Crise econômica: impasse estrutural

 

A economia mundial naufraga na mais profunda crise dos últimos tempos. Suas reais proporções e seus possíveis desdobramentos são, por enquanto, difíceis de delinear. A cada dia, mais e mais notícias sobre insolvências de bancos, falências de indústrias e, como conseqüência, demissões em massa. A especificidade mais evidente – em contraste com as crises que varreram a economia mundial da década de 90 – reside no fato de que hoje o furacão atinge o coração mesmo do sistema capitalista: os Estados Unidos e as principais economias da Europa e da Ásia.

 

O capitalismo do pós-guerra

 

No momento em que a ordem liberal é atingida em seu núcleo central, as lembranças da crise de 1929 e dos seus encaminhamentos voltam à baila. A crise de 1929 marcou o último suspiro da ordem liberal do século XIX – que já vinha ruindo, no contexto dos processos que produziram a I Guerra Mundial. Com efeito, o exemplo de 1929 demonstra que sem uma intervenção forte do Estado e uma reforma profunda em suas bases, a economia capitalista seria incapaz de superar a crise. Os desdobramentos desse processo conduziram as economias centrais, sobretudo depois da II Guerra, à social-democracia, à chamada "Era de Ouro" do capitalismo: crescimento econômico com uma relativa distribuição de renda, combinados a uma certa ampliação dos direitos.

 

Mas qual era o contexto histórico em 29? Em primeiro lugar, a primeira metade do século XX foi um período de consolidação política das esquerdas, que culminou na Revolução Russa, em 1917. Tomaram corpo um conjunto de pressões sociais durante as décadas de vinte e trinta. Com o final da II Guerra e a vitória sobre o eixo nazi-fascista, tornava-se concreta a perspectiva de um avanço internacional do movimento comunista. Ou seja: nos países centrais, o encaminhamento da crise de 29 e a reconstrução econômica da Europa e do Japão no pós-II Guerra foram relativamente favoráveis aos interesses do povo somente porque houve pressões fortes vindas do próprio povo.

 

Sobre esta base, o capitalismo do pós-guerra contava com três características fundamentais: 1) estruturas econômicas que tinham certa referência em espaços nacionais, o que potencializava os esforços de planificação dos Estados; 2) estruturas industriais cuja técnica possibilitava o emprego em massa; 3) um sistema internacional comprometido com a estabilidade em face de um inimigo comum – a União Soviética –, com uma sólida economia no centro – os Estados Unidos.

 

Com esses fundamentos o centro do capitalismo pôde construir uma sinergia inteligível à luz dos seguintes processos: 1) a estabilidade internacional e o controle dos Estados sobre as economias nacionais produziam um contexto de estabilidade geral; 2) o gasto público criava novas frentes de investimento produtivo público e privado e potencializava a demanda efetiva; 3) os investimentos públicos e privados faziam ampliar maciçamente o emprego, o que, combinados a uma relativa distribuição de renda, também ampliavam o consumo das massas. Estes fundamentos postos em movimento potencializavam o crescimento com uma relativa estabilidade econômica e uma relativa distribuição de renda.

 

O capitalismo contemporâneo. Qual o contexto hoje?

 

O próprio desenvolvimento do capitalismo tornou os processos mais complexos. Esse desenvolvimento produziu: 1) um sistema econômico essencialmente mundializado que reduz o impacto das intervenções dos Estados nacionais; 2) uma estrutura técnica industrial altamente automatizada, incapaz de reproduzir uma expansão em massa do emprego nos mesmos moldes das décadas de 50 e 60. De resto, a economia central do sistema – os Estados Unidos – não é mais a mesma. Desde os anos setenta são evidentes suas debilidades: transnacionalização e precarização do parque industrial, escalada do desemprego e da pobreza, recorrentes déficits comerciais que expressam um padrão de consumo descolado de suas possibilidades de produção e recorrentes déficits públicos que expressam, sobretudo, a construção de uma máquina militar sem precedentes – daí a centralidade de seu poder monetário, financeiro e militar, para sustentar sua hegemonia.

 

Por fim, um último problema: eventual reprodução generalizada de um crescimento econômico, nos mesmos moldes do crescimento do pós-guerra, sob os padrões técnicos e culturais do capitalismo contemporâneo, poderá precipitar o já anunciado colapso ecológico. O movimento hoje caminha para uma transferência dos custos da crise para os de baixo.

 

A periferia

 

Entre a crise de 29 e a década de 70, o Estado nos países subdesenvolvidos, embora dentro de limites muito estreitos, possuía um mínimo de condições para manipular instrumentos de política econômica, em particular a política monetária. Nesse período, por exemplo, o Brasil se industrializou a partir de respostas à crise. No entanto, com a chamada "globalização", os países subdesenvolvidos perderam todas as possibilidades de controlar minimamente os seus espaços econômicos. Com a abertura econômica e financeira essas economias se tornaram reféns do capital internacional – sobretudo do capital financeiro – e absolutamente vulneráveis à dinâmica da economia internacional: tornam-se meros apêndices de economias centrais.

 

Nesse marco, as economias centrais deverão transferir parte substancial dos custos às economias pobres. O resultado será um aumento das tensões internacionais – de que os conflitos no Oriente Médio são um exemplo – e das tensões internas nos países subdesenvolvidos. Pensemos, por exemplo, no que significará, para os países pobres, a reincorporação de milhares de trabalhadores emigrantes desempregados, que serão expulsos dos países ricos.

 

O que fazer?

 

Virou moda, por vezes com um certo cinismo, querer ressuscitar o reformismo do pós-guerra.

 

O velho Marx afirmou que "todos os fatos e personagens de grande importância na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes (...) a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa". Assim como a relativa estabilidade e o relativo progresso do liberalismo do século XIX não puderam ser repetidos no contexto do liberalismo do final do século XX – a não ser como "farsa" – também o reformismo do pós-guerra não poderá ser reproduzido do mesmo modo hoje.

 

Sem uma intensa pressão do povo, o mais provável é que os interesses dominantes procurem formas superficiais de acomodação que implicariam em transferir o ônus da crise para os de baixo. O exemplo mais imediato é a escalada do desemprego em massa acompanhada pelo aumento da opressão sobre imigrantes nos países centrais. Por outro lado, um programa popular para a superação da crise não pode hesitar no que diz respeito aos condicionantes estruturais que impedem a reprodução mecânica do modelo do pós-guerra.

 

No caso da periferia trata-se de impedir que seus governos aceitem arcar com os custos da crise dos ricos. Mesmo que, para tanto, seja necessária uma ruptura estrutural.

 

Carlos Alberto Cordovano Vieira, Andrea Paes Alberico, Carla Dozzi, Guga Dorea, Marietta Sampaio e Thomaz Ferreira Jensen, do Grupo de São Paulo - um grupo de 12 pessoas que se revezam na redação e revisão coletiva dos artigos de análise de Contexto Internacional do Boletim Rede, editado pelo Centro Alceu Amoroso Lima para a Liberdade, de Petrópolis, RJ. contato: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

 

Artigo publicado na edição de março de 2009 do Boletim Rede.

 

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