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Sobre chicotadas, ferrovias e absurdos Imprimir E-mail
Escrito por Maria Clara Lucchetti Bingemer   
Segunda, 27 de Abril de 2009
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Quando se pensa que já se viu tudo e não falta mais nada, parece que o "nonsense" em que vivemos mergulhados neste momento, no Rio, consegue nos surpreender. Como se não fosse suplício suficiente viajar nos superlotados trens cariocas, que torturam diariamente os pobres trabalhadores que tentam chegar ao local de trabalho a fim de ganhar seu pão, agora também são obrigados a suportar agressões físicas e castigos violentos.

 

No último dia 15, a cidade acordou perplexa diante das imagens que a TV veiculava. Os seguranças da estação de trens da Supervia no bairro de Madureira, zona Norte do Rio, espancavam cruelmente os passageiros, enquanto os empurravam para dentro dos vagões.

 

Ao olharmos as cenas que revelam apenas uma das profundas e dolorosas chagas a que está exposta diariamente a população carioca, não podemos menos do que perguntar-nos: onde estamos? O que acontece? À nossa frente estão governantes ou dementes?

 

A orfandade política, que é o subproduto da contemplação deste triste espetáculo, se torna mais aguda e o absurdo que se descortina diante de nossos olhos parece crescer infinitamente de tamanho e proporção.

 

No Império Romano, os códigos criminais estipulavam para os escravos a pena de açoite, ao lado de outras, igualmente cruéis e humilhantes, como a marcação a ferro e a quebra de dentes e ossos. No entanto, aos cidadãos romanos, essa pena, quando aplicada, era controlada e mitigada. O próprio Paulo de Tarso, na 2ª epístola aos Coríntios, diz ter recebido de parte dos judeus os quarenta açoites menos um, devido à sua condição de cidadão romano.

 

Aqui parece dar-se exatamente o contrário. São os próprios cidadãos honestos e trabalhadores os agredidos física e violentamente nos transportes públicos, que pagaram com seus impostos e seu sofrido cotidiano. Os mesmos que deveriam zelar por sua segurança e integridade física os agridem da maneira mais inominável, com chicotes improvisados, socos e pontapés.

 

Não, não se trata de nossa imaginação. As imagens estão filmadas pelo celular de outro passageiro que tudo registrou. Mais grave ainda, a câmera registra igualmente dois PMs que, próximos ao local, a tudo assistiram e nada fizeram. Sob a alegação de que os passageiros em questão impediam o fechamento das portas para que o trem prosseguisse viagem, os seguranças partiram para o ataque direto, culminando no chicote improvisado a partir de apetrecho do próprio uniforme.

 

A direção da Supervia, responsável pelos trens, alega que os ânimos estavam exaltados com a greve dos ferroviários e que os seguranças, na verdade, revidaram às provocações. Com todo respeito, isso não atenua em nada o horror da situação. Um agente da ordem deve garanti-la, não ao preço de agredir cidadãos que não cometeram delitos visíveis e apenas se encontram agitados em virtude da desordem e do caos que são obrigados a enfrentar ao usar um serviço que deveria facilitar-lhes a vida e o acesso ao lugar de trabalho.

 

O uso da força bruta para administrar uma situação causada em boa parte pelo próprio Estado, que não consegue lidar com seus compromissos para com a população, não se justifica neste nem em nenhum outro caso. A direção da Supervia jura que os seguranças agressores foram demitidos. E a PM afirma que o soldado que permaneceu impávido, contemplando a cena em vez de intervir, está sendo ouvido pela corporação.

 

Enquanto isso, a tragédia da Cidade Maravilhosa continua. Ao lado do exagero de beleza de que é dotado o Rio, expõe-se com abjeta clareza cada vez maior o abandono em que se encontram os serviços públicos, da saúde ao transporte, da educação à limpeza urbana. Agora, a população fluminense não deve proteger-se apenas de ladrões, bandidos, integrantes das quadrilhas de traficantes e do crime organizado. Tem de tomar cuidado também com os seguranças... e os PMs. Em suma, com aqueles que sustenta com seu imposto para, teoricamente, protegê-la. Doloroso absurdo ao qual é imperioso não habituar-se e, sobretudo, não referendar com o voto.

 

Maria Clara Bingemer é autora de "Deus amor: graça que habita em nós" (Editora Paulinas), entre outros livros. (www.users.rdc.puc-rio.br/agape).

 

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