A tentação de ensinar

 

As tentações existem. São diferentes das que nos acossaram outrora, mas continuam aprontando confusão.

 

Cada profissão tem suas peculiares tentações.

 

A tentação do escritor é escrever o dia inteiro e a noite toda até que lhe doam a mente e as mãos.

 

A tentação do psicólogo é mergulhar na alma alheia, mar sem fim, e ali perder a respiração.

 

A tentação do pescador é pescar o tubarão.

 

A tentação do cozinheiro é não sair do forno e fogão.

 

A tentação de cada um é ser o que é para além de todo e qualquer limite, e então perder sentido e noção.

 

A tentação do professor é ensinar tudo e um pouco mais, dar todas as lições do livro e da apostila, sempre com as melhores intenções.

 

O professor é tentado pelo demônio diplomado, pelas excelentes idéias pedagógicas que povoam sua inteligência, sua memória e imaginação.

 

O professor é tentado a cuidar da avaliação, como se avaliar pudesse todas as dimensões do ser humano, esse mistério em mutação, microcosmo em rotação, poço sem fundo em constante ebulição.

 

O professor é tentado a resolver os mais diversos problemas que invadem sua sala — da Aids às drogas, do tédio ao suicídio, do pavor à depressão... mas não só grandes questões, também problemas menores como infestação de piolhos, gripes, briguinhas, bagunça, conversa paralela e xixi no chão.

 

O professor vive caindo em tentação porque acredita possuir, sempre, para tudo, a melhor solução.

 

O professor é tentado a aceitar humilhações em nome do dever, do amor e da paz, e do perdão... tudo por abnegação.

 

O professor é tentado a gemer um "não" quando deveria gritar "sim", ou a conceder seu "sim" quando seria hora de dizer, apenas, "não".

 

O professor é tentado no deserto a definir o errado e o certo, a ser representante da ética, e a repartir com todos o seu pão, e a repetir, parafraseando Pessoa, que tudo vale a pena quando não é pequeno o coração.

 

O professor é tentado a acreditar em ilusões e esquecer a realidade, ou a só pensar no real e colecionar desilusões.

 

O professor é tentado a prometer a salvação, liderar revoluções, promover a pedagogia da libertação.

 

Ó professor, não se deixe cair em tentação! E que nós nos livremos do pressuposto equivocado de que aprender é, tão somente, ouvir instruções.

 

Gabriel Perissé é doutor em Educação pela USP – Web Site: http://www.perisse.com.br/

 

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Comentários   

0 #3 RealmenteDavid Carneiro 15-05-2009 13:29
Muito bom o artigo! Sou professor e vejo diariamente o professor perder o respeito por si mesmo. Escrevi a respeito em
http://www.feteerj.org.br nos artigos sobre educação. Se chama Educação atual:impasses do profesor e cada vez estou mais convencido da necessidade de resistência.
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0 #2 Tentação de EnsinarMaria do Rosario 01-05-2009 16:19
Adorei! Seu artigo, parece que vc escreveu para mim.Sai da sala de aula muito chateada.Mas sou professora, brasileira, não desisto nunca.
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0 #1 Felipe Sá 29-04-2009 13:22
Em uma sociedade corrupta e corruptora, onde os valores estão deturpados e as pessoas vivem desesperançosa, em quem se espelhar?
Eis que surge um mestre, aquele que se doa, que serve de esteio e exemplo, que vive não para si, mas para transmitir esperança e paz as outras pessoas.
Uma pessoa que fica feliz em ver a felicidade e a vitória nas outras pessoas, mas que fica triste e tem compaixão daquelas que se perdem...
Professor...
Alguém disse: "sejam imitadores de Cristo".
Eu, confirmando, digo: "professor, talvez o seu amor e o seu exemplo, seja o início de uma transformação de vidas".
Obrigado por todos os verdadeiros professores e mestres.
Não desistam!
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