança não desaparecem nem são derrotadas por seu "sucessor". Elas permanecem e tendem a se fundir com as forças ascendentes, criando blocos político-econômicos cada vez mais poderosos como aconteceu, por exemplo, no caso da "sucessão" da Holanda pela Grã Bretanha, e desta pelos Estados Unidos, que significou de fato um alargamento sucessivo das fronteiras do poder anglo-saxônico. Não existe ainda nenhuma teoria que dê conta das relações entre as crises econômicas e as transformações geopolíticas do sistema mundial. Mas o que já está claro faz muito tempo é que dentro do sistema inter-estatal capitalista, as crises econômicas e as guerras não são, necessariamente, um anúncio do "fim" ou do "colapso" dos Estados e das economias envolvidas. Pelo contrário, na maioria das vezes fazem parte de um mecanismo essencial da acumulação do poder e da riqueza dos Estados mais fortes envolvidos na origem e na dinâmica destas grandes turbulências.

 

Do nosso ponto de vista, as crises e guerras que estão em curso neste início do século XXI ainda fazem parte de uma transformação estrutural, de longo prazo, que começou na década de 1970 e provocou uma "explosão expansiva" e um grande aumento da "pressão competitiva" interna, dentro do sistema mundial. Esta transformação estrutural em curso começou na década de 70, exatamente no momento em que se começou a falar de "crise da hegemonia americana", e de início da "crise terminal" do poder americano.

 

E, no entanto, foi a resposta que os EUA deram à sua própria crise que acabou provocando esta transformação de longo prazo da economia e da política mundial que está em pleno curso. Basta dizer que foram estas mudanças lideradas pelos EUA que trouxeram de volta ao sistema mundial, depois de 1991, as duas velhas potências do século XIX, a Alemanha e a Rússia, além de incluir dentro do sistema a China, a Índia, e quase todos os principais concorrentes dos Estados Unidos deste início de século.

 

Neste sentido, aliás, a "crise de liderança" dos Estados Unidos, depois de 2003, serviu apenas para dar uma maior visibilidade a este processo que se acelerou depois do fim da Guerra Fria, já agora com novas e velhas potências regionais atuando de forma cada vez mais "desembaraçada" na defesa dos seus interesses nacionais e na reivindicação de suas "zonas de influência".

 

Do ponto de vista do sistema inter-estatal capitalista, esta dinâmica contraditória significa que os EUA ainda estão liderando as transformações estruturais do próprio sistema. A política expansiva dos EUA, desde 1970, ativou e aprofundou as contradições do sistema, derrubou instituições e regras, fez guerras e acabou fortalecendo os estados e as economias que hoje estão disputando com eles as supremacias regionais ao redor do mundo. Mas, ao mesmo tempo, estas mesmas competições e guerras cumpriram e seguem cumprindo um papel decisivo na reprodução e na acumulação do poder e do capital norte-americano, que também necessita manter-se em estado de tensão permanente, para reproduzir sua posição no topo da hierarquia mundial. O fundamental, no fim de cada uma destas grandes tormentas, é saber quem ficou com o controle da moeda internacional, dos mercados financeiros e da inovação tecnológico-militar de ponta.

 

Neste momento, não há perspectiva de superação do poder militar dos EUA, do ponto de vista de suas dimensões atuais, da sua velocidade de expansão e da sua capacidade de inovação, apesar do seu insucesso no Oriente Médio. E tampouco existe no horizonte a possibilidade de substituição dos EUA como "mercado financeiro do mundo", devido à profundidade e extensão dos seus próprios mercados e do seu capital financeiro, e devido à centralidade internacional da moeda americana. Basta olhar para a reação dos governos e dos investidores de todo o mundo, que estão se defendendo da crise do dólar fugindo para o próprio dólar e para os títulos do Tesouro americano, apesar de sua baixíssima rentabilidade e apesar de o epicentro da crise estar nos EUA. E o que mais chama a atenção é que são exatamente os governos dos Estados que estariam ameaçando a supremacia americana os primeiros a se refugiarem na moeda e nos títulos do seu Tesouro.

 

Para explicar este comportamento aparentemente paradoxal é preciso deixar de lado as teorias econômicas convencionais, também as teorias das crises e "sucessões hegemônicas", e olhar para a especificidade deste novo sistema monetário internacional que nasceu à sombra da expansão do poder americano, depois da crise da década de 70.

 

Desde então, os EUA se transformaram no "mercado financeiro do mundo" e o seu Banco Central (FED) passou a emitir uma moeda nacional de circulação internacional, sem base metálica, administrada através das taxas de juros do próprio FED e dos títulos emitidos pelo Tesouro americano, que atuam em todo mundo, como lastro do sistema "dólar-flexível". Por isto, a quase totalidade dos passivos externos americanos é denominada em dólares e praticamente todas as importações de bens e serviços dos EUA são pagas exclusivamente em dólar. Uma situação única que gera enorme assimetria entre o ajuste externo dos EUA e dos demais países.

