Dorothy Stang, o governo e o agronegócio

 

Foi uma grata surpresa o artigo recente de Frei Betto, no Correio da Cidadania (Dorothy Stang), lembrando os quatro anos da morte da irmã Dorothy, em Anapu (PA). Vejo-a como um mártir da Floresta Amazônica tão importante quanto Chico Mendes, a equivalente paraense do líder seringueiro acreano assassinado. Faz algum tempo que acho que deveria escrever sobre a irmã Dorothy, pois as circunstâncias e implicações de seu assassinato são muito pouco conhecidas do público em geral. Mas o tema da ameaça da construção da hidrelétrica de Belo Monte, um crime de outra natureza, mas igualmente bárbaro e assassino, nesta mesma região, e que ainda pode ser evitado, tomou completamente a minha atenção.

 

Porém, permitam-me fazer uma pequena correção ao texto do colega colunista: no presente momento o Taradão está solto. Realmente, ele foi preso às vésperas do reveillon. Mas ele já foi libertado pela justiça. Além das inquestionáveis críticas de Frei Betto à impunidade e aos projetos da ditadura militar, com suas consequências variadas e desastrosas, a edição do Correio destacou, em sua chamada da capa: "O resultado do júri demonstra a importância de se federalizar casos emblemáticos de violação dos direitos humanos". Concordo com a sugestão.

 

Mas gostaria de adicionar que o governo federal desde o começo teve amplas oportunidades de punir rápida e definitivamente todo o consórcio de fazendeiros responsáveis pelo assassinato da freira. Mas não pôde fazê-lo porque desde o começo teve um vínculo carnal com o agronegócio devastador. Com este casamento com o agronegócio, o governo traiu, também desde o começo, as propostas originais do PT, organizadas pela equipe da então senadora Marina Silva, para a área ambiental. Da mesma forma que a senadora traiu os princípios de Chico Mendes ao criar um instituto com o seu nome para facilitar o trâmite de licitações ambientais.

 

Digo que as circunstâncias e implicações do assassinato da irmã Dorothy são muito pouco conhecidas do público geral, pois pouca gente sabe que no momento em que ela foi morta, em 12 de fevereiro de 2005, a ministra Marina Silva estava a poucos quilômetros de Anapu, na cidade de Porto de Moz, para "resgatar a herança de Chico Mendes" através da implementação da Reserva Extrativista Verde de Sempre. A irmã Dorothy Stang era amiga pessoal de Lula. Então este crime, que parece que foi realmente encomendado por um consórcio de fazendeiros, pode ser entendido como um claro recado ao governo federal de que não interferissem em seus negócios, como a irmã Dorothy heroicamente fazia. Assim sendo, se lhe restasse alguma dignidade, este governo deveria puni-los exemplarmente.

 

Bastava que cumprissem à risca as promessas de campanha originais, fizessem valer a legislação ambiental conforme manda a Constituição, ao invés de manter o IBAMA aqui desequipado e desamparado. Todos os responsáveis pelo crime têm as suas atividades econômicas diretamente ligadas a outros crimes, neste caso de desmatamento, enquadrando-se em vários artigos da Lei de Crimes Ambientais. E teriam suas vidas devastadas ao ver todas as suas terras confiscadas para fins de reforma agrária e reflorestamento. Ao governo, bastava que tivessem levado desde o começo o projeto "Fome Zero" a sério, pois ele, se voltado a uma perspectiva temporal mais ampla, inevitavelmente exigiria a suspensão total e imediata dos desmatamentos atuais, que causarão fome, seca e miséria nas próximas décadas.

 

Rodolfo Salm, PhD em Ciências Ambientais pela Universidade de East Anglia, é professor da Universidade Federal do Pará.

 

{moscomment}

Comentários   

0 #1 \"Agora vai Anapu\"Cândido Neto da Cunha 23-04-2009 17:54
Um exemplo clássico da relação umbilical PT-agrobandidos na região foi as eleições em Anapu no ano passado. Sobre o assunto, postei o texto abaixo no meu blog:

No rol das barbaridades eleitorais, poucos superam Anapú, o município do oeste do Pará que ficou conhecido mundialmente após o bárbaro assassinato da irmã Dorothy Stang. Anapú também tem um petista disputando a prefeitura local pela coligação “Pra Frente Anapú”. Além desta, mais 3 outras candidaturas pleiteiam o cargo municipal máximo.

Trata-se de Francisco de Assis dos Santos Souza, o Chiquinho do PT, que já foi presidente do STTR local. Mas não foi pelo cargo sindical que o mesmo ficou conhecido. Em 2004, Chiquinho foi apontado como um dos elos do esquema Safra-Legal (veja postagem abaixo), sendo indiciado pela CPI da Biopirataria. O esquema envolvia extorsão de madeireiros para candidatos petistas do Pará, venda de autorizações de desmatamentos em assentamentos e até um adesivo “oPTante do Safra-Legal” que era afixado em caminhões madeireiros para identificação ( não ser parados em postos de fiscalização).

No TSE, a declaração de bens de Chiquinho consta que o mesmo tem um patrimônio de 127.000,00 reais, maior parte referente a uma caminhonete Hylux/2004 e um lote no Projeto de Assentamento Grotão da Onça!

Chiquinho do PT tem como vice ninguém mais, ninguém menos que Délio Fernandes. Délio é aliado de Regivaldo Pereira Galvão, o ‘Taradão’, réu do assassinato de Dortothy. Ambos respondem ainda a processo por fraudes da Superintendência da Amazônia (Sudam). Taradão chegou a ser preso com o hoje deputado Jader Barbalho (PMDB-PA). Délio Fernandes, transferiu-se de Belém para Anapu após ser processado neste caso.

O mesmo comprou lotes de Contratos de Alienação de Terras Públicas sem anuência do Incra, em áreas licitadas na região de Anapú, Altamira e Pacajá. Parte destes lotes era pleiteada por Dorothy para a criação de Projetos de Desenvolvimento Sustentáveis (PDS). Aliás, foi em um destes lotes, o de número 55 da Gleba Bacajá, que a missionária foi morta.

Na declaração do candidato consta 3 destes lotes, totalizando 9.000,00 hectares de terras. Por sinal, a declaração de bens de Délio totaliza 10.169.000,00 reais, dos quais a maior parte refere-se a esses lotes, que até provem o contrário, são de terras públicas da União.

No caso Dorothy, as investigações revelaram que Taradão assumiu a responsabilidade sozinho e ajudou Délio a se livrar no início do inquérito, mas os depoimentos dos pistoleiros já condenados complicaram o empresário. Posteriormente, os mesmos pistoleiros mudaram depoimentos e o nome de Délio saiu da lista de acusados do famoso “consórcio da morte”, embora ainda seja investigado pelo Ministério Público Federal, segundo informações da imprensa.

Em matéria na Folha de São Paulo de 2006, um ano após a morte de Dorothy, Chiquinho havia se transformado em “assessor” do fazendeiro Délio Fernandes junto ao Ibama, acompanhando a tramitação de processos de “manejo florestal”. "Muita gente acha que você sentar com madeireiro e discutir é estar se corrompendo”, declarou na época.

Hoje, a relação entre o madeireiro e o ex-sindicalista encontra-se em novo patamar e os “companheiros” esperam das urnas o reconhecimento popular por tantos serviços prestados.

Haja estômago!
Citar

Para ajudar o Correio da Cidadania e a construção da mídia independente, você pode contribuir clicando abaixo.

Relacionados