Por que se lembrar de Roma?

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A história de Roma no cinema – principalmente nos Estados Unidos – é mais do que uma representação do passado, ela é também uma glorificação do Ocidente frente à barbárie. Poucas vezes não foi assim.

 

Uma delas foi com Spartacus (Spartacus, dir. Stanley Kubrick, EUA, 1960), filme que acabou dirigido por Stanley Kubrick após vários problemas de produção. O primeiro diretor cogitado foi David Lean, que recusou o projeto; depois, Anthony Mann não durou mais do que duas semanas no set. E não devemos esquecer que o roteirista, Dalton Trumbo, teve de se esconder atrás do pseudônimo Sam Jackson, por estar na "lista negra" do macarthismo. Não admira, então, o resultado da combinação Trumbo-Kubrick: menos a biografia de Spartacus, o que vemos na tela é uma alegoria da luta de classes pela figuração de uma revolta de escravos contra a dominação de Roma. A sublevação do escravo Spartacus (Kirk Douglas, de quem já se disse que era "baixinho" para o papel...) marca um rompimento com a tradição do filme histórico dos EUA, quase sempre conservador e apresentando uma linhagem direta do Império Romano ao Império dos Estados Unidos, cujas instituições cada vez mais raras vezes são contestadas pela sua indústria cinematográfica.

 

Tudo isso torna a observação seguinte curiosíssima: "O dever do historiador é dar um relato exato dos fatos conhecidos e provados. O dever de todo dramaturgo é de preencher as lacunas entre esses fatos". Por ter sido feita por Cécil B. De Mille! Ora, justamente De Mille, o cineasta das superproduções de filmes religiosos, das cenas cheias de gigantismo e de megalomania de Roma, do Egito, de Moisés abrindo as águas para libertar seu povo? A Antiguidade de De Mille é opulenta, magnificente; mas também é possível ver nos seus filmes – particularmente nas suas duas versões de Os Dez Mandamentos (EUA, 1923; 1956) – "a alegoria da luta da liberdade contra a opressão" (Marc Ferro Cinéma, une vision de l’histoire, p. 18).

 

Assim, mesmo a adaptação histórica mais tradicional abre aos cineastas a possibilidade de denunciar os não-ditos de uma sociedade em dado momento histórico – no caso de De Mille, os interditos das relações entre democracia e totalitarismo. Ainda que nada mude, o avesso da história se revela.

 

Mas, seria possível mostrar a Roma antiga nas telas sem César, sem Nero, sem Capitólio, nem monte Palatino, sem as evocações de Tácito ou de Tito Lívio? Como mostrar os avessos e desenterrar os esquecidos?

 

A ruptura mais radical com a tradição das grandiosas representações cinematográficas da Antiguidade é sem sombra de dúvida o Satíricon de Fellini (Fellini – Satyricon, dir. Federico Fellini, Itália, 1969). Nada de suntuosidade – tudo no filme é fragmentário e imaginativo; o enigma e a imoralidade dão as mãos em cenas de crueldade e obscenidade quase sem par. A adaptação de Petrônio é livre – e esse ponto é importante: ao reler o Satyricon de Petrônio, Fellini ficou fascinado com as lacunas do romance, os episódios sem conexão e as partes faltantes; da mesma maneira, em seu filme, a trajetória de Encolpio e Eumolpo é errática e abundam lugares anônimos – a beira de um rio, um bordel, uma praia. Somos jogados num mundo que nos é estranho, mas que poderia ser qualquer lugar. Fellini conseguiu, assim, fazer um filme que inverte a lógica das costumeiras filmagens históricas – ele consegue descrever no passado os fantasmas que nos assombram hoje, sem cair em lições moralizantes sobre um mundo pagão. Seu painel da vida em Roma é o contrário de uma reconstituição histórica tradicional porque ali não há "grande história". E, no entanto, a reconstituição da vida cotidiana dá ao filme uma autenticidade que poucas obras têm.

 

Lembremos, por exemplo, da morte de César: no filme, ela acontece numa peça de teatro presenciada pelos personagens – representação dentro da representação, estranhamento, verossimilhança. Nada lembra sequer de longe as imagens de um Cécil B. De Mille, e livramo-nos completamente também das imagens da Antiguidade que nos foram transmitidas pela tradição cristã, pelo Renascimento ou pelo Iluminismo. Mais uma vez, Marc Ferro:

 

"Dessa maneira, em lugar de reencontrar no Satíricon aquilo que a nossa cultura nos predispõe a assistir, somos jogados num outro mundo, misterioso, perdido, estrangeiro. Na observação de que certos afrescos romanos evocam na lembrança as obras de Chagall ou de Picasso, Fellini dá a chave da sua adaptação ao transcrever o mundo antigo: a contaminação dos estilos permite de um só golpe a estrangeiridade e a inteligibilidade. Trocando em miúdos, a estética da crueldade contamina o filme, já que sem crueldade um espetáculo sobre Roma seria impossível...".

 

"O principal esforço que tive de enfrentar foi propriamente visual: fazer nascer uma série de personagens que não tivessem sido plastificados pela cultura ou pela erudição, por tudo aquilo que aprendemos na escola e que nos paralisa", explica Fellini. Não desejando "ajuntar uma nova pérola ao colar dos filmes que o cinema consagrou à romanidade", Fellini escolheu filmar como um contador de histórias anônimo, que conta o que não tem lugar nos livros de história da escola, mas que a memória dos povos teima em não esquecer.

 

Cordiais saudações.

 

* * *

 

PETRÔNIO: Há algumas traduções do Satíricon para a língua portuguesa; este autor prefere a de Paulo Leminski, grafada Satyricon, e que bem poderia ser reeditada, com o posfácio.

 

Cassiano Terra Rodrigues é professor de filosofia da PUC-SP e contador de histórias, nem sempre verdadeiras, nem todas inverossímeis.

 

Contato: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

 

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Comentários   

0 #1 Leandro Cardim 24-04-2009 15:05
Acho que os textos que o Cassiano escreve são todos eles de muito bom gosto e com um tom muito bem humorado. Além disto, os textos trazem um ponto de vista construido com muita perspecácia e crítica. Se alguém duvidar, leia o texto desta semana e estará comprovada a bela parceria que se estabelece quando o cinema é interpretado por um filósofo arguto...
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