 

Por isto, também, a remuneração em dólares dos passivos externos financeiros americanos que são todos denominados em dólar segue de perto a trajetória das taxas de juros determinadas pela própria política monetária americana, configurando um caso único em que um país devedor determina a taxa de juros de sua própria "dívida externa" [11]. Uma mágica poderosa e uma circularidade imbatível, porque se sustenta de forma exclusiva no poder político e econômico norte-americano. Agora mesmo, por exemplo, para enfrentar a crise, o Tesouro americano emitirá novos títulos que serão comprados pelos governos e investidores de todo mundo, como justifica o influente economista chinês, Yuan Gangming, ao garantir que "é bom para a China investir muito nos EUA; porque não há muitas outras opções para suas reservas internacionais de quase US$ 2 trilhões e as economias da China e dos EUA são interdependentes" (Folha de S. Paulo, 24/11).

 

Por isto, do meu ponto de vista, apesar da violência desta crise financeira, e dos seus efeitos em cadeia sobre a economia mundial, tampouco haverá uma "sucessão chinesa" na liderança política e militar do sistema mundial. Pelo contrário, do ponto de vista estritamente econômico, o mais provável é que ocorra um aprofundamento da fusão financeira em curso desde a década de 90 entre a China e os Estados Unidos, e esta integração será decisiva para a superação futura da crise econômica. A crise atual começou na forma de um tufão, mas deverá se prolongar na forma de uma "epidemia darwinista", que irá liquidando os mais fracos, por níveis sucessivos, nacionais e internacionais, e aprofundará a corrida imperialista que começou nos anos 90. Na hora da volta do Sol poucos estarão na praia, mas com certeza os EUA ainda estarão na frente deste grupo seleto. E quase todos os países que estavam ascendendo nas duas últimas décadas e desafiando a ordem internacional estabelecida serão "recolocados no seu lugar". Neste período haverá resistência e haverá conflitos sociais agudos, e se a crise se prolongar deverão se multiplicar as rebeliões sociais e as guerras civis nas zonas de fratura do sistema mundial, e é provável que algumas destas rebeliões voltem a se colocar objetivos socialistas. Mas do nosso ponto de vista, não haverá uma mudança de "modo de produção" em escala mundial, nem tampouco ocorrerá uma "superação hegeliana" do sistema inter-estatal capitalista.

 

José Luís Fiori é cientista político.

 

Originalmente publicado na Rede Adital – http://www.adital.com.br/

 

Notas:

 

[1] Minsky, P.H.(1975) The Modeling of Financial Instability: An introduction", 1974, Modelling and Simulation. John Maynard Keynes, 1975, e "The Financial Instability Hypothesis: A restatement", 1978, Thames Papers on Political Economy.

 

[2] Wade, R. (2008), "A new global financial architeture", in New Left, n53, set/out

 

[3] Ferrari, F. e Paula, L.F. (2008), Dossiê da Crise, Associação Keynesiana Brasileira, UFRGS

 

[4] Oliveira, F. (2009), "Vargas redefiniu o país na crise de 30", in www.cartamaior.com.br, 6/01/2009

 

[5] Brenner, R. (2008)"O princípio de uma crise devastadora", in , in Against the Current, fev 2008

 

[6] Tavares, M.C. (2008), "Entupiu o sistema circulatório do sistema do capitalismo", in www.cartamaior.com.br 13/11/2008 e Belluzzo,L.G. (2008) "Cortar gasto publico?", www.cartamaior.com.br. 13/11/2008

 

[7] Amin, S. (2008). "There is no alternative to socialism", in Indian’s National Magazine, vol 25, issue 26, de 20/12/2008 e Meszaros, I.(2009) "A maior crise na história humana", in www.cartamaior.com.br, 07/02/2009

 

[8] Wallerstein, I. (2008) "Depressão, uma visão de longa duração", in www.cartamaior.com.br, 13/11/2008

 

[9] Arrighi, G. (2008) "A hegemonia em cheque", in www.cartamaior.com.br, 19/06/2008

 

[10] Este argumento está desenvolvido em J.L.Fiori "O Poder Global e a Nova Geopolítica das Nações", Editora Boitempo, São Paulo, 2007, e no artigo "O sistema interestatal capitalista, no início do Século XXI", in J.L.Fiori, C.Medeiros e F.Serrano, "O Mito do Colapso do Poder Americano", Editora Record, Rio de Janeiro 2008.

 

[11] Serrano, F. (2008) "A economia Americana, o padrão "dólar-flexível" e a expansão mundial nos anos 2000", in J.L Fiori, F. Serrano e C. Medeiros, O MITO DO COLAPSO DO PODER AMERICANO,Editora Record, Rio de Janeiro.

 

